Obesidade favorece refluxo, gastrite e gordura no fígado
O excesso de peso alcança 60,3% dos adultos brasileiros, cerca de 96 milhões de pessoas, e a obesidade atinge 25,9% dessa população, o equivalente a 41,2 milhões de indivíduos, segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) divulgados pelo Ministério da Saúde. Além de elevar o risco de diabetes e hipertensão, a condição interfere diretamente no aparelho digestivo e ajuda a explicar a alta frequência de refluxo, gastrite, cálculos na vesícula e gordura no fígado entre pessoas acima do peso, de acordo com especialistas do Instituto Cambiare, centro médico paulistano voltado ao tratamento da obesidade e das doenças digestivas.
A curva de crescimento é expressiva. O Mapa da Obesidade, da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), aponta que a prevalência da doença no país passou de 11,8% em 2006 para 20,3% em 2019, alta de 72% em 13 anos. As queixas digestivas também são frequentes: o refluxo afeta 25,2 milhões de brasileiros, segundo dados do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva (CBCD), e um levantamento da Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG) indicou que quase metade da população relata algum sintoma de má digestão.
Entre o tratamento clínico e a cirurgia
A definição da conduta para cada paciente ganhou novas variáveis. "Hoje a decisão entre tratamento clínico e cirúrgico tem ganhado mais dilema com a chegada das canetinhas emagrecedoras", afirma o cirurgião bariátrico Dr. Wanderson Gonçalves, que já realizou entre 300 e 400 cirurgias bariátricas.
Ele explica que o procedimento surgiu para pacientes com falha do tratamento clínico multidisciplinar e passou a abranger pessoas com doenças metabólicas graves e de difícil controle, como o diabetes grave. "Por isso, uma equipe multidisciplinar é essencial no tratamento da obesidade", diz.
Segundo o médico, a obesidade é tratada no consultório nessas duas frentes, e a cirurgia é indicada quando o peso do paciente estagna ou quando não há melhora clínica das doenças associadas. "Emagrecer por si só não é o foco principal, é consequência", pontua.
Entre os ganhos observados após o tratamento, o Dr. Wanderson Gonçalves cita a melhora do refluxo, a diminuição da gordura no fígado e a regularização do padrão das fezes, favorecida pelo consumo de fibras, com redução da constipação. De acordo com ele, esses efeitos são percebidos já nos primeiros dois meses após a cirurgia.
Pressão no abdômen e gordura em circulação
A gastroenterologista Dra. Giullia Fragassi, do Instituto Cambiare, descreve o primeiro mecanismo envolvido. "O excesso de peso traz vários problemas de saúde que interferem diretamente no trato digestório. O aumento do peso aumenta o volume abdominal que, por sua vez, pressiona o estômago, facilitando o retorno do conteúdo do estômago para o esôfago", explica.
Segundo a médica, esse processo está na origem do refluxo e da gastrite. Em um artigo publicado no SciELO (ABCD), os pesquisadores demonstram como pacientes com acúmulo de gordura apresentam a pressão intra-abdominal elevada, gerando o gradiente de pressão que força o suco gástrico para o esôfago e causa a esofagite erosiva.
O fígado também sofre com o excesso de gordura que circula no organismo, já que capta parte dela e passa a acumulá-la. "E por que isso é tão ruim? Porque pode acarretar a cirrose hepática", alerta a especialista, ao lembrar que a evolução inflamatória do quadro recebe o nome de esteato-hepatite metabólica. No caso da vesícula, ela relaciona os cálculos a uma alimentação inadequada: "As pedras, em sua maioria, são formadas de colesterol em excesso circulante no corpo da pessoa com excesso de peso", complementa.
A gordura no fígado raramente dá sinais. De acordo com Giullia Fragassi, a condição não provoca dor, náusea nem mal-estar, o que retarda a procura por atendimento. "Então, na grande maioria das vezes, a descoberta é com exames de rotina, como ultrassom, ou quando há uma suspeita vista em um exame de colesterol e triglicérides elevados", detalha a gastroenterologista.
Cuidados que permanecem depois do emagrecimento
A perda de peso não encerra o acompanhamento. "Uma dieta balanceada, saudável, com pouca gordura, com consumo adequado de proteína e fibras é necessária para toda a vida. Não somente para manter o peso perdido, mas também para manter o estômago sem a agressividade gerada pela dieta hiperpalatável e hipergordurosa de antes", orienta Dra. Giullia Fragassi.
A médica acrescenta que esse padrão alimentar reduz sintomas de gastrite e refluxo, preserva o fígado sem gordura, diminui o risco de cirrose e pode praticamente eliminar o intestino preso quando combinado a fibras e boa ingestão de água.
No Instituto Cambiare, cujo nome significa "mudar" em italiano, a atuação conjunta entre cirurgia e gastroenterologia orienta o cuidado de pacientes com obesidade que também apresentam doenças digestivas.
Segundo o Dr. Wanderson Gonçalves, a integração entre as duas especialidades permite identificar essas condições gastroenterológicas de forma precoce e tratá-las antes mesmo do início do processo de emagrecimento. Os especialistas destacam que a escolha entre medicação, mudança de hábitos ou cirurgia depende de avaliação médica individual.
Para mais informações, basta acessar: http://institutocambiare.com/



