Contratos, parentesco e elogios públicos: em Santo Inácio, fica tudo em família?
Os pagamentos feitos pela Prefeitura de Santo Inácio à empresa de James Beline, registrada em nome de Dieims Williams da Silva, levantam questionamentos que ultrapassam o valor financeiro dos contratos. O caso envolve relações familiares, histórico de apoio político e elogios feitos dentro da Câmara Municipal justamente às festas promovidas pela administração.
Os documentos analisados mostram que a empresa recebeu R$ 118.205,00 entre fevereiro e junho de 2026. Com mais dois pagamentos realizados em julho, ligados à Festa Junina, o total chegou a R$ 178.105,00. Desse montante, R$ 131.900,00, ou 74,06%, está associado a contratações realizadas por dispensa de licitação.
Somente a Festa Junina de 2026 movimentou R$ 59.900,00 para a empresa. O valor representa 33,63% de todos os pagamentos identificados nos sete documentos analisados. A contratação ocorreu por meio da Dispensa nº 24/2026 e do Contrato nº 41/2026, com recursos do Convênio SETU nº 364/2026.
Secretário é genro do empresário
Segundo as informações apresentadas, Matheus, secretário de Planejamento e Finanças de Santo Inácio, é genro de James Beline. O parentesco não comprova, isoladamente, qualquer irregularidade. Entretanto, ele exige esclarecimentos sobre a participação do secretário nos processos administrativos, financeiros e orçamentários que resultaram nos pagamentos.
A Prefeitura precisa informar se Matheus participou da elaboração dos processos, da autorização de despesas, da liberação dos pagamentos, da pesquisa de preços ou da escolha da empresa. Também deve esclarecer se declarou formalmente o vínculo familiar e se adotou algum procedimento de impedimento para evitar conflito de interesses.
Matheus também seria sobrinho-neto de vereador
O quadro ganha outro elemento político. Conforme informado, Matheus também seria sobrinho-neto do vereador Laércio Turcato.
Durante reuniões da Câmara Municipal, o vereador costuma apresentar ofícios e manifestações parabenizando a prefeita pela realização das festas. Diante desse contexto, surge uma pergunta inevitável: os elogios representam apenas uma avaliação política da gestão ou também deveriam vir acompanhados de uma fiscalização mais rigorosa sobre os gastos, os contratos e os fornecedores dessas festas?
A função do vereador não se limita a elogiar o Poder Executivo. A Câmara também deve fiscalizar contratos, despesas, dispensas de licitação e possíveis conflitos de interesses.
Vereador elogia as festas; empresa da família recebe pelos eventos
Os documentos mostram que os pagamentos se concentram na Divisão de Cultura, especialmente nas rubricas de festividades e homenagens, eventos oficiais e locação de bens móveis.
Assim, forma-se uma cadeia que precisa ser explicada com transparência:
- a prefeita realiza as festas;
- o vereador apresenta ofícios parabenizando a administração;
- o sobrinho-neto do vereador ocupa a Secretaria de Planejamento e Finanças;
- o sogro do secretário mantém empresa contratada para serviços relacionados aos eventos;
- parte expressiva dos pagamentos ocorreu por dispensa de licitação.
Isso prova favorecimento? Não. Mas cria uma situação que exige respostas documentais, e não apenas discursos políticos.
“Fica tudo em família?”
A expressão “fica tudo em família” não deve funcionar como uma acusação antecipada, mas como uma síntese dos questionamentos que o caso provoca.
Quando parentes de agentes políticos e gestores públicos aparecem ligados a contratos municipais, a administração deve oferecer um nível superior de transparência. Não basta dizer que a contratação seguiu a lei. É preciso demonstrar quem pesquisou os preços, quais empresas foram consultadas, por que aquele fornecedor foi escolhido e quem autorizou cada pagamento.
Também cabe ao vereador Laércio Turcato esclarecer se conhece os contratos, se já solicitou informações sobre os valores pagos e se pretende exercer fiscalização sobre as dispensas relacionadas às festas que costuma elogiar.
Dispensa de licitação exige justificativa
A dispensa de licitação não representa autorização para contratação informal ou baseada em proximidade política. O processo precisa conter justificativa do preço, fundamentação da escolha do fornecedor, descrição detalhada do serviço e comprovação de que a contratação atendeu ao interesse público.
Nos documentos analisados, aparecem classificações genéricas como “festividades e homenagens” e “locação de bens móveis”. Porém, os comprovantes de pagamento não revelam quais equipamentos foram alugados, quais serviços foram prestados nem quais estruturas foram entregues.
Sem o acesso aos contratos completos, notas fiscais, termos de referência, pesquisas de preços e relatórios de execução, não é possível verificar se os valores estavam compatíveis com o mercado.
Perguntas que precisam de resposta
A Prefeitura, o secretário, o vereador e o empresário devem esclarecer:
- Matheus participou de algum ato ligado aos contratos ou pagamentos da empresa do sogro?
- O parentesco foi formalmente comunicado à administração?
- Quem escolheu a empresa nos processos de dispensa?
- Quantas propostas foram obtidas em cada contratação?
- Quais serviços a empresa prestou em cada evento?
- O vereador Laércio Turcato fiscalizou essas despesas antes de elogiar as festas?
- Houve parecer do controle interno sobre possível conflito de interesses?
- Por que 74,06% dos pagamentos analisados decorreram de contratos por dispensa?
Ética pública também envolve aparência de imparcialidade
Mesmo quando não existe ilegalidade comprovada, a ética pública exige cuidado com situações que possam gerar aparência de favorecimento. A confiança da população depende de decisões transparentes e de critérios objetivos.
Em Santo Inácio, os documentos revelam valores expressivos pagos a uma empresa ligada, segundo as informações apresentadas, ao sogro do secretário de Planejamento e Finanças. O mesmo secretário seria parente de um vereador que elogia publicamente as festas promovidas pela Prefeitura.
Diante disso, a pergunta permanece: as manifestações do vereador são apenas reconhecimento à administração ou a Câmara deixou de exercer a fiscalização necessária porque, afinal, tudo parece permanecer dentro do mesmo círculo familiar e político?
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