A luta de Felipe Becari pela causa animal é importante, mas seu discurso no caso Neguinha ultrapassou um limite

A luta de Felipe Becari pela causa animal é importante, mas seu discurso no caso Neguinha ultrapassou um limite


Por Gilmar Ferreira

Deputado federal por São Paulo e policial civil, Felipe Becari construiu parte de sua trajetória na defesa dos animais. Essa atuação merece reconhecimento. O Diário de Maringá, porém, repudia o tom adotado pelo parlamentar ao comentar o caso Neguinha, especialmente quando seu discurso pode estimular confrontos e colocar cidadãos em situação de perigo.

A atuação do deputado federal por São Paulo Felipe Becari na defesa dos animais é conhecida e importante. Em um país que ainda registra episódios graves de maus-tratos, parlamentares que colocam o tema no debate público cumprem um papel necessário.

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Reconhecer esse trabalho, porém, não significa concordar com tudo o que é dito em nome da causa.

Ao comentar a morte da cadela Neguinha, em Santo Inácio, no Paraná, Becari demonstrou indignação com as imagens e criticou duramente as pessoas que estavam nas proximidades e não enfrentaram fisicamente o homem apontado como responsável pela agressão.

É exatamente essa parte da manifestação que O Diário de Maringá repudia.

Não pela defesa do animal. Não pela cobrança de punição. Não pela indignação diante das imagens.

O problema está em transformar essa revolta em um discurso capaz de incentivar pessoas comuns a partir para o confronto.

Deputado questionou por que ninguém enfrentou o agressor

No vídeo, Becari questiona repetidamente a ausência de uma intervenção física.

Em determinado momento, pergunta onde estavam as pessoas da rua para “resolver” e impedir o homem. Também afirma que, caso alguém tivesse reagido, a cadela poderia estar viva.

O parlamentar ainda chama a sociedade de “frouxa” pela ausência de uma reação.

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É preciso ter cuidado com esse raciocínio.

Depois que conhecemos o resultado de uma ocorrência, é fácil imaginar o que terceiros poderiam ter feito. No momento da violência, porém, ninguém sabia como aquele homem reagiria caso fosse confrontado.

Ele poderia parar.

Também poderia atacar quem tentasse intervir.

Uma segunda pessoa poderia acabar ferida. Uma criança poderia ser colocada em perigo. A situação poderia assumir proporções ainda maiores.

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Há uma responsabilidade adicional neste episódio.

Felipe Becari não é apenas um influenciador da causa animal. É deputado federal por São Paulo e policial civil.

Portanto, conhece a importância da lei, da atuação policial e dos limites de uma intervenção em situações potencialmente violentas.

Por isso chama atenção quando, no mesmo discurso em que fala sobre aplicação da lei, sugere uma reação direta das pessoas.

Uma coisa é defender que alguém interrompa uma agressão quando existirem condições seguras para isso.

Outra, completamente diferente, é transmitir a impressão de que qualquer cidadão deveria enfrentar fisicamente uma pessoa agressiva.

Essa ideia pode colocar vidas em risco.

A mulher que filmou estava com o filho

Existe ainda uma particularidade fundamental no episódio.

Segundo relato dado pela tutora de Neguinha ao O Diário de Maringá, a mulher responsável pela gravação estava acompanhada do filho de 5 anos. A criança chorava enquanto acompanhava a situação.

O que exatamente se esperava daquela mãe?

Que deixasse o filho e partisse para cima de uma pessoa que demonstrava comportamento violento?

Quem pode garantir que ela não seria agredida?

Quem poderia assegurar que a própria criança não seria colocada em risco?

Cobrar posteriormente uma atitude física dessa testemunha desconsidera completamente as circunstâncias em que ela se encontrava.

A gravação teve importância

Existe outro aspecto que não pode desaparecer em meio à indignação.

A mulher filmou.

Ao fazer isso, preservou um registro do que estava acontecendo.

As imagens documentaram a ocorrência, permitiram identificar circunstâncias importantes e se tornaram um elemento relevante para que autoridades e sociedade soubessem exatamente a dimensão do episódio.

Isso não significa que filmar seja sempre suficiente diante de uma situação de emergência. Sempre que houver possibilidade segura, acionar imediatamente as autoridades e buscar ajuda é fundamental.

Mas é muito diferente disso exigir enfrentamento físico.

Não podemos transformar uma testemunha em culpada porque ela não colocou a própria vida em risco.

A causa animal não precisa de justiceiros

O Diário de Maringá considera importante o trabalho desenvolvido por Felipe Becari em defesa dos animais.

Justamente por isso, seu discurso deveria fortalecer a legislação e as instituições responsáveis pela aplicação dessa legislação.

Se as penas são insuficientes, o Congresso pode modificá-las.

Se existem falhas na proteção animal, parlamentares podem apresentar projetos, fiscalizar políticas públicas e pressionar as autoridades.

Esse é o caminho.

Não podemos normalizar a ideia de que, quando a lei demora ou parece insuficiente, a população deve resolver o problema pela força.

Um país organizado precisa ser governado pela lei, pela ordem e pela Justiça.

Não pela vingança.

Repudiamos o incentivo ao confronto

As imagens envolvendo Neguinha provocam revolta. Esse sentimento é legítimo.

Mas o descontrole diante de uma atrocidade não pode gerar outra conduta inconsequente.

Por isso, O Diário de Maringá reconhece a importância da luta de Felipe Becari pela causa animal, mas repudia qualquer manifestação que possa ser entendida como incentivo ao confronto físico ou à justiça pelas próprias mãos.

A responsabilidade é ainda maior quando essa manifestação parte de um deputado federal e policial, alguém que conhece as consequências que uma intervenção mal calculada pode produzir.

É preciso cobrar punição para quem praticou violência contra um animal.

Também é preciso proteger testemunhas, crianças e qualquer cidadão que esteja diante de uma situação de risco.

O caso de Neguinha deve terminar onde uma sociedade civilizada resolve seus conflitos: na investigação, no Ministério Público e no Judiciário.

Quem cometeu crime deve responder pelo crime que praticou.

Sem omissão.

Sem impunidade.

E sem criar novas vítimas em nome de vingança.

TV Diário
Gilmar Ferreira

Gilmar Ferreira

Perfil Profissional: Gilmar Ferreira (MTB 0011341/PR) Gilmar Ferreira consolida uma carreira multifacetada como jornalista, apresentador de programas de TV e mestre de cerimônias, unindo o rigor da investigação à fluidez da comunicação ao vivo. Com atuação destacada no Paraná e Santa Catarina, ele imprime autoridade técnica e sensibilidade humana em cada projeto que lidera. Atuação Estratégica Atual Diretor de Redação: O Diário de Maringá. Comentarista: Programa Paraná Cidadesno Canal 10.1 e RDR FM 93,3. Mestre de Cerimônias: Atuação oficial em eventos de destaque no Estado do Paraná. Experiência em Televisão Reconhecido pela presença de vídeo e condução de pautas complexas, Gilmar atuou como apresentador de programas e âncora nas seguintes emissoras: TV Maringá (Band) RIC TV Maringá (Record) Record News (Rede Mercosul) RTV 10 Maringá Trajetória no Rádio Com passagens por emissoras líderes de audiência, sua voz é referência em informação e entretenimento: Paraná: Jovem Pan FM, Metropolitana FM, Rede de Rádios, Globo FM, Rádio Colorado AM e Eden FM. Santa Catarina: Rádio Menina FM e Rádio Globo AM (Blumenau)

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