Inteligência Artificial promove escalada de desinformação no Brasil
Inteligência Artificial promove escalada de desinformação no Brasil
Uso de IA em fake news cresce 308% em um ano e acende o alerta para a disseminação de informações manipuladas nas Eleições 2026
A desinformação no Brasil entrou em uma nova era: mais sofisticada, ágil e difícil de detectar. É isso o que mostra a primeira edição do Panorama da Desinformação no Brasil. Entre 2024 e 2025, a produção e a disseminação de conteúdos falsos com uso de inteligência artificial cresceram 308%.
A escalada não é apenas quantitativa. O estudo inédito feito pelo Observatório Lupa mostra que a tecnologia deixou de ser experimental para se tornar uma ferramenta recorrente de manipulação informacional: 81,2% das fake news com o uso de IA surgiram nos últimos dois anos.
Os conteúdos falsos vão desde notícias inteiramente fabricadas por geradores de imagem até deepfakes (vídeos hiper-realistas que simulam falas e expressões de figuras públicas). Em 2025, 45% dessas divulgações tinham viés ideológico, contra 33% em 2024.
Para especialistas em Direito Eleitoral, o fenômeno representa uma mudança estrutural no ambiente democrático e acrescenta uma camada extra de preocupação em ano de eleições.
“A inteligência artificial não só ampliou o volume de desinformação como elevou o grau de credibilidade desse tipo de conteúdo. O eleitor não está mais lidando com boatos grosseiros, mas com materiais que imitam perfeitamente a realidade”, analisa Roosevelt Arraes, advogado com mais de 20 anos de experiência em Direito Eleitoral e diretor da Escola Paranaense de Direito.
Velocidade da desinformação desafia o sistema
Nos últimos anos, o Brasil fortaleceu a capacidade de resposta à disseminação de fake news e informações manipuladas.
A Justiça Eleitoral ampliou sua atuação na remoção de conteúdos, firmou acordos com plataformas digitais e consolidou entendimentos importantes, como o de que não apenas conteúdos falsos, mas também informações verdadeiras fora de contexto podem ser consideradas irregulares.
Ainda assim, há muito a se fazer, já que o uso de automação e a inteligência artificial trouxeram mais agilidade à produção e ao compartilhamento de conteúdo manipulado.
Segundo Roosevelt Arraes, os perfis automáticos (bots), que funcionam em larga escala e sem análise crítica humana, são um ponto de atenção. O recurso é usado para espalhar informações sem checagem.
“Esses perfis são automatizados e divulgam conteúdos de maneira massiva, sem análise crítica humana. Como isso pode favorecer o compartilhamento de desinformação e representar um risco para a qualidade do debate eleitoral, o ideal é que sejam removidos.”
Na avaliação do advogado Luiz Gustavo de Andrade, membro da Comissão de Direito Eleitoral da OAB/PR e vice-presidente da Conferencia Americana de Organismos Electorales Subnacionales por la Transparencia Electoral (CAOESTE), o desafio é agir antes que a desinformação ou qualquer tipo de material manipulado se espalhe.
“O país não está desprotegido legalmente. Existem instrumentos jurídicos relevantes, como o direito de resposta, a remoção de conteúdo das plataformas digitais e a responsabilização civil e criminal. O problema é que a dinâmica digital opera em outra velocidade”, analisa Andrade, que também é professor na Escola Paranaense de Direito.
Expectativas para as Eleições 2026
As Eleições 2026 devem enfrentar um novo patamar de desinformação e um aumento significativo na circulação de conteúdos manipulados.
“A desinformação deixou de ser artesanal. Hoje, ela é escalável, segmentada e muitas vezes invisível aos mecanismos tradicionais de controle. Além da automação da disseminação e da capacidade da IA de gerar materiais altamente realistas, a tecnologia também reduziu drasticamente o custo de produção das fake news”, diz Roosevelt Arraes, doutor em Filosofia Jurídica e Política.
Outra discussão importante é a mudança nas táticas utilizadas. Em vez de fake news explícitas, as estratégias estão cada vez mais sutis e envolvem a manipulação de informações.
Em muitos casos, explica o advogado, os conteúdos são verdadeiros, mas apresentados fora de contexto: cortes seletivos das falas com distorção do sentido original, deepfakes “suficientemente convincentes” para gerar dúvida, sobrecarga informacional (o chamado “flood de conteúdo”) e disseminação em redes fechadas, como grupos de WhatsApp e Telegram.
De acordo com o advogado Luiz Gustavo de Andrade, a estratégia, nesses casos, não é convencer, mas confundir. “O objetivo de quem produz e divulga desinformação é criar dúvida, o que já é suficiente para influenciar o comportamento do eleitor”, comenta o especialista, membro do Instituto Paranaense de Direito Eleitoral.
Responsabilização existe, mas não é automática
A legislação brasileira prevê responsabilização para quem produz ou dissemina desinformação, especialmente em contexto eleitoral. As penalidades podem incluir o pagamento de indenizações, enquadramento por propaganda irregular e até crimes como calúnia e difamação.
“A Justiça Eleitoral tende a distinguir quem estrutura e impulsiona a desinformação de quem apenas compartilha. A responsabilização depende de fatores como intenção, alcance e impacto”, explica Roosevelt Arraes, vice-presidente da comissão de Direito Eleitoral e coordenador de Direito Eleitoral da Escola Superior da Advocacia da OAB/PR.
Diante desse cenário, reforça o especialista em Direito Eleitoral, o eleitor assume um papel decisivo. Se antes ele era apenas receptor, hoje também é vetor de disseminação. “Interromper o impulso de compartilhar é uma das atitudes mais eficazes contra a desinformação. A velocidade de propagação depende diretamente do comportamento das pessoas”, finaliza.
Checklist rápido para identificar fake news
Antes de compartilhar qualquer conteúdo, vale passar por este filtro simples e eficaz
- Quem ganha com essa divulgação? Toda informação atende a algum interesse.
- A informação está em mais de uma fonte confiável? Se a postagem só aparece em grupos ou perfis isolados, desconfie.
- A postagem é completa ou apenas um recorte? Conteúdo fora de contexto é uma das formas mais comuns de manipulação.
- A “notícia” é atual ou é algo antigo reutilizado? Informações antigas frequentemente são recicladas para enganar o eleitor.
- O conteúdo provoca reação emocional imediata? Se a informação gera indignação instantânea, vale redobrar a cautela.
Segundo Luiz Gustavo de Andrade, observador de processos eleitorais internacionais, a disputa contra a desinformação não é estática e evolui na mesma velocidade da tecnologia. “O Brasil chega às Eleições 2026 com um arcabouço jurídico mais robusto, mas também enfrenta um ambiente digital muito mais complexo.”
Nesse novo contexto, tanto Andrade quanto Arraes são enfáticos: a integridade do processo eleitoral depende não apenas das instituições, mas também da forma como cada informação é consumida e compartilhada pelos eleitores.
Sobre a Escola Paranaense de Direito
Sediada em Curitiba (PR), a Escola Paranaense de Direito é um centro de excelência jurídica focado em pós-graduação, mestrado, cursos e capacitação prática.
Composta por advogados, promotores, juízes, desembargadores e magistrados de prestígio internacional, a instituição une qualidade acadêmica à vivência real dos tribunais para formar juristas diferenciados, por meio da convivência direta entre professores e alunos.
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