Bipolaridade política: com Lula em Brasília e de olho em Flávio no Paraná, Ratinho Junior e Sandro Alex abandonam Caiado
Enquanto tenta conquistar o eleitorado de Flávio Bolsonaro no Paraná, o PSD mantém filiados em ministérios do governo Lula e deixa seu próprio candidato à Presidência longe da propaganda eleitoral
Por Gilmar Ferreira
O Partido Social Democrático apresenta faces diferentes ao eleitor, conforme o estado, o candidato e o público que pretende conquistar.
No Paraná, o PSD do governador Carlos Roberto Massa Junior, o Ratinho Junior, trabalha pela candidatura de Sandro Alex ao Governo do Estado. A campanha, porém, quase não mostra Ronaldo Caiado, candidato do próprio partido à Presidência da República.
Ao mesmo tempo, o grupo evita explicar que integrantes do PSD ocupam posições importantes no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores.
Atualmente, dois filiados ao PSD comandam ministérios no governo Lula.
André de Paula, do PSD de Pernambuco, ocupa o Ministério da Agricultura e Pecuária desde 1º de abril de 2026. Antes disso, comandava o Ministério da Pesca e Aquicultura.
Alexandre Silveira, do PSD de Minas Gerais, está à frente do Ministério de Minas e Energia desde janeiro de 2023, quando começou o atual governo.
Além deles, Carlos Fávaro, do PSD de Mato Grosso, comandou o Ministério da Agricultura e Pecuária entre janeiro de 2023 e março de 2026. Depois, deixou o cargo para disputar a eleição. Na sequência, André de Paula assumiu a pasta.
Portanto, a relação do PSD com o governo Lula não se limita ao apoio ocasional em votações no Congresso Nacional. O partido ocupa espaços de primeiro escalão e participa diretamente das decisões da administração federal.
Um partido, três discursos
No cenário nacional, o PSD apresenta Ronaldo Caiado como candidato à Presidência. Dentro do governo Lula, mantém dois ministros. Já no Paraná, integrantes da legenda tentam conquistar o eleitorado de Flávio Bolsonaro sem assumir claramente essa preferência.
Assim, o partido sustenta três posições políticas diferentes.
Para o eleitor de esquerda, o PSD pode destacar sua participação no governo Lula. Aos que procuram uma alternativa à polarização, oferece a candidatura de Caiado. Enquanto isso, diante do eleitor bolsonarista, candidatos da legenda evitam confrontar Flávio Bolsonaro e diminuem a presença do próprio presidenciável em seus materiais.
A estratégia pode ser conveniente do ponto de vista eleitoral. Politicamente, contudo, exige explicações.
Caso o PSD confie no governo Lula a ponto de manter filiados em ministérios, seus candidatos precisam assumir essa participação. Se considera que o atual governo deve ser substituído, a legenda deveria explicar por que continua ocupando cargos de primeiro escalão. Por fim, se escolheu Ronaldo Caiado para representar um projeto diferente, deveria trabalhar efetivamente por sua candidatura.
Na prática, o partido tenta preservar todas as possibilidades sem assumir integralmente nenhuma delas.
Sandro Alex precisa dizer quem apoia
Sandro Alex disputa o Governo do Paraná pelo PSD. Por isso, o eleitor tem o direito de saber qual projeto presidencial acompanha sua candidatura.
O candidato apoia Ronaldo Caiado, presidenciável do próprio PSD? Prefere Flávio Bolsonaro, candidato do Partido Liberal? Ou concorda com a permanência de integrantes de sua legenda no governo Lula?
A resposta precisa ser clara.
O PSD pode alegar que liberou seus filiados para apoiar qualquer candidato à Presidência. Essa decisão, entretanto, não elimina a necessidade de transparência política. Afinal, a liberdade partidária não impede que cada candidato diga publicamente quem pretende apoiar.
A medida adotada pelo presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, já provocou críticas internas. O ex-senador Jorge Bornhausen cobrou apoio a Caiado e criticou os filiados que trabalham por Lula ou Flávio Bolsonaro.
Desse modo, o questionamento não surgiu apenas entre adversários ou observadores externos. Integrantes do próprio PSD reconhecem a contradição e cobram uma posição dos filiados.
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O silêncio também representa uma escolha
Sérgio Moro, candidato do PL ao Governo do Paraná, pede votos abertamente para Flávio Bolsonaro. O eleitor pode concordar ou discordar dessa composição, mas sabe qual projeto político o candidato apresenta.
Na campanha de Sandro Alex, contudo, a posição não aparece com a mesma clareza. Ronaldo Caiado recebe pouco espaço. A participação do PSD no governo Lula quase nunca entra no discurso. Flávio Bolsonaro não tem o apoio oficial da legenda, embora sua base eleitoral seja disputada intensamente pelos candidatos paranaenses do partido.
Diante disso, o PSD de Ratinho Junior parece querer os votos do bolsonarismo, os cargos no governo Lula e a candidatura presidencial de Ronaldo Caiado. Tudo ao mesmo tempo.
Alguns podem chamar essa flexibilidade de pragmatismo. Outros podem interpretá-la como oportunismo político. Independentemente da avaliação, o partido não deveria esconder suas conexões para permitir que cada candidato adote o discurso mais conveniente em cada cidade.
Ronaldo Caiado disputa a Presidência pelo PSD. André de Paula e Alexandre Silveira, também filiados ao partido, integram o governo Lula. Sandro Alex, por sua vez, representa essa mesma legenda na eleição para o Governo do Paraná.
Esses são os fatos que formam o cenário político apresentado ao eleitor. Agora, Sandro Alex precisa explicar qual dessas três faces do PSD estará ao lado dele caso vença a eleição.
Créditos: Imagem da Manchete feita por IA



