Mauro Moraes, medo de confisco 36 anos depois de Collor? Que desculpa esfarrapada!
Deputado e coordenador da campanha de Sergio Moro cita o confisco de 1990 para justificar reserva em dinheiro vivo, mas deixa perguntas atuais sem resposta.
Por Gilmar Ferreira | Editorial
O deputado estadual Mauro Moraes, do Partido Liberal (PL) e um dos coordenadores da campanha de Sergio Moro, também do PL, ao governo do Paraná, afirmou, em vídeo publicado em seu perfil no Instagram, que mantém uma reserva de dinheiro em espécie por causa do confisco ocorrido no governo de Fernando Collor de Mello.
No mesmo vídeo, o parlamentar alegou perseguição política na Assembleia Legislativa do Paraná e em seus comitês de campanha. Segundo ele, isso ocorre desde que deixou a Secretaria de Estado para apoiar outro projeto de governo.
Antes de avaliar essa justificativa, vale recordar um fato: o Plano Collor bloqueou recursos bancários em março de 1990. Já se passaram 36 anos e cerca de seis meses. O episódio provocou sofrimento e prejuízos, mas sua lembrança não responde automaticamente a perguntas sobre dinheiro mantido em espécie hoje.
Desde então, Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), venceu três eleições presidenciais: 2002, 2006 e 2022. Dilma Rousseff, também do PT, venceu duas: 2010 e 2014. Nenhum desses governos repetiu o confisco geral de depósitos do Plano Collor.
Lula já está em seu terceiro mandato. O confisco invocado pelo deputado não aconteceu neste governo. Por que uma lembrança de 1990 deveria bastar para esclarecer uma reserva de dinheiro em 2026?
Mauro Moraes, essa explicação não convence. Na avaliação deste editorial, soa como uma desculpa esfarrapada.
O senhor pode ter desconfiança dos bancos. Pode guardar a memória de um prejuízo antigo. Isso explica uma preferência pessoal, mas não esclarece a origem dos recursos, o valor da reserva, quando ela se formou e quais documentos sustentam sua versão.
O Paraná não parou em 1990. Sua resposta também não deveria parar.
Quando a PF chega ao próprio grupo, vira perseguição?
Mauro Moraes afirma que sofre retaliações. Tem direito de contestar procedimentos e de apresentar sua defesa. Entretanto, a acusação de perseguição política precisa de elementos concretos.
A pergunta é inevitável: quando a Polícia Federal investiga um adversário, a atuação representa combate à corrupção, mas, quando chega ao próprio grupo, passa a ser perseguição?
Qual é a régua, deputado? A legalidade da investigação ou a identidade de quem está sob suspeita?
A Polícia Federal não está automaticamente certa ao investigar um adversário. Também não está automaticamente errada ao investigar um aliado. O critério precisa ser o mesmo: procedimentos legais, provas e direito de defesa.
Essa cobrança ganha relevância porque Mauro Moraes integra a coordenação da campanha de Sergio Moro, que construiu sua projeção pública com o discurso de combate à corrupção.
Quem cobra transparência dos outros precisa aceitar perguntas sobre si. Quem defende a atuação das instituições precisa demonstrar por que considera uma ação irregular quando ela o alcança.
Moraes denuncia perseguição, mas não apresenta elementos que comprovem a motivação política alegada. Sua indignação é evidente. A demonstração da acusação, porém, não aparece na fala.
Que fatos sustentam a denúncia de retaliação? A mudança de apoio político, sozinha, não comprova que uma investigação decorra de perseguição.
O senhor acha que os paranaenses são ingênuos a ponto de aceitar essa referência como explicação completa?
Também chama atenção a recomendação de que todo brasileiro deveria pensar como ele. Uma experiência pessoal não basta para recomendar à população que mantenha suas economias fora dos bancos. Muito menos serve para encerrar questionamentos sobre uma reserva particular.
Mauro Moraes tem direito de se defender. A sociedade tem direito de considerar sua explicação frágil, cobrar esclarecimentos e recusar o argumento de que toda pergunta representa uma agressão.
Não é possível saber o que o deputado pensa intimamente. É possível avaliar o que decidiu dizer publicamente. E, nesse ponto, a manifestação ficou aquém do que se espera de um parlamentar e coordenador de campanha.
Teria sido mais prudente reunir os documentos e apresentar uma resposta completa. A referência ao confisco de Collor ampliou a controvérsia e deixou o essencial sem esclarecimento.
Moraes encerrou o vídeo com a promessa de que o Brasil voltará a brilhar. Antes do slogan, deputado, esclareça sua reserva: quanto dinheiro, de qual origem, desde quando e com quais documentos. Collor pertence à história. Essas respostas pertencem ao presente.
Veja abaixo o vídeo publicado por Mauro Moraes em seu perfil no Instagram.
Não questionamos aqui a origem lícita do dinheiro. A pergunta é sobre sua eventual destinação: para que seriam usados esses recursos, deputado Mauro Moraes?
Um suposto saque de R$ 300.000,00 em espécie às vésperas de uma eleição é, no mínimo, estranho, sobretudo diante da facilidade de pagar com Pix e evitar o risco de um assalto ao transportar dinheiro. A explicação apresentada no vídeo torna essa escolha ainda mais questionável.



