Sempre disseram que o país iria quebrar. Quebrou quando acabou a escravidão?
O debate sobre a redução da jornada semanal de trabalho voltou à pauta nacional com base em um levantamento técnico da Universidade Estadual de Campinas, Unicamp. O estudo integra o Dossiê 6×1, elaborado por 63 especialistas e composto por 37 artigos, e aponta que a redução da jornada de 44 para 36 horas semanais pode gerar até 4,5 milhões de novos empregos no Brasil e elevar em aproximadamente 4% os níveis de produtividade.
Não se trata de discurso ideológico. Trata-se de pesquisa acadêmica baseada em modelagens econômicas, análise comparativa internacional e dados do próprio mercado de trabalho brasileiro. A conclusão central é objetiva: a redistribuição das horas trabalhadas pode estimular novas contratações sem provocar retração econômica.
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Segundo os pesquisadores, o Brasil possui uma combinação de alta taxa de informalidade, desemprego estrutural e concentração de carga horária que favorece a redistribuição do tempo de trabalho. Ao reduzir a jornada individual sem redução proporcional da produção, abre-se espaço para absorção de mão de obra ociosa. Além disso, jornadas mais equilibradas tendem a reduzir afastamentos por problemas de saúde, aumentar o engajamento e melhorar o desempenho médio dos trabalhadores, o que fundamenta a projeção de aumento de produtividade.
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Mesmo assim, parte do mercado reage com previsões alarmistas, como queda do PIB, aumento de custos e insolvência empresarial. O curioso é que esse roteiro já foi repetido em outros momentos históricos.
Quando se discutia o fim da escravidão, setores conservadores afirmavam que as fazendas quebrariam e que a economia rural entraria em colapso. Alegava-se que haveria aumento da criminalidade, revoltas, instabilidade social e “vadiagem” generalizada. Argumentava-se ainda que o escravo era propriedade legal e que a abolição sem indenização violaria o direito adquirido, configurando confisco de bens privados. Por isso, defendia-se o gradualismo e compensações financeiras aos proprietários.
Antes da abolição definitiva, foram aprovadas medidas intermediárias, como a Lei do Ventre Livre, de 1871, e a Lei dos Sexagenários, de 1885, sob o argumento de que mudanças abruptas seriam irresponsáveis e perigosas. A escravidão foi oficialmente abolida em 13 de maio de 1888, com a assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel.
O Brasil não quebrou. A economia cafeeira não colapsou. Houve reorganização produtiva, incentivo à imigração e adaptação do modelo de trabalho. Existiram impactos e ajustes, mas não a catástrofe anunciada.
Quando surgiram os direitos trabalhistas e o fortalecimento dos sindicatos no século XX, novamente se disse que as empresas não suportariam os encargos. A criação da Consolidação das Leis do Trabalho, o descanso semanal remunerado, as férias e o 13º salário foram tratados como ameaças econômicas. O país não quebrou. Industrializou-se, expandiu o consumo interno e consolidou seu mercado.
A pesquisa da Unicamp não ignora desafios. Reconhece que setores intensivos em mão de obra exigirão transição planejada e políticas compensatórias. No entanto, sustenta que a economia brasileira já dispõe de base produtiva e tecnológica suficiente para sustentar jornadas menores sem perda de competitividade.
O mundo discute semana de quatro dias, reorganização da escala 6×1 e novos modelos produtivos. A pergunta que se impõe é clara: o Brasil continuará refém do medo ou terá maturidade para debater dados concretos?
A história mostra que, sempre que o país ampliou direitos, ouviu previsões de desastre. A realidade demonstrou outra coisa. A pesquisa da Unicamp oferece números, metodologia e projeções consistentes. O debate precisa ser técnico, responsável e baseado em evidências.
O Brasil está diante de uma escolha. Preservar um modelo exausto ou discutir, com responsabilidade, uma reorganização do trabalho à luz da produtividade do século XXI.


