Giselli Bianchini representa um perigo para a direita, não para a esquerda

Giselli Bianchini representa um perigo para a direita, não para a esquerda


Ao elogiar os militares de 1964, participar de atos que defendiam uma intervenção militar e tratar adversários como inimigos, a advogada e vereadora demonstra uma visão de liberdade que parece valer apenas para o seu grupo político

A vereadora de Maringá Giselli Patricia Caetano de Lima Bianchini, atualmente filiada ao Partido Liberal (PL), apresenta-se como defensora da direita, da liberdade e dos valores conservadores.

Formada em Direito desde 2006, conforme informa a Câmara Municipal de Maringá, Giselli conhece, ou deveria conhecer, os princípios constitucionais, a separação dos Poderes e os limites do Estado Democrático de Direito.



Por isso, seu histórico político se torna ainda mais preocupante.

Esta é uma coluna de opinião. A crítica apresentada parte de discursos públicos, projetos protocolados, registros jornalísticos e episódios ocorridos nas ruas de Maringá.

Na minha avaliação, Giselli Bianchini representa um perigo para a direita democrática porque transforma a liberdade em um direito seletivo. Aparentemente, seu grupo pode falar, provocar, ocupar espaços e ultrapassar limites. Enquanto isso, os adversários deveriam permanecer calados.

O maior contribuidor individual

Isso não é liberdade. Tampouco é democracia.

O elogio aos militares de 1964

Em dezembro de 2025, Giselli usou a tribuna da Câmara de Maringá para elogiar os militares que participaram do movimento de 1964. Na ocasião, afirmou que “os generais fizeram um ótimo trabalho naquele período”.

O regime instaurado em 1964 fechou o Congresso Nacional, cassou mandatos, censurou a imprensa, perseguiu adversários, prendeu opositores e suprimiu direitos políticos. A ditadura militar durou 21 anos e terminou em 1985.

Depois da repercussão, a vereadora afirmou que sua declaração havia sido mal interpretada. Também negou que defendesse uma ditadura. A explicação, contudo, não apaga o conteúdo da fala pronunciada na tribuna.

Não questiono o direito de Giselli expor sua opinião. Questiono, sim, a contradição de alguém reivindicar liberdade enquanto elogia um período no qual milhares de brasileiros perderam o direito de falar, votar, protestar e publicar informações.

Uma pessoa pode ser de direita sem defender uma ditadura. Da mesma forma, pode apoiar Jair Bolsonaro sem pedir uma intervenção militar. Também pode combater a esquerda sem negar a legitimidade das urnas.

Confundir conservadorismo com autoritarismo, portanto, prejudica toda a direita democrática.

Os atos em frente ao Tiro de Guerra

A proximidade de Giselli com discursos contrários à ordem democrática não começou na Câmara.

Depois das eleições de 2022, ela participou das manifestações realizadas em frente ao Tiro de Guerra de Maringá. Os atos contestavam o resultado das urnas e defendiam uma intervenção militar com Jair Messias Bolsonaro no poder.

Em um dos vídeos publicados naquele período, Giselli aparece discursando e sugerindo o grito: “Se precisar, a gente acampa, mas ladrão não sobe a rampa”.

Naquele momento, Luiz Inácio Lula da Silva já havia vencido a eleição presidencial. Assim, impedir sua posse por meio de uma intervenção militar significaria romper a Constituição e desrespeitar o voto popular.

O vídeo comprova a participação de Giselli na mobilização. Entretanto, o material, isoladamente, não demonstra que ela tenha organizado ou financiado viagens para Brasília. Além disso, não prova que soubesse antecipadamente da invasão ocorrida em 8 de janeiro de 2023.

Faço essa distinção porque opinião não autoriza invenção.

Ainda assim, lideranças políticas precisam responder pelo conteúdo dos discursos que promovem. Defender uma intervenção militar para impedir a posse de um presidente eleito não é uma manifestação democrática. Trata-se de apoiar uma ruptura institucional.

Giselli é advogada. Portanto, não pode alegar desconhecimento sobre a gravidade dessa reivindicação.

A democracia que Giselli encontrou no centro de Maringá

No sábado, 5 de setembro, acompanhei pessoalmente as movimentações políticas no centro de Maringá.

A caminhada do candidato ao Governo do Paraná Sandro Alex passou por integrantes do Partido dos Trabalhadores (PT) e de outras legendas de esquerda. Embora estivessem no mesmo espaço e defendessem candidaturas diferentes, os grupos mantiveram o respeito.

Não houve confronto. Ninguém tentou impedir a caminhada de Sandro Alex.

Foi uma demonstração simples de democracia.

Pouco depois, Giselli passou em um veículo com aparelhagem de som e fez declarações contra a esquerda em um tom que considerei provocativo.

Apesar disso, ela foi ouvida. Nenhuma pessoa tentou silenciá-la. Da mesma forma, não houve reação agressiva nem qualquer iniciativa para impedir sua manifestação.

Giselli pôde criticar a esquerda diante de pessoas de esquerda. Esse episódio comprova, de maneira concreta, que vivemos em uma democracia.

Por isso, sua postura chamou ainda mais atenção. Enquanto Sandro Alex e os integrantes dos partidos de esquerda passaram uns pelos outros com respeito, a vereadora preferiu transformar aquele momento em confronto verbal.

Uma representante eleita deveria ajudar a reduzir tensões. Não deveria, portanto, criar um conflito onde ele não existia.

Projetos que enfrentam limites constitucionais

A dificuldade de Giselli em reconhecer limites também aparece em sua produção legislativa.

Em fevereiro de 2025, ela apresentou uma proposta que previa o pagamento de um salário mínimo aos presidentes de associações de bairros responsáveis pela administração de salões comunitários.

A Procuradoria Jurídica da Câmara emitiu parecer contrário. Segundo a análise, a proposta invadia uma competência do Poder Executivo e poderia gerar despesas sem iniciativa do prefeito.

Diante da repercussão, Giselli pediu o arquivamento do projeto.

Parlamentares podem cometer erros técnicos. Nesse caso, entretanto, trata-se de uma vereadora formada em Direito. Conhecer as competências do Legislativo e respeitar a separação dos Poderes são obrigações básicas de quem pretende elaborar leis.

Outras propostas apresentadas por ela também provocaram questionamentos por interferir em competências de outros Poderes, restringir direitos ou confrontar o princípio constitucional da laicidade do Estado.

Entre elas estavam iniciativas relacionadas à criação do Dia do Patriota Conservador, à proibição do Halloween nas escolas, à fixação dos Dez Mandamentos em espaços públicos e à inclusão da Bíblia como material paradidático.

Naturalmente, Giselli tem o direito de defender sua fé e seus valores. Sua crença pessoal, porém, não pode ser imposta a toda a sociedade por meio do poder público.

A Constituição protege a liberdade religiosa justamente porque o Estado não pode escolher uma religião oficial nem obrigar os cidadãos a seguir determinada convicção.

A propaganda mantida na imobiliária

A relação de Giselli com o cumprimento das regras também foi questionada depois das eleições de 2022.

Em maio de 2023, mais de seis meses após o pleito, uma propaganda com seu nome e número de candidata ainda permanecia na fachada da imobiliária ligada a ela.

( Matéria sobre esse imagem Angelo Rigon link )

Além do período de permanência, o tamanho do material também foi questionado. Propagandas eleitorais de grandes dimensões estão submetidas a restrições e não podem ser tratadas como uma simples identificação comercial.

Novamente, tratava-se de uma candidata formada em Direito. Giselli conhecia, ou deveria conhecer, o prazo para retirar a propaganda eleitoral.

O episódio se torna relevante porque revela uma contradição recorrente. A vereadora cobra respeito às regras dos adversários, mas encontra dificuldades para aplicar o mesmo rigor à própria conduta.

Wind banner permanece no local em horário proibido, sem respeitar os horários estabelecidos pela legislação eleitoral.

Giselli também já protagonizou uma discussão com uma pessoa que segurava uma faixa em uma passarela de Maringá.

A vereadora Giselli Bianchini, tentou impedir a liberdade de expressão. Mulheres que colocaram faixas contra anistia aos golpistas na passarela da avenida Colombo tiveram que chamar a policia porque ela queria tirar a faixa.

Ela poderia discordar da mensagem, responder politicamente ou apresentar seus argumentos. Quem realmente defende a liberdade, porém, precisa aceitar que o adversário também tem o direito de se manifestar dentro da lei.

Agora, a própria campanha de Giselli enfrenta questionamentos pelo uso de um banner em uma viaduto sobre a Avenida Colombo.

A legislação eleitoral O artigo 37 da Lei nº 9.504/1997 proíbe a instalação de propaganda em bens públicos e de uso comum. Essa vedação alcança passarelas, viadutos, pontes, pontos de ônibus, postes e outros equipamentos urbanos.

A regra vale para todos, independentemente de a mensagem pertencer à direita, à esquerda ou ao centro.

Caso o tenha sido colocado diretamente na estrutura pública, cabe à Justiça Eleitoral avaliar a irregularidade. Se o material estava apenas sendo segurado por uma pessoa, sem fixação e dentro das regras aplicáveis, essa circunstância também precisa ser considerada.

Consequentemente, a apuração deve observar exatamente o que mostram as imagens, o local, o horário e a forma como a propaganda foi utilizada.

Wind banners não podem dormir nas ruas

Existem ainda registros de wind banners da campanha de Giselli deixados nas ruas durante a noite.

A propaganda móvel precisa respeitar as condições estabelecidas pela legislação eleitoral. Os materiais devem ser colocados e retirados diariamente. Além disso, não podem dificultar o trânsito de pessoas e veículos nem permanecer abandonados em vias públicas.

Se os wind banners ficaram nas ruas durante a madrugada, sem pessoas responsáveis, pode ter ocorrido um descumprimento das regras eleitorais.

A definição jurídica cabe à fiscalização e à Justiça Eleitoral. Do ponto de vista político, contudo, a contradição já está exposta.

Quem reivindica o direito de cobrar o cumprimento das leis também precisa obedecê-las.

O perigo para a própria direita

Giselli Bianchini tem o direito de combater a esquerda, defender o conservadorismo, apoiar Jair Bolsonaro e pedir votos. Em contrapartida, seus adversários possuem exatamente os mesmos direitos.

O problema começa quando a liberdade passa a valer apenas para o próprio grupo. Também aparece quando uma ditadura é elogiada, uma intervenção militar é defendida e as regras parecem alcançar somente os adversários.

A direita democrática não precisa de autoritarismo, provocação permanente ou desrespeito à legislação. Pelo contrário, precisa de propostas, responsabilidade institucional e disposição para conviver com quem pensa diferente.

Giselli Bianchini (foto) foi criticada por Lauer: “nunca se manifestou ou lutou pela minha permanência”(Leia a matéria aqui )

Giselli não representa um perigo por ser de direita. O risco está em associar a direita a comportamentos que afrontam a democracia e, depois, apresentar qualquer crítica como perseguição ou censura.

No sábado, Sandro Alex e integrantes de partidos de esquerda dividiram o centro de Maringá sem confronto. Naquele mesmo espaço, Giselli falou livremente diante de seus adversários e ninguém tentou impedi-la.

Esse fato concreto mostra o verdadeiro significado da democracia. Todos podem falar e discordar. Ao mesmo tempo, todos precisam respeitar a Constituição e as mesmas leis.

Para Giselli Bianchini, essa obrigação deveria ser ainda mais evidente. Afinal, ela não é apenas vereadora. É advogada e exerce um mandato para criar, fiscalizar e cumprir leis.

Liberdade somente para fazer aquilo que interessa ao próprio grupo não é liberdade. É privilégio. E privilégio político nunca foi sinônimo de democracia.

Este texto é uma coluna de opinião elaborada a partir de fatos públicos, registros jornalísticos e episódios acompanhados pelo autor.

Créditos: Imagens e fontes consultadas do Maringá News do Jornalista Angelo Rigon

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Redação O Diário de Maringá

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