Pequenas no tamanho, gigantes no Ideb: o que Serranópolis, Mercedes, São Manoel e Atalaia podem ensinar a Maringá, Londrina e Curitiba?
Os números do Ideb 2025 colocam uma questão importante para algumas das maiores cidades do Paraná. Municípios pequenos, com estruturas administrativas mais enxutas e orçamentos muito inferiores, aparecem nas primeiras posições dos anos iniciais do ensino fundamental da rede pública. Enquanto isso, Maringá, Curitiba e Londrina ficaram bem mais atrás.
Serranópolis do Iguaçu lidera com 9,1. Na sequência aparecem Mercedes e São Manoel do Paraná, ambas com 8,6. Logo depois, Atalaia alcançou 8,5.
Entre as grandes cidades, o cenário muda. Maringá teve 7,4, enquanto Londrina ficou com 7,0 e Curitiba registrou 6,9.
É preciso considerar que essas cidades não possuem a mesma realidade. Por isso, seria errado comparar diretamente uma pequena rede municipal com Curitiba, por exemplo, e concluir apenas pela nota que uma gestão é melhor que outra.
Ainda assim, os resultados deixam uma pergunta que as grandes cidades não deveriam evitar: o que esses municípios pequenos estão fazendo que pode ser aproveitado pelas redes maiores?
Atalaia administrou toda a cidade com R$ 42,42 milhões
O caso de Atalaia ajuda a colocar essa discussão em perspectiva.
Em 2025, o orçamento total do município foi de R$ 42.420.000,00. Esse dinheiro não era destinado apenas à educação. Na prática, com o mesmo valor, a Prefeitura precisava manter toda a administração municipal.
Dessa conta saíram recursos para saúde, escolas, assistência social, obras, transporte, esporte, agricultura, administração, servidores e os demais serviços oferecidos à população.
Mesmo com essa realidade financeira, Atalaia alcançou 8,5 no Ideb e ficou entre os quatro melhores resultados apresentados no Paraná.
Maringá, por sua vez, vive uma situação financeira completamente diferente. Para 2026, estão previstos aproximadamente R$ 655.706.600,00 somente para a educação.
A diferença chama atenção. Afinal, o dinheiro reservado apenas para a educação maringaense equivale a aproximadamente 15,5 orçamentos completos de Atalaia em 2025.
Ou seja, estamos comparando o orçamento de apenas uma área de Maringá com todo o dinheiro disponível para Atalaia administrar o município.
No Ideb, porém, o resultado foi:
Atalaia: 8,5.
Maringá: 7,4.
Assim, a diferença chega a 1,1 ponto.
Isso não significa que Maringá esteja gastando demais com educação. Pelo contrário, a área exige recursos, professores valorizados, escolas estruturadas, alimentação, transporte, inclusão e material adequado.
A questão, portanto, é outra: quanto desse investimento consegue se transformar efetivamente em aprendizagem?
Curitiba tem bilhões para educação e nota 6,9
Curitiba apresenta um contraste ainda maior. A capital prevê aproximadamente R$ 3,02 bilhões para educação em 2026.
Em termos de comparação, esse valor corresponde a cerca de 71 vezes todo o orçamento que Atalaia teve para administrar a cidade em 2025.
Apesar da enorme diferença de estrutura financeira, Curitiba registrou Ideb 6,9, enquanto Atalaia chegou a 8,5.
Contudo, a comparação exige cuidado. Curitiba administra uma rede muito maior, atende muito mais estudantes e enfrenta uma realidade social bem mais complexa.
São centenas de unidades, milhares de profissionais e bairros com condições econômicas bastante diferentes. Além disso, uma grande cidade recebe estudantes de diferentes regiões e precisa enfrentar problemas sociais que chegam diariamente às escolas.
Naturalmente, essas características influenciam a aprendizagem. Ao mesmo tempo, Curitiba também possui muito mais recursos para enfrentar essas dificuldades.
Uma rede maior gera desafios maiores, mas dispõe de mais profissionais, estrutura técnica, sistemas de acompanhamento e dinheiro. Portanto, a complexidade precisa entrar na explicação, sem encerrar o debate.
Londrina também aparece distante dos primeiros
Londrina registrou Ideb 7,0.
A cidade possui uma estrutura educacional que movimenta mais de R$ 1 bilhão, valor muito superior ao orçamento inteiro de municípios que aparecem entre os melhores resultados do Estado.
Para dimensionar essa diferença, usando R$ 1 bilhão apenas como referência, o montante representa mais de 23 orçamentos anuais de Atalaia.
Ainda assim, o Ideb mostra:
Atalaia: 8,5.
Londrina: 7,0.
Nesse caso, a diferença chega a 1,5 ponto.
Seria simplista afirmar que uma cidade pequena encontrou uma fórmula que poderia ser simplesmente copiada por Londrina. Entretanto, também seria difícil justificar que uma diferença desse tamanho não mereça ser estudada.
Serranópolis do Iguaçu chegou a 9,1
Serranópolis do Iguaçu merece atenção especial porque alcançou a maior nota do Paraná: 9,1.
Na comparação com as três grandes cidades analisadas, o resultado ficou 1,7 ponto acima de Maringá, 2,1 pontos acima de Londrina e 2,2 pontos acima de Curitiba.
Diante de um desempenho assim, as secretarias municipais de Educação poderiam estudar o que acontece nessa rede.
O primeiro passo, inclusive, não precisa envolver novo programa, contratação ou aumento de gastos. Em vez disso, pode começar pelo estudo das práticas que já funcionam.
Como Serranópolis acompanha seus estudantes? De que maneira trabalha a alfabetização? Como identifica quem está ficando para trás? Qual apoio oferece aos professores? E como direção e equipe pedagógica utilizam as avaliações?
Essas respostas não aparecem simplesmente na nota do Ideb. Por isso, precisam ser buscadas dentro das escolas.
Mercedes e São Manoel também merecem atenção
Mercedes e São Manoel do Paraná alcançaram 8,6.
Não é possível atribuir automaticamente esses resultados a um método específico sem analisar cada rede. Afinal, o desempenho pode envolver fatores pedagógicos, sociais, familiares e até características relacionadas ao número de estudantes.
Justamente por isso, essas experiências merecem ser investigadas.
As grandes redes, inclusive, possuem equipes técnicas capazes de comparar indicadores, acompanhar resultados por escola e identificar práticas que possam ser adaptadas.
Nesse caso, não é necessário copiar uma cidade pequena. Basta estudar o que funciona e verificar o que pode ser aproveitado.
Maringá tem um exemplo praticamente ao lado
No caso de Maringá, nem seria necessário viajar muito para iniciar essa análise.
Mandaguari alcançou Ideb 8,1 e aparece na 13ª posição do Paraná no levantamento apresentado. Já Maringá registrou 7,4 e ocupa a 87ª colocação.
Entre as duas cidades, portanto, existe uma diferença de 0,7 ponto.
Além da proximidade geográfica, os municípios estão inseridos na mesma região. Dessa maneira, uma troca técnica entre as redes poderia ajudar a identificar diferenças nas práticas educacionais.
Isso não significa copiar programas simplesmente porque Mandaguari teve nota maior. O objetivo seria verificar o que apresentou resultado e, a partir daí, avaliar se alguma experiência pode ser adaptada.
Top 10 do Paraná tem apenas municípios pequenos
Os dez melhores resultados apresentados para os anos iniciais ficaram assim:
1º Serranópolis do Iguaçu: 9,1
2º Mercedes: 8,6
2º São Manoel do Paraná: 8,6
4º Atalaia: 8,5
4º Janiópolis: 8,5
6º Flórida: 8,4
6º Missal: 8,4
8º Japurá: 8,3
8º Novo Itacolomi: 8,3
8º Terra Boa: 8,3
Nenhuma das maiores cidades relacionadas aparece entre as dez primeiras.
Foz do Iguaçu está na 40ª posição, com 7,7. Em seguida, entre as cidades analisadas, Apucarana aparece em 79º, com 7,4, enquanto Maringá ocupa o 87º lugar, também com 7,4.
Mais abaixo aparecem Cascavel, em 180º, com 7,0, e Londrina, em 187º, igualmente com 7,0.
Na sequência, Curitiba ficou em 204º, com 6,9. Ponta Grossa está em 213º, também com 6,9, enquanto Toledo aparece em 222º, com a mesma nota.
Orçamento grande não garante nota grande
Os números mostram que não existe uma relação automática entre orçamento elevado e resultado elevado no Ideb.
Dinheiro é fundamental para uma educação de qualidade. No entanto, os recursos precisam chegar às escolas de maneira eficiente e contribuir para a aprendizagem.
Computadores, reformas, materiais, transporte e novas estruturas são importantes. Ainda assim, o objetivo final continua sendo o aprendizado dos estudantes.
É justamente nesse ponto que o Ideb provoca uma discussão necessária.
Atalaia tinha R$ 42,42 milhões para cuidar de toda a cidade e alcançou 8,5.
Por sua vez, Maringá prevê R$ 655,7 milhões apenas para educação e aparece com 7,4.
Enquanto isso, Curitiba terá cerca de R$ 3,02 bilhões para educação e ficou com 6,9.
Esses números não provam desperdício, incompetência ou má gestão. Da mesma forma, não permitem afirmar que as pequenas cidades possuem sistemas educacionais superiores em todos os aspectos.
Ainda assim, os resultados justificam uma análise séria.
Professores precisam fazer parte da solução, não carregar a culpa
Nesse debate, também é importante definir onde a cobrança não deve cair de maneira isolada: sobre os professores.
São esses profissionais que estão diariamente na linha de frente, recebendo alunos com diferentes níveis de aprendizagem, enfrentando problemas de inclusão, dificuldades familiares e situações sociais que muitas vezes ultrapassam os muros das escolas.
As decisões sobre a rede, entretanto, não são tomadas apenas dentro da sala de aula.
Cabe à administração definir programas, planejamento, formação, quantidade de profissionais, distribuição de recursos, sistemas de acompanhamento e prioridades.
Por isso, quando existe diferença significativa entre os resultados, a discussão precisa envolver a política educacional como um todo.
Ao mesmo tempo, valorizar os professores, ouvir quem está dentro das escolas e corrigir rapidamente aquilo que não funciona também fazem parte desse processo.
Município pequeno também tem algumas vantagens
Há razões para analisar o ranking com cautela.
Uma rede pequena consegue acompanhar os estudantes de maneira mais próxima, pois existem menos escolas, menos turmas e um número menor de alunos.
Em uma cidade como Curitiba, por exemplo, qualquer política educacional precisa funcionar para milhares de estudantes inseridos em realidades muito diferentes. Além disso, características socioeconômicas também influenciam o desempenho escolar.
Portanto, o Ideb sozinho não permite declarar que Atalaia possui uma educação melhor que Curitiba em todos os aspectos.
O indicador mostra algo mais específico e objetivo: Atalaia conseguiu 8,5, enquanto Curitiba conseguiu 6,9.
A partir desse fato, cabe investigar as razões.
Talvez seja hora de as grandes aprenderem com as pequenas
Durante muito tempo, pequenas prefeituras procuraram grandes cidades para conhecer programas, sistemas e modelos administrativos.
Agora, os resultados do Ideb mostram que, na educação, esse caminho também pode ocorrer no sentido contrário.
Maringá pode estudar experiências de Atalaia. Da mesma maneira, Curitiba pode observar práticas de Serranópolis do Iguaçu, enquanto Londrina pode analisar o que acontece em Mercedes ou São Manoel do Paraná.
Buscar experiências que apresentam bons resultados não diminui nenhuma cidade. Pelo contrário, gestão pública eficiente precisa identificar o que funciona, independentemente do tamanho do município.
O exemplo mais fácil de dimensionar continua sendo Atalaia.
Em 2025, o município teve R$ 42.420.000,00 para administrar toda a cidade. Para 2026, Maringá prevê R$ 655.706.600,00 exclusivamente para educação.
Na prática, isso representa aproximadamente 15,5 vezes todo o orçamento de Atalaia destinado a uma única área em Maringá.
Apesar dessa enorme diferença financeira, Atalaia alcançou Ideb 8,5, enquanto Maringá ficou com 7,4.
O resultado não oferece uma resposta pronta. Entretanto, deixa uma pergunta que vale milhões:
o que Atalaia e os outros líderes do Ideb estão fazendo que as grandes cidades ainda podem aprender?
Essa é uma resposta que Maringá, Curitiba e Londrina deveriam procurar justamente nas redes públicas que hoje aparecem à frente delas.
Baixe a lista com a colocação e as notas do IDEB de todas as cidades do Paraná



