“Brasil é de Jesus”: padre alerta sobre políticos que usam o nome de Deus para chegar ao poder
Doutor em Ciência da Religião, padre Leomar Nascimento de Jesus analisa declaração de Flávio Bolsonaro e aponta riscos do uso político da fé
O padre Leomar Nascimento de Jesus alertou para o perigo de políticos usarem o nome de Deus para conquistar poder e justificar decisões de governo. O religioso analisou uma declaração do senador Flávio Bolsonaro sobre a possibilidade de assumir a Presidência da República.
“Porque, quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”, afirmou o senador no trecho comentado pelo padre.
A declaração pode agradar parte dos cristãos. No entanto, Leomar questionou quais consequências esse tipo de proposta poderia trazer para pessoas que seguem outras religiões ou não professam nenhuma fé.
“O que significa uma frase dessas quando ela é pronunciada por alguém que quer ser presidente da República? E quem acredita de outro jeito vai ter o mesmo lugar nesse país?”, perguntou.
Padre Leomar explica a teologia do domínio
Segundo Leomar, a declaração precisa entrar no debate sobre a chamada teologia do domínio. Embora o nome pareça complexo, o padre afirmou que a ideia parte de um princípio simples.
Alguns grupos religiosos entendem que os cristãos não devem apenas viver a fé e participar da política. Além disso, esses movimentos buscam ocupar e controlar espaços da sociedade para submetê-los àquilo que consideram a vontade de Deus.
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Conforme explicou o padre, essa lógica pode influenciar diretamente as leis que a população deve cumprir. Também pode interferir no conteúdo ensinado nas escolas, no reconhecimento das diferentes famílias, nos direitos individuais e na liberdade religiosa.
“Quando essa lógica chega ao extremo de querer organizar o próprio Estado a partir de uma única verdade religiosa, caminhamos na direção de uma teocracia”, declarou.
Governo em nome de Deus pode abrir caminho para abusos
Leomar explicou que uma teocracia busca legitimar o governo em nome de Deus. Entretanto, o religioso observou que pessoas assumem, na prática, o papel de representantes da vontade divina.
“Deus não desce aqui para governar. Então, aparecem aqueles que se apresentam ou são apresentados como os seus escolhidos, os seus ungidos, geralmente homens, para governarem em nome de Deus”, afirmou.
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Para o padre, o perigo aumenta quando um político convence parte da população de que recebeu uma missão divina. Nesse caso, qualquer crítica ao governante pode parecer um ataque à própria vontade de Deus.
“Se eu convenço você de que fui escolhido por Deus para governar, fica muito mais difícil questionar aquilo que eu faço”, disse.
Dessa maneira, segundo Leomar, a religião pode justificar e até santificar um projeto de poder que oprime. Por isso, o padre defendeu atenção às declarações de candidatos que usam o nome de Deus para sustentar suas propostas políticas.
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Política como “guerra espiritual”
O padre também mencionou outra ocasião na qual Flávio Bolsonaro teria descrito a disputa política como uma “guerra espiritual”.
Na avaliação de Leomar, esse tipo de linguagem muda a relação entre adversários políticos. Afinal, quem discorda deixa de representar apenas uma posição diferente e pode passar a ocupar o lugar de inimigo de Deus.
“Se a política vira uma guerra espiritual, quem discorda de mim deixa de ser apenas meu adversário político e pode virar inimigo de Deus”, afirmou.
Como consequência, o debate sobre ideias e projetos perde espaço para ataques contra quem pensa de outra forma. Nesse ambiente, grupos políticos podem satanizar e desumanizar seus adversários.
“Em vez de discutir ideias e projetos, eu satanizo quem é diferente, quem pertence a outro partido. Eu desumanizo o outro até o ponto de querer eliminá-lo”, declarou o padre.
Fundamentalismo pode atingir católicos e evangélicos
Leomar ressaltou que um governo orientado por uma única interpretação religiosa não ameaça somente ateus ou seguidores de religiões minoritárias. Pelo contrário, o fundamentalismo também pode atingir diferentes grupos cristãos.
“Você é católico? Num Estado dominado por um fundamentalismo evangélico, você pode virar herege e sofrer perseguição. Você é evangélico? Num Estado dominado por um fundamentalismo de inspiração católica, amanhã o alvo pode ser você”, afirmou.
Portanto, na avaliação do padre, ninguém permanece verdadeiramente seguro quando um governo pretende impor uma única verdade religiosa. A intolerância pode sair dos discursos, influenciar as leis e estimular episódios de violência.
“O Brasil pertence a todos”
Ao concluir a análise, o padre Leomar defendeu a liberdade religiosa e o direito de cada cidadão escolher a própria crença.
“O Brasil pertence a todos os brasileiros e brasileiras”, afirmou.
Por fim, o padre sugeriu uma pergunta para avaliar discursos de políticos que prometem governar em nome de Deus: “O que acontecerá comigo se eu não acreditar como você?”.
Para Leomar, a sociedade precisa identificar quando a fé deixa de funcionar como testemunho e passa a sustentar um projeto de poder que oprime pessoas com outras convicções.



