Quando influenciador, portal de notícias, rádio ou TV anuncia bet, já sabemos quem está ganhando. E não é você

Quando influenciador, portal de notícias, rádio ou TV anuncia bet, já sabemos quem está ganhando. E não é você


Empresas de apostas movimentam bilhões de reais enquanto famílias enfrentam dívidas e problemas de saúde mental. Apresentadores, influenciadores e veículos recebem para divulgar um negócio sustentado pelas perdas dos apostadores.

Quando um influenciador, apresentador ou veículo de comunicação anuncia uma bet, pelo menos duas partes já sabem como poderão ganhar dinheiro: quem vendeu a publicidade e a empresa de apostas. O apostador, porém, entra na relação sem qualquer garantia de retorno.

A propaganda mostra vencedores, bônus e possibilidades de prêmio. Quase nunca apresenta a dívida, a compulsão, o conflito familiar ou a tentativa desesperada de recuperar o dinheiro perdido.



As apostas de quota fixa foram regulamentadas no Brasil. Empresas autorizadas podem atuar e anunciar seus serviços, desde que cumpram as regras estabelecidas pelo Ministério da Fazenda. A legalidade, contudo, não elimina a discussão moral sobre quem lucra com a divulgação e quem assume o prejuízo.

Um mercado que movimenta bilhões

O Tribunal de Contas da União informou que as apostas on-line movimentaram valores estimados em até R$ 130 bilhões em 2024. Esse montante representa a movimentação financeira do setor, não o prejuízo líquido dos apostadores.

A diferença é importante. Parte do dinheiro retorna aos jogadores como prêmio. Outra parte permanece com as operadoras e sustenta o funcionamento do negócio, os patrocínios e as campanhas publicitárias.

Mesmo com essa ressalva, o número mostra a dimensão alcançada pelas bets no Brasil. O TCU também identificou falhas na prevenção aos problemas relacionados às apostas, falta de indicadores específicos e poucas campanhas de conscientização. O levantamento foi divulgado pelo Tribunal de Contas da União.

Mais de 22 milhões apostaram em um mês

Pesquisa do Instituto DataSenado apontou que mais de 22 milhões de brasileiros fizeram apostas esportivas nos 30 dias anteriores ao levantamento, realizado em 2024. O número correspondia a aproximadamente 12% da população considerada na pesquisa.

Entre os apostadores, 62% eram homens. O levantamento também identificou maior participação de pessoas jovens e mostrou que a maioria gastou até R$ 500 naquele período.

O perfil social aumenta a preocupação. Segundo a divulgação do Senado, muitos apostadores tinham renda de até dois salários mínimos. Para essas famílias, perder R$ 100, R$ 200 ou R$ 500 pode significar menos dinheiro para alimentação, aluguel, medicamentos e contas básicas. Os resultados estão disponíveis no Senado.

CNC estimou 1,3 milhão de inadimplentes

Em apresentação à Comissão Parlamentar de Inquérito das Bets, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo estimou que o avanço das apostas on-line teria levado cerca de 1,3 milhão de brasileiros à inadimplência em 2024.

A entidade também calculou que os gastos com as plataformas poderiam ter chegado a R$ 40 bilhões naquele ano. A própria CNC reconheceu, entretanto, que não havia um número exato sobre quanto as famílias brasileiras efetivamente gastaram.

Portanto, esses valores devem ser tratados como estimativas da entidade, não como uma medição definitiva. As informações foram apresentadas pela CNC ao Senado.

O efeito econômico vai além da dívida individual. O dinheiro destinado às apostas deixa de circular em supermercados, farmácias, lojas, restaurantes e prestadores de serviços. Enquanto as plataformas ampliam receitas, setores que geram empregos e atendem necessidades reais disputam uma parcela menor do orçamento familiar.

As bets causam mais prejuízo que as tarifas de Trump?

A comparação chama atenção, mas exige responsabilidade.

De acordo com o Banco Central, as exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram US$ 2,7 bilhões em 2025, passando de US$ 40,4 bilhões para US$ 37,7 bilhões. A redução correspondeu a aproximadamente 0,1% do Produto Interno Bruto.

O Banco Central considerou o impacto macroeconômico moderado, embora determinados estados e setores tenham sofrido efeitos mais intensos. O órgão também encontrou sinais de que empresas brasileiras redirecionaram parte das exportações para outros mercados. Os dados constam em estudo do Banco Central.

Já os R$ 130 bilhões relacionados às bets representam movimentação financeira estimada. O valor não corresponde ao prejuízo líquido deixado pelas apostas.

Por isso, ainda não existe base técnica suficiente para afirmar que as bets causaram ao país um prejuízo maior que as tarifas impostas pelo governo de Donald Trump.

A comparação possível é outra: a movimentação financeira das bets foi muito superior ao valor da queda das exportações brasileiras para os Estados Unidos. Isso mostra a dimensão do mercado.

O prejuízo também chega à saúde pública

O Ministério da Saúde reconhece os problemas relacionados às apostas como uma questão de saúde pública.

Guia publicado pela pasta em 2026 informa que 4,4% das pessoas que já jogaram ou apostaram, ouvidas pelo III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, apresentaram alto risco de envolvimento problemático.

O documento cita associações entre problemas com apostas, ansiedade, depressão, comportamentos compulsivos e risco aumentado de suicídio e autolesão. Também aponta prejuízos financeiros, familiares e sociais. Isso não significa que todo apostador desenvolverá um transtorno, mas confirma que o risco existe e pode produzir consequências graves. Consulte o guia do Ministério da Saúde.

Quando o jogador perde o controle, o problema não fica restrito ao aplicativo. A família pode enfrentar contas atrasadas, empréstimos, mentiras, brigas e venda de bens. Em casos mais graves, o apostador precisa de tratamento no Sistema Único de Saúde.

O lucro fica no setor privado. Parte dos danos chega às famílias e ao poder público.

Quem anuncia também assume uma responsabilidade

Veículos, apresentadores e influenciadores podem receber pela divulgação das bets, conforme as condições de cada contrato. A publicidade usa a confiança construída por essas pessoas para aproximar a plataforma de novos clientes.

Não é apenas a marca da bet que aparece na tela. A credibilidade de quem anuncia acompanha a mensagem.

O seguidor pode pensar que determinada plataforma é segura ou vantajosa porque uma personalidade conhecida aceitou divulgá-la. A relação se torna ainda mais delicada quando a campanha oferece bônus, códigos promocionais ou apresenta a aposta como uma experiência fácil e divertida.

A Lei nº 14.790/2023 proíbe propagandas que apresentem apostas como solução para problemas financeiros, alternativa ao emprego, fonte de renda adicional ou forma de investimento. A legislação também proíbe mensagens de celebridades que sugiram que o jogo contribui para o sucesso pessoal ou social. As restrições constam na legislação federal.

Em julho de 2026, o Ministério da Fazenda ampliou as exigências para a publicidade do setor. Os anúncios precisam apresentar advertências como “Apostar pode causar dependência”, “Apostar faz você perder dinheiro” ou “Aposta não é investimento”. A medida foi divulgada pelo Ministério da Fazenda.

Se o próprio governo exige a advertência de que apostar faz perder dinheiro, a pergunta é inevitável: é moral usar a própria influência para convencer outras pessoas a apostar?

Já sabemos quem recebe primeiro

A empresa de comunicação comercializa o espaço. O apresentador ou influenciador cumpre o contrato, quando existe remuneração. A plataforma recebe novos cadastros, depósitos e apostas.

Todos podem ganhar antes mesmo de a bola rolar.

O único que coloca o próprio dinheiro em risco é o apostador. Ele não sabe se receberá algum prêmio. Também não sabe se conseguirá parar depois da primeira perda.

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O modelo econômico das apostas depende de uma realidade simples: no conjunto das operações, as empresas precisam arrecadar mais do que pagam em prêmios. Se todos os apostadores ganhassem, as bets não teriam recursos para pagar publicidade, patrocinar clubes e manter contratos milionários.

Portanto, quando um influenciador, apresentador ou site divulga uma bet, já é possível identificar quem tem interesse financeiro naquela propaganda. São a plataforma e, nos contratos remunerados, quem recebeu para anunciá-la.

Não é você.

Cumprir a lei não encerra a discussão moral

Uma publicidade pode obedecer às regras e continuar socialmente questionável. A lei estabelece limites mínimos, mas não substitui a consciência de quem decide associar sua imagem ao produto.

Cada veículo e personalidade precisa avaliar se o valor do contrato compensa o risco de estimular apostas entre pessoas endividadas, jovens ou emocionalmente vulneráveis.

O anunciante recebe pela campanha. A bet calcula suas margens. O apostador assume a perda. Quando o problema se transforma em dívida, conflito familiar ou transtorno mental, dificilmente o apresentador que apareceu na propaganda estará ao lado dele.

Os números ajudam a compreender a dimensão desse mercado: até R$ 130 bilhões movimentados em 2024, mais de 22 milhões de apostadores em apenas um mês e uma estimativa da CNC de 1,3 milhão de pessoas levadas à inadimplência.

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Diante desses fatos, a pergunta não é apenas se anunciar bet é legal.

A pergunta é: podemos confiar em quem aceita ganhar dinheiro para ajudar uma empresa de apostas a encontrar a próxima vítima, disposta a perder dinheiro e até a própria saúde mental?

*Imagem da manchete feita por IA

TV Diário
Gilmar Ferreira

Gilmar Ferreira

Perfil Profissional: Gilmar Ferreira (MTB 0011341/PR) Gilmar Ferreira consolida uma carreira multifacetada como jornalista, apresentador de programas de TV e mestre de cerimônias, unindo o rigor da investigação à fluidez da comunicação ao vivo. Com atuação destacada no Paraná e Santa Catarina, ele imprime autoridade técnica e sensibilidade humana em cada projeto que lidera. Atuação Estratégica Atual Diretor de Redação: O Diário de Maringá. Comentarista: Programa Paraná Cidadesno Canal 10.1 e RDR FM 93,3. Mestre de Cerimônias: Atuação oficial em eventos de destaque no Estado do Paraná. Experiência em Televisão Reconhecido pela presença de vídeo e condução de pautas complexas, Gilmar atuou como apresentador de programas e âncora nas seguintes emissoras: TV Maringá (Band) RIC TV Maringá (Record) Record News (Rede Mercosul) RTV 10 Maringá Trajetória no Rádio Com passagens por emissoras líderes de audiência, sua voz é referência em informação e entretenimento: Paraná: Jovem Pan FM, Metropolitana FM, Rede de Rádios, Globo FM, Rádio Colorado AM e Eden FM. Santa Catarina: Rádio Menina FM e Rádio Globo AM (Blumenau)

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