Nefrologia sustentável ganha espaço no Congresso Brasileiro de Nefrologia 2026

Nefrologia sustentável ganha espaço no Congresso Brasileiro de Nefrologia 2026


Dr. Paulo Fraxino, nefrologista, destaca que reduzir o impacto ambiental da assistência renal também passa pela prevenção da doença, uso racional de recursos e preparação dos serviços para eventos climáticos extremos

Paraná, setembro de 2026 – O impacto ambiental dos tratamentos renais e os caminhos para tornar a assistência nefrológica mais sustentável estiveram entre os temas debatidos durante o XXXIII Congresso Brasileiro de Nefrologia 2026, realizado em Belo Horizonte. O nefrologista Dr. Paulo Henrique Fraxino, vice-presidente da Região Sul da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) e vice-presidente Regional Paraná da Associação Brasileira dos Centros de Diálise e Transplante (ABCDT), participou do fórum dedicado ao tema durante o congresso.

A discussão ganha relevância diante do elevado consumo de recursos associado às terapias renais substitutivas. Uma única sessão de hemodiálise pode demandar grandes volumes de água, além de energia elétrica, equipamentos e materiais descartáveis. Dependendo das características do sistema utilizado, o consumo pode chegar a cerca de 500 litros de água por sessão.

“Quando falamos em sustentabilidade na nefrologia, não estamos falando em reduzir a qualidade do tratamento ou economizar recursos essenciais ao paciente. Estamos falando em utilizar água, energia e materiais de maneira mais racional, reduzindo desperdícios sem abrir mão da segurança e da qualidade da assistência”, explica Dr. Paulo Fraxino.



Conceitos como Green Nephrology e Green Dialysis — Nefrologia Verde e Diálise Verde — vêm ganhando espaço internacionalmente e propõem incorporar critérios de sustentabilidade às diferentes etapas do cuidado renal.

Entre as medidas discutidas estão o uso mais eficiente de água e energia, adoção de fontes renováveis, gestão e separação adequada dos resíduos e reaproveitamento seguro da água rejeitada pelos sistemas de osmose reversa para finalidades que não envolvam o atendimento direto ao paciente, como limpeza, irrigação e descarga de sanitários.

Para Fraxino, entretanto, a discussão precisa começar antes mesmo da necessidade de diálise.

“Talvez uma das atitudes mais sustentáveis em nefrologia seja justamente evitar ou retardar a chegada do paciente à terapia renal substitutiva. Prevenir a doença renal crônica, identificar precocemente quem está em risco e controlar adequadamente condições como diabetes e hipertensão significa preservar a saúde das pessoas e, ao mesmo tempo, reduzir a necessidade futura de tratamentos que demandam grande quantidade de recursos”, afirma.

Mudanças climáticas também representam desafio para a assistência renal

Outro aspecto abordado no debate é a relação entre as mudanças ambientais e a saúde dos rins. Ondas de calor mais intensas podem aumentar episódios de desidratação, enquanto enchentes, secas e outros eventos extremos podem comprometer estruturas essenciais para o funcionamento dos serviços de diálise, como abastecimento de água e energia, transporte de pacientes e distribuição de medicamentos e insumos.

As enchentes ocorridas no Rio Grande do Sul em 2024 evidenciaram essa vulnerabilidade. Mais de 2,4 milhões de pessoas foram afetadas e os serviços de saúde enfrentaram desafios relacionados à mobilidade, comunicação, energia, água e logística.

“Um serviço de saúde sustentável também precisa ser resiliente. Não basta pensarmos apenas em consumir menos recursos. Precisamos preparar as unidades para continuar oferecendo um tratamento essencial mesmo diante de eventos climáticos extremos, interrupções no abastecimento de água, energia ou dificuldades de transporte”, destaca o nefrologista.

O debate acompanha um movimento que vem ganhando força no Brasil e no exterior. A Sociedade Brasileira de Nefrologia criou, em 2023, seu Comitê de Sustentabilidade em Nefrologia, incluindo na agenda temas como eficiência no uso de recursos naturais, gestão de resíduos, prevenção da doença renal, transplante, inovação e preparação dos serviços para eventos climáticos extremos.

Em 2026, um documento internacional coordenado pelo KDIGO (Kidney Disease: Improving Global Outcomes) também reforçou a necessidade de tornar a diálise ambientalmente mais sustentável diante do crescimento da população que necessita dessas terapias e da pressão crescente sobre recursos naturais.

O transplante renal também integra essa discussão. Além dos ganhos já reconhecidos em sobrevida e qualidade de vida para pacientes elegíveis, ampliar o acesso ao transplante pode contribuir para reduzir, no longo prazo, a utilização de recursos associada às terapias dialíticas.

“Durante décadas, a medicina avançou para desenvolver tecnologias capazes de substituir a função dos rins e manter milhares de pessoas vivas. Esse avanço precisa continuar. O que estamos acrescentando agora é uma nova pergunta: como garantir esses tratamentos para uma população crescente, preservando também os recursos necessários para cuidar das próximas gerações?”, questiona Fraxino.

Segundo o especialista, a chamada Nefrologia Verde não propõe uma escolha entre paciente e planeta, mas uma visão mais ampla sobre saúde.

“Cuidar dos rins e cuidar do planeta não são responsabilidades opostas. Quando usamos os recursos de maneira consciente, prevenimos a doença renal e tornamos os serviços mais preparados para enfrentar mudanças ambientais, estamos protegendo o paciente de hoje e ajudando a preservar as condições de saúde das próximas gerações”, conclui.

TV Diário

Redação

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