CONGRESSO ABERTO PARA NEGÓCIOS, FECHADO PARA O POVO

CONGRESSO ABERTO PARA NEGÓCIOS, FECHADO PARA O POVO

O Congresso reabre hoje. Reabre como sempre: blindado, refrigerado e perfeitamente alheio ao país que diz representar. Para si, nunca fechou. Para o povo, jamais abriu. As portas giratórias funcionam, os microfones amplificam discursos vazios e os espelhos confirmam o figurino da desconexão. Lá dentro, chamam de “tensão política”. Aqui fora, o nome é outro: cinismo institucionalizado.

A pauta não é o povo. Nunca foi. O povo é apenas o ruído incômodo que atrapalha as negociações de bastidor. A pauta é contra ele: contra o salário que acaba antes do mês, contra o aluguel que sobe sem pedir licença, contra a ideia perigosa de que trabalho deveria garantir dignidade. O Congresso retorna reafirmando seu maior consenso: a inutilidade eficiente, meticulosamente paga com dinheiro público.

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E Mato Grosso, tem representante lá? Tem, segundo os registros oficiais e as fotos de campanha sorridentes demais para serem verdadeiras. Na prática, o estado serve mais como caixa eletrônico do que como prioridade política. Os representantes votam conforme a melodia do poder central, chamam obediência de “articulação” e submissão de “responsabilidade”.

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Na última eleição, votei com esperança — esse vício nacional que insiste em sobreviver mesmo depois de tantas recaídas. Acreditei que alguém ousaria romper o cordão umbilical com os interesses de sempre. Erro primário. No lugar de representação, recebemos uma encenação bem ensaiada: a boca fala em nome do povo, mas a voz ecoa de gabinetes que jamais enfrentaram uma fila de hospital. As pautas defendidas não passam pelo mercado, não encaram o transporte público, não conhecem o SUS. Em nome da tal responsabilidade, escolheu proteger quem nunca precisou de proteção. Para o eleitor, restou o abandono com selo institucional.

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O Congresso já nem tenta disfarçar. Debatem privilégios como se fossem direitos naturais. Tratam emendas, cargos e benesses como se fossem política pública. Do outro lado, o povo calcula o básico: comida, remédio, aluguel. Eles chamam isso de governabilidade. Nós chamamos de extorsão legalizada.

Brasília não é longe. É alta demais. Alta o suficiente para não ouvir o barulho da panela vazia, nem o rangido do ônibus lotado às seis da manhã. Lá, o país é um conceito abstrato. Aqui, é boleto, é espera, é urgência.

O Congresso reabre, sim. Reabre para negócios, acordos e autoproteção. Fecha para o Brasil real, que segue do lado de fora, pagando caro por um espetáculo decadente, conduzido por atores que esqueceram — ou nunca souberam — quem está sentado na plateia.

(*) Joel Mesquita – Sociólogo

Redação O Diário de Maringá

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