Se alimentar a multidão foi a resposta de Jesus, por que desvalorizar o socorro imediato, padre Adão?
Apoio à produção, geração de empregos e assistência social podem caminhar juntos. Os Evangelhos e os dados oficiais ajudam a examinar a fala do sacerdote.
Por Gilmar Ferreira
Na transcrição de sua fala durante uma missa, o padre Adão afirma que “o governo dos pobres não pode ser esse governo de assistencialismo”. Critica a oferta de cesta básica e Bolsa Família e defende apoio às empresas para gerar emprego e renda.
A preocupação com o trabalho é legítima. Mas alimentar quem tem fome não impede promover autonomia. Além disso, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), também adotou medidas de apoio à produção e aos pequenos negócios.
O mandato iniciado em janeiro de 2023 ainda não terminou. Seus resultados exigem períodos e critérios claros. Anúncios de financiamento não equivalem a dinheiro integralmente aplicado, e nenhum governo pode receber sozinho o crédito por todos os empregos criados.
Ainda assim, os programas existentes precisam fazer parte da avaliação. Reduzir a atuação federal à distribuição de benefícios deixa de fora políticas econômicas que o próprio padre considera necessárias.
Agro, indústria e comércio também receberam apoio
Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária, o Plano Safra 2025/2026 anunciou R$ 516,2 bilhões em recursos para financiar a agricultura empresarial. Trata-se de crédito para o setor, não de uma doação desse valor aos produtores.
O número consta na publicação oficial sobre o lançamento do Plano Safra 2025/2026.
Na indústria, o governo lançou a Nova Indústria Brasil em janeiro de 2024. Na apresentação inicial, o Plano Mais Produção previa R$ 300 bilhões em financiamento até 2026, com participação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), da Finep e da Embrapii.
Esse valor corresponde à previsão anunciada no lançamento, não à comprovação de desembolso integral. A informação aparece na apresentação do Plano Mais Produção pelo BNDES.
Para pequenos negócios, inclusive estabelecimentos comerciais, o Programa Acredita reuniu instrumentos de crédito e renegociação de dívidas. A Lei nº 14.995, de outubro de 2024, instituiu medidas como o ProCred 360 e o Desenrola Pequenos Negócios, além de alterações no Pronampe.
Os instrumentos estão descritos na página oficial do Programa Acredita.
É possível discutir se essas iniciativas foram suficientes, acessíveis ou eficientes. Sua existência, porém, mostra que assistência social e apoio à atividade econômica convivem nas políticas do atual mandato.
Mais empresas abriram do que fecharam
O padre pergunta quantas empresas faliram nos últimos anos. Para avaliar o cenário, também é necessário perguntar quantas abriram.
Segundo o Mapa de Empresas, do governo federal, entre janeiro e abril de 2025 o Brasil registrou 1.815.912 aberturas e 973.330 fechamentos. As aberturas superaram os encerramentos, com saldo positivo de 842.582 empresas.
Na comparação com os primeiros quatro meses de 2024, as aberturas cresceram 24,4%, enquanto os fechamentos aumentaram 13,4%. Houve crescimento nos dois movimentos, mas o país registrou mais negócios abertos do que encerrados.
Os números constam no boletim oficial do Mapa de Empresas do primeiro quadrimestre de 2025, especialmente nas páginas 4 e 8.
Esse balanço inclui microempreendedores individuais. Fechamento cadastral não significa necessariamente falência judicial. Da mesma forma, abrir um CNPJ não comprova, por si só, prosperidade ou contratação de funcionários.
Os dados não apagam as dificuldades dos empresários. Entretanto, mostram por que citar apenas lojas que fecharam oferece um retrato incompleto. No período analisado, o saldo de registros empresariais foi positivo.
Emprego exige olhar para os resultados
O Ministério do Trabalho e Emprego registrou, pelo Novo Caged, saldo positivo de 1.278.498 empregos formais em 2025. O resultado corresponde à diferença entre 26.599.777 admissões e 25.320.279 desligamentos.
A fonte é o sumário executivo oficial do Novo Caged de dezembro de 2025.
Esse saldo não significa que todas as empresas prosperaram ou que ninguém perdeu o emprego. Também não demonstra, sozinho, que uma política específica produziu todas essas vagas. Mostra que, naquele ano, as contratações superaram as demissões no conjunto do mercado formal.
Uma avaliação responsável precisa considerar dificuldades empresariais, crédito, juros, contratações e desligamentos. A experiência de um estabelecimento não substitui o retrato do país.
Cesta básica: o que foi aprovado
A tributação dos alimentos também exige precisão. A regulamentação da reforma tributária, aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada em 2025, estabeleceu alíquota zero de IBS e CBS para os produtos relacionados na Cesta Básica Nacional de Alimentos.
A previsão consta na Lei Complementar nº 214/2025, disponível no portal do Senado Federal.
Não seria correto afirmar que essa mudança já eliminou todos os impostos sobre a cesta básica. Sua aplicação acompanha a transição dos novos tributos, com efeitos a partir de 2027, conforme explica o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social.
Portanto, trata-se de uma medida aprovada durante o mandato, cujo impacto não pode ser apresentado como resultado integralmente realizado hoje. Tampouco permite afirmar que houve redução geral de impostos.
O ponto concreto é que aliviar a tributação de alimentos essenciais também integra a agenda aprovada. Apoiar a produção e proteger quem precisa comer podem perseguir objetivos complementares.
Jesus tinha pescadores entre os discípulos
A comparação religiosa merece o mesmo cuidado. Mateus 4:18-22 apresenta Pedro, André, Tiago e João ligados ao trabalho com barcos e redes. Jesus tinha pescadores entre seus discípulos.
Entretanto, quando a multidão que o acompanhava precisou comer, a resposta registrada no Evangelho não foi uma ordem para ensinar aquele povo a pescar.
Em Marcos 6:37, Jesus orienta: “Dêem-lhes vocês algo para comer”. Na sequência, o relato descreve a multiplicação de cinco pães e dois peixes para alimentar a multidão.
A passagem não transforma Jesus em defensor de um programa governamental contemporâneo. Mas oferece um contraponto à ideia de que ajudar diretamente seria inferior a promover autonomia.
Quem precisa comer não pode esperar que todas as condições para conquistar o próprio sustento estejam resolvidas.
A dignidade existe antes do emprego
Padre Adão afirma que o governo deve oferecer a “vara de pescar” em lugar do “peixe na mão do pobre”. A imagem valoriza a independência, mas deixa uma questão: como atravessa esse caminho quem está sem alimento?
Uma família pode precisar de assistência hoje e de oportunidades para dispensá-la amanhã. Além disso, doença, deficiência, idade e responsabilidades de cuidado impedem que a sobrevivência de todos dependa exclusivamente do mercado de trabalho.
Em Mateus 25:35-40, Jesus associa alimentar, acolher, vestir e visitar os necessitados ao cuidado dirigido a ele próprio. A assistência aparece como responsabilidade diante do sofrimento humano.
A dignidade pertence também a quem está desempregado e a quem não consegue trabalhar. Não começa com a carteira assinada.
Seria injusto afirmar que o sacerdote defende abandonar os pobres para beneficiar os ricos. Ele argumenta que empresas mais fortes podem gerar renda e emprego. A crítica está em apresentar esse caminho como razão para diminuir a importância da ajuda imediata.
O Brasil não é o único país que oferece assistência às pessoas em situação de necessidade. Estados Unidos, Inglaterra, Portugal, Espanha e Japão também mantêm programas de proteção social, com valores e critérios próprios.
Nos Estados Unidos, o TANF oferece dinheiro e serviços a famílias necessitadas, com valores definidos por cada estado. Já o SNAP concede crédito para comprar alimentos. Desde outubro de 2026, o benefício pode chegar a US$ 306 mensais para uma pessoa e US$ 1.023 para uma família de quatro integrantes, nos 48 estados contíguos e em Washington. O pagamento depende da renda familiar.
Na Inglaterra, o Universal Credit ajuda pessoas com baixa renda a pagar despesas de subsistência. A parcela básica mensal é de £424,90 para uma pessoa sozinha com 25 anos ou mais e £666,97 para um casal com pelo menos um integrante nessa faixa etária. O programa pode acrescentar £303,94 por filho elegível, além de auxílio para aluguel, cuidados infantis e situações de deficiência. A renda e os descontos previstos nas regras influenciam o pagamento final.
Em Portugal, o Rendimento Social de Inserção complementa a renda de famílias vulneráveis. O cálculo considera €247,56 mensais para o titular, €173,29 por outro adulto e €123,78 por menor. Para dois adultos e duas crianças, a referência soma €668,41, antes do desconto dos rendimentos computáveis da família. O programa também prevê medidas de integração social e profissional.
Na Espanha, o Ingreso Mínimo Vital estabelece uma renda garantida de €733,60 mensais para um adulto sozinho e €1.393,84 para dois adultos e duas crianças. O governo paga a diferença entre essa referência e a renda computável do domicílio. Há ainda complemento por criança: €115 mensais para menores de 3 anos, €80,50 dos 3 aos 5 anos e €57,50 dos 6 aos 17 anos, conforme os critérios de acesso.
No Japão, o Seikatsu Hogo oferece apoio para subsistência, moradia, educação e saúde. O valor varia conforme as necessidades e a renda do domicílio, sem uma quantia única para todas as famílias. Separadamente, o auxílio por filho paga ¥15.000 mensais para o primeiro e o segundo filho com menos de 3 anos e ¥10.000 dos 3 anos até a faixa etária do ensino médio. Para o terceiro filho e seguintes, o valor chega a ¥30.000 mensais por criança, conforme as regras de contagem familiar. Esse auxílio não tem limite de renda.
Os valores estão nas moedas de cada país e não representam pagamentos automáticos a todas as famílias. Ainda assim, demonstram que transferências de renda e apoio às necessidades básicas também fazem parte das políticas públicas de países ricos.
Orientar sem insultar
Outro contraste aparece na linguagem. Ao contestar a ideia de que o governo atual seria o “pai dos pobres”, o padre declara: “Ô gente boa, deixa de ser idiota, deixa de ser besta”.
Representação eleitoral contra vereadora
Em Mateus 5:22, Jesus adverte contra a ira e o insulto ao próximo. O menosprezo aos ouvintes entra em tensão com esse ensinamento.
O sacerdote pode questionar escolhas eleitorais. Mas a discordância de um fiel não o torna menos digno de respeito.
Ao afirmar que “o pai dos pobres quer manter o pobre pobre”, o padre atribui uma intenção política sem apresentar, nesse trecho, elementos que a comprovem. Essa acusação exige demonstração, assim como qualquer avaliação sobre a atuação de um governante.
Nenhum partido tem exclusividade sobre o Evangelho. Seus ensinamentos também servem para examinar a linguagem e as prioridades de quem fala em nome da fé.
O apoio ao agro, à indústria e aos pequenos negócios merece análise crítica. A assistência social também. Os dados e programas citados mostram, contudo, que essas políticas podem coexistir.
Na multiplicação dos pães e peixes, Jesus tinha pescadores entre seus discípulos. Ainda assim, diante daquela multidão, providenciou alimento.
A vara pode ajudar a garantir o sustento de amanhã. Mas o pão dado hoje mantém viva a pessoa que poderá pescar ainda hoje ou amanhã.
Diocese de Paranavaí publica decreto sobre afastamento de sacerdote veja aqui



