Dengue: Como o Crescimento Desordenado e as Mudanças Climáticas Alimentam a Maior Epidemia do Século



A proliferação do mosquito e o avanço contínuo das arboviroses revelam a urgência de políticas públicas integradas e da conscientização coletiva para conter uma crise global de saúde pública.

Por Raimundo Franco ( Especialista em Saúde Pública, Mestre em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável)

A dengue se consolidou como a arbovirose mais impactante para a humanidade, representando um grave desafio de saúde pública não apenas no Brasil, mas em âmbito global. Presente em mais de 80 países, a doença atingiu um patamar crítico na epidemia de 2024, quando superou recordes históricos ao registrar 15 milhões de casos e 12 mil óbitos no planeta.



Esse cenário traz consigo uma pesada carga financeira. O aumento expressivo dos gastos com exames, medicamentos e internações sobrecarrega os sistemas públicos de saúde, forçando as redes de atenção primária a operar no limite de sua capacidade para atender à crescente demanda por assistência.

A Urbanização Desordenada como Fator Crítico
O crescimento urbano acelerado e sem o devido planejamento nas últimas décadas gerou consequências severas: moradias precárias, escassez de saneamento básico, deficiências na coleta de resíduos sólidos e infraestrutura deficitária, além do agravamento de problemas sociais como desemprego, exclusão e aumento da criminalidade.

O poder público não conseguiu acompanhar essa expansão exacerbada com ações contínuas e planejadas de promoção, prevenção e proteção à saúde. Como resultado, amplas áreas urbanas ficaram desprovidas de controle vetorial e de atenção primária adequados, criando o cenário ideal para o avanço acelerado das arboviroses, zoonoses e acidentes com animais peçonhentos — uma realidade especialmente visível nos países em desenvolvimento.

Impactos Ambientais e Mudanças Climáticas
Paralelamente às deficiências urbanas, as agressões ambientais das últimas décadas — como o aquecimento global, o desmatamento, as queimadas, o assoreamento dos rios e a destruição das matas ciliares — desencadearam eventos extremos: ondas de calor intenso, secas severas, alterações no regime de chuvas, inundações e deslizamentos.

Essas transformações ambientais alteraram o comportamento de vetores e impulsionaram o surgimento e a explosão de casos de doenças emergentes e reemergentes, resultando no aumento expressivo de confirmações e óbitos por arboviroses.

A Responsabilidade Coletiva e a Ação Integrada
A falta de conscientização ambiental e sanitária por parte da população é outro fator determinante nesse processo. O descarte irregular de entulhos, materiais recicláveis e lixo orgânico em terrenos baldios, vias sem saída, canteiros centrais e fundos de vale contribui exponencialmente para a proliferação dos focos do vetor.

Para conter esse avanço, as ações de proteção precisam ser estruturadas de forma estratégica, intersetorial e multidisciplinar, envolvendo o setor público, a iniciativa privada e toda a sociedade. A integração entre áreas como Saúde, Meio Ambiente, Saneamento, Educação, Transporte, Limpeza Urbana, Defesa Civil, universidades e grandes empresas é indispensável.

Mais do que respostas emergenciais, o combate à dengue exige um planejamento contínuo e permanente durante todo o ano, garantindo que as medidas preventivas estejam consolidadas antes da chegada do período chuvoso e do verão.

TV Diário

Redação

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