Rafael Greca deixará de ser cavalo para virar o burro de carga de Ratinho Junior?
Ex-prefeito de Curitiba aceita ser vice de Sandro Alex depois de rejeitar publicamente essa possibilidade; acordo expõe o tamanho da dificuldade do candidato escolhido pelo governador
Por Gilmar Ferreira, O Diário de Maringá
Rafael Greca é um homem culto. Tem história política, experiência administrativa, vocabulário próprio e inteligência suficiente para compreender o peso das palavras que escolhe.
Por isso, ninguém precisa desrespeitá-lo para devolver a pergunta feita por ele mesmo.
Alexandre Curi será apunhalado pelas costas pelo grupo político de Ratinho Junior?
Ao ser questionado sobre a possibilidade de disputar o Governo do Paraná como vice, Greca respondeu: “Por que eu vou passar de cavalo a burro, se agora eu já sou o cavalo?”. Também afirmou que não seria vice de ninguém.
Agora, depois de aceitar o segundo lugar na chapa encabeçada por Sandro Alex, a metáfora volta ao seu autor.
Rafael Greca deixou de ser cavalo para ser burro?
Ou, pior, aceitou virar o burro de carga de uma candidatura que o Palácio Iguaçu tenta fazer andar há meses?
O cavalo mudou de cocheira
O problema não está em mudar de posição. A política permite alianças, recuos e novas avaliações. O eleitor, porém, tem o direito de perguntar o que aconteceu entre a declaração enfática e o acordo fechado nesta quinta-feira, 30 de julho.
Greca não apenas dizia que seria candidato ao governo. Ele apresentava a condição de vice como um rebaixamento político.
Não era uma declaração vaga. Era uma comparação direta, escolhida por ele.
Poucas semanas depois, aceitou exatamente o papel que havia rejeitado. Abandonou a cabeça de chapa, entrou como vice de Sandro Alex e retornou ao projeto comandado por Carlos Massa Ratinho Junior, governador do Paraná pelo Partido Social Democrático.
A mudança não diminui a biografia de Greca. Mas cobra uma explicação compatível com a segurança que ele demonstrava quando se apresentava como o “cavalo”.
Qual foi o argumento capaz de transformar o que parecia humilhação em composição política?
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Greca entra para tentar empurrar Sandro Alex
A chegada de Rafael Greca não parece decorrer da força eleitoral de Sandro Alex. Parece decorrer justamente da dificuldade que o candidato governista enfrenta para transformar estrutura política em votos.
A pesquisa Bem Paraná/Instituto IRG divulgada em 29 de julho colocou o senador Sergio Moro, do Partido Liberal, com 37,4% das intenções de voto. O deputado estadual Requião Filho, do Partido Democrático Trabalhista, apareceu com 19,1%. Sandro Alex registrou 16,5%. Greca tinha 11,1%.
Outro levantamento divulgado em 22 de julho mostrou Moro com 40,7%, Requião Filho com 18,6%, Sandro Alex com 10,6% e Greca com 9,6%.
Os números mostram um candidato governista que ainda não conseguiu transformar apoio partidário, presença institucional e exposição pública em liderança eleitoral.
Ratinho Junior reuniu partidos, prefeitos, deputados e lideranças. Organizou convenção, distribuiu apoios e apresentou Sandro Alex como o nome da continuidade. Mesmo assim, Moro permaneceu na frente e Requião Filho sustentou a segunda colocação nos levantamentos citados.
Agora entra Greca.
Não para conduzir a carruagem, mas para ajudar a puxá-la.
A candidatura que não decola
O governo vende Sandro Alex como o “homem da infraestrutura”. É uma construção política conveniente. Coloca o candidato ao lado de obras, anúncios, estradas e investimentos feitos pelo Estado.
O problema começa quando a campanha sair dos palanques controlados e entrar nos debates.
Ali não haverá mestre de cerimônias, prefeito constrangido a aplaudir nem vídeo institucional preparado pela comunicação oficial. Haverá adversários cobrando prazos, contratos, obras atrasadas, promessas e resultados.
Será nesse momento que a candidatura de Sandro Alex precisará caminhar com as próprias pernas.
Até agora, não caminhou.
A força do Palácio Iguaçu conseguiu ampliar alianças. Ainda não conseguiu colocar seu candidato na liderança. A diferença é importante. Partido oferece tempo, estrutura e militância. Não entrega automaticamente confiança popular.
Greca pode acrescentar votos em Curitiba e na Região Metropolitana. Pode oferecer experiência administrativa, conhecimento do Estado e capacidade de comunicação. Também pode dar à chapa uma aparência de densidade que Sandro Alex ainda não alcançou sozinho.
Mas existe um risco evidente: Greca entrar maior do que o candidato a governador.
Nesse caso, o eleitor olhará para a fotografia e perguntará por que o nome mais conhecido está no banco do passageiro.
Moro e Requião Filho ocupam o espaço
Enquanto o grupo governista discute como fazer Sandro Alex crescer, Sergio Moro e Requião Filho avançam para ocupar os dois espaços mais valiosos da eleição.
Moro aparece na liderança. Requião Filho permanece em segundo lugar e mantém uma candidatura que sobreviveu sem a máquina estadual, sem o exército de prefeitos do governo e sem a estrutura de comunicação disponível ao Palácio Iguaçu.
Essa é a musculatura política que importa.
Não se trata de academia, fotografia ou aparência. Trata-se de manter uma candidatura competitiva durante meses, suportar ataques e continuar ocupando o segundo lugar enquanto o candidato governista tenta alcançá-lo.
Requião Filho ainda leva outra vantagem para a campanha: tem disposição para o confronto político e experiência em debates. Quando a disputa entrar na televisão, a campanha deixará de ser definida apenas por apoios, convenções e fotografias ao lado do governador.
Moro também terá de enfrentar esse teste.
O senador possui liderança nas pesquisas e reconhecimento estadual. No segundo turno, porém, enfrentaria uma campanha mais concentrada, com comparação direta de propostas, biografias e capacidade de resposta.
A pesquisa Genial/Quaest divulgada em julho mostrou Moro com 48% e Requião Filho com 29% em uma simulação de segundo turno. O resultado favorece Moro, mas não elimina o debate sobre como os dois reagiriam a uma campanha frente a frente.
A pressão política tem limite
Ratinho Junior demonstra capacidade para organizar partidos e atrair lideranças. O acordo com Greca confirma isso.
A questão é saber até onde essa articulação produz voto.
Prefeitos podem subir em palanques. Deputados podem gravar vídeos. Dirigentes partidários podem declarar apoio. Nenhum deles entra sozinho na cabine de votação com o eleitor.
Quando a campanha começar de verdade, a pressão política exercida nos bastidores poderá produzir fotografias, adesões e discursos. Não necessariamente produzirá convencimento.
Sandro Alex precisará responder pelo próprio currículo e sustentar a candidatura sem depender o tempo todo do governador, de Greca ou da estrutura que o cerca.
Caso contrário, Ratinho Junior terá montado uma chapa numerosa, cara politicamente e cheia de lideranças, mas incapaz de romper a disputa que hoje aponta Moro e Requião Filho à frente.
Greca aceitou carregar o projeto
Rafael Greca pode ajudar Sandro Alex a crescer. Seria precipitado negar esse efeito antes do início formal da campanha.
Também seria ingênuo acreditar que a entrada do ex-prefeito resolve automaticamente os problemas do candidato governista.
Greca não chega como consequência de uma candidatura em expansão. Chega na tentativa de impedir que ela naufrague.
Essa diferença explica o movimento.
Ratinho Junior precisava de alguém capaz de dar a Sandro Alex o peso político que o candidato ainda não demonstrou ter nas pesquisas e que o próprio governador, até agora, não conseguiu lhe transferir. . Encontrou justamente o homem que, semanas antes, dizia que aceitar a vaga de vice seria passar de cavalo a burro.
Greca mudou de ideia. O eleitor julgará se houve grandeza na composição ou conveniência no recuo.
A metáfora, porém, foi dele.
Nesta quinta-feira, 30 de julho, Rafael Greca aceitou deixar a cabeça de chapa para carregar o projeto eleitoral de Ratinho Junior nas costas.
Resta saber se o cavalo vai puxar a candidatura ou se descobrirá, durante os debates, que foi escalado apenas para tentar fazer andar aquilo que continuava empacado.
Créditos: imagem da manchete tirada de publicações das rede de Greca, feita por IA




