Brasil celebra pela primeira vez o Dia do Orgulho Autista e avança na agenda relacionada ao tema
Agora é lei: 18 de junho está oficialmente no calendário brasileiro. O dia do Orgulho Autista chega para promover a aceitação, o respeito e o orgulho da própria identidade. Criado em 2005 pela organização americana Aspies For Freedom, a data foca na neurodiversidade. Em vez de tratar o autismo como uma doença, o movimento defende o Transtorno do Espectro Autista (TEA) como uma variação neurológica natural, uma forma diferente de processar e experimentar o mundo.
No Brasil, a data ganhou status oficial com a sanção da Lei 15.365, de 2026. A celebração complementa o Dia Nacional de Conscientização sobre o Autismo, já existente em 2 de abril, mas com um propósito distinto: enquanto abril informa, junho celebra.
“Precisamos que toda a sociedade entenda que o autista é apenas diferente, processa e interpreta o mundo de outra forma. O que queremos celebrar são essas formas únicas de pensar, de interagir e de perceber o mundo ao redor”, afirma Liang Jansen, coordenadora de inclusão da Escola Willy Janz, em Curitiba.
Os números mostram a dimensão do tema. Segundo o IBGE, cerca de 2,4 milhões de brasileiros têm diagnóstico de autismo, o equivalente a 1,2% da população. Apesar disso, 46,1% dos autistas adultos no país não concluíram o ensino fundamental, índice bem acima dos 35,2% registrados na população geral. Os dados reforçam que celebrar o orgulho autista não basta: é preciso garantir direitos concretos, começando pela educação.
Respeitar o diferente
Para Liang, a inclusão é papel de toda a sociedade e também da escola. E ela começa, antes de tudo, pelo conhecimento. “A gente só inclui quando entende, quando conhece. Muitas vezes o preconceito não é maldoso, é falta de informação sobre como agir”, diz a coordenadora.
Na Escola Willy Janz, em Curitiba, esse entendimento se traduz em prática diária. Entre os alunos de inclusão, a instituição atende 49 alunos neurodivergentes e adota uma postura que não espera o diagnóstico formal para agir. “Quando um professor percebe comportamentos atípicos, como dificuldade de comunicação, de interação social ou sensibilidade exagerada a sons e estímulos, a equipe estuda o caso e convida a família para uma conversa”, relata Liang.
De acordo com a especialista, o corpo acadêmico não precisa do laudo para criar estratégias que atendam às necessidades do aluno. “Mas é importante que os pais busquem o diagnóstico para entender o filho e buscar seus direitos. São papéis diferentes”, explica.
Cada autista é único
O símbolo do quebra-cabeça colorido, referência mundial do autismo, carrega uma mensagem: não existe um perfil único. O TEA se manifesta de formas muito diferentes, com impactos variados na comunicação, na interação social e nos comportamentos repetitivos. Há autistas que falam com fluência e outros que não se comunicam pela fala. Há os que interagem com facilidade e os que têm grande dificuldade. “Nenhum autista é igual ao outro. Cada um tem seus desafios e também muito a oferecer”, reforça a coordenadora.
Na prática, isso significa que cada aluno da Willy Janz tem um plano de ensino próprio. A rotina é antecipada para que o inesperado não vire fonte de angústia. Os movimentos repetitivos que alguns estudantes apresentam, como balançar o corpo ou agitar as mãos, são tratados como uma forma de se acalmar diante do excesso de estímulos, e não como comportamentos a corrigir. “O professor está ali para compreender esse processo, não para interrompê-lo. Depois que o aluno se organiza, ele volta às atividades”, explica Liang.
A turma que se reorganizou
Um episódio recente ilustra como a inclusão, quando bem conduzida, transforma toda a comunidade escolar. Um estudante do quinto ano, autista que não se comunica pela fala, precisava sentar na frente da sala ao lado de sua tutora e usar imagens e cartões para acompanhar as aulas. Quando a situação foi explicada à turma, um colega se levantou e ofereceu sua cadeira espontaneamente. A classe inteira se reorganizou. “Todos foram a favor. Hoje ele se sente incluído e a família está feliz”, conta Liang.
Para a coordenadora, histórias como essa mostram que a escola é um ponto de partida. “A inclusão não é só para o aluno com deficiência. É para idosos, para pessoas negras, para quem é obeso, para quem é branco. Quando formamos crianças com esses valores, elas levam isso para a vida.”
Esse princípio está no coração do movimento “Nada sobre nós, sem nós”, que defende que as próprias pessoas autistas sejam protagonistas nas discussões sobre o tema. No Brasil, o conceito foi difundido pelo professor Romeu Sassaki, referência nacional em inclusão. “Ninguém fala melhor de mim do que eu. A pessoa autista pode e deve mostrar suas limitações, mas também aquilo que é capaz”, resume Liang Jansen.
No Paraná, o cenário reflete a realidade nacional e coloca escolas como a Willy Janz em um papel que vai além do pedagógico: o de demonstrar, na prática, que a inclusão é possível, viável e transformadora. “Poder comemorar esse dia oficialmente é mais do que um símbolo. É a confirmação de que a inclusão deixou de ser pauta marginal para se tornar compromisso de todos”, conclui a coordenadora.



