O PL deu a Pasquini seu primeiro mandato; o PSD lhe dará outras derrotas?
Em 2024, o Partido Liberal financiou 73,17% dos recursos declarados pela campanha de Eduardo Pasquini à Prefeitura de Nova Esperança. Dois anos depois, o prefeito anunciou sua saída da legenda
Por Gilmar Ferreira, jornalista
O prefeito de Nova Esperança, João Eduardo Pasquini, publicou um vídeo para justificar sua mudança partidária. Segundo ele, a decisão ocorreu em reconhecimento a tudo o que o governador fez pelo município.
Na opinião deste jornalista, porém, a justificativa apresenta um grande equívoco. Afinal, o Estado não produz recursos próprios. O dinheiro aplicado nos municípios vem, principalmente, dos impostos pagos pela população e pelas empresas.
Parte dessa arrecadação segue para os governos estadual e federal. Depois, uma parcela retorna às cidades por meio de transferências, convênios, programas e investimentos. Portanto, quando o governo destina recursos a Nova Esperança, cumpre uma de suas funções institucionais.
Isso não impede o prefeito de reconhecer a atuação do governador. Contudo, apresentar os investimentos públicos como uma espécie de favor pessoal distorce a origem do dinheiro. No fim das contas, são os próprios contribuintes que financiam as obras e os serviços públicos.
Duas derrotas antes da vitória pelo PL
Antes de conquistar a Prefeitura de Nova Esperança, Pasquini disputou duas eleições por partidos diferentes e perdeu ambas.
Em 2012, concorreu pela primeira vez à Prefeitura de Nova Esperança. Naquela ocasião, disputou o cargo pelo Partido da Social Democracia Brasileira, o PSDB, mas não conseguiu se eleger.
Posteriormente, em 2018, tentou uma vaga na Assembleia Legislativa do Paraná pelo Partido Social Democrático, o PSD. Pasquini recebeu 21.838 votos no estado. Apesar da votação, também não conquistou o mandato.
Assim, sua trajetória eleitoral registra três candidaturas por três partidos diferentes:
- Em 2012, candidato a prefeito pelo PSDB, não eleito.
- Em 2018, candidato a deputado estadual pelo PSD, não eleito.
- Em 2024, candidato a prefeito pelo PL, eleito.
Portanto, Pasquini sofreu duas derrotas antes de alcançar seu primeiro cargo eletivo. A vitória ocorreu justamente quando disputou a Prefeitura de Nova Esperança pelo Partido Liberal.
PL financiou 73,17% dos recursos da campanha
Além de oferecer a legenda, o PL teve participação decisiva no financiamento da campanha vitoriosa de 2024.
De acordo com a prestação de contas apresentada à Justiça Eleitoral, o diretório nacional do Partido Liberal repassou recursos equivalentes a 73,17% de todo o dinheiro declarado pela campanha de Pasquini.

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Ou seja, mais de sete em cada dez reais utilizados na disputa vieram do partido. Com essa estrutura, Pasquini recebeu 9.060 votos e venceu a eleição com 61,59% dos votos válidos.
Dessa maneira, não se pode tratar a participação do PL como um detalhe secundário. O partido ofereceu a estrutura política e financiou a maior parte da campanha que levou Pasquini à Prefeitura.
Jacovós tem seus motivos para demonstrar descontentamento
A saída de Pasquini provocou uma reação pública do deputado estadual Delegado Jacovós, do Partido Liberal. Na tribuna da Assembleia Legislativa do Paraná, o parlamentar disse que o prefeito “traiu” o partido.
A palavra e a responsabilidade pela declaração pertencem a Jacovós. Entretanto, o deputado tem seus motivos políticos para demonstrar descontentamento.
Quando Pasquini precisava de apoio para chegar ao poder, o PL assumiu a maior parte da conta eleitoral. Além disso, lideranças da legenda participaram da campanha e colocaram sua estrutura à disposição da candidatura.
Agora, após a eleição, Pasquini deixa justamente o partido que financiou 73,17% dos recursos declarados por sua campanha. Por isso, a reação de Jacovós não surgiu do nada. Ela ocorre dentro de uma ruptura política concreta.
Investimento público não pertence ao governador
Pasquini pode mudar de partido. A legislação permite a troca partidária aos prefeitos, pois os chefes do Executivo são eleitos pelo sistema majoritário e não estão sujeitos às mesmas regras de fidelidade aplicadas aos vereadores e deputados.
No entanto, o prefeito precisa sustentar sua decisão com argumentos políticos claros. Usar os investimentos destinados a Nova Esperança como justificativa exige cuidado, porque esses recursos não pertencem ao governador.
O dinheiro vem dos impostos pagos pelos cidadãos. Portanto, o governo não concede um favor quando devolve parte dessa arrecadação ao município. Apenas aplica recursos públicos em uma cidade que também contribui para financiar o Estado e a União.
Enquanto isso, permanece um fato documentado: Pasquini perdeu duas eleições por PSDB e PSD. Somente conseguiu vencer quando disputou pelo PL, partido que financiou 73,17% dos recursos declarados por sua campanha em 2024.
Uma dúvida cruel: caso Sandro Alex (PSD) não seja eleito, mesmo com o apoio de Pasquini, e o prefeito também perca sua próxima eleição, novamente pelo PSD, somando essa derrota à que já sofreu pelo partido em 2018, poderá Pasquini pedir música no Fantástico?



