Vida na igreja local prepara líderes para a sociedade

Vida na igreja local prepara líderes para a sociedade


Departamentos de jovens, escalas de trabalho voluntário, classes de ensino bíblico e pequenos projetos sociais funcionam, na prática, como uma escola informal de liderança para milhões de brasileiros. É o que descreve o pastor Esdras Carvalho, professor de oratória e homilética e formador de líderes, ao analisar como a passagem por essas funções em igrejas locais desenvolve comunicação, gestão de pessoas e responsabilidade, competências que acompanham o indivíduo também fora do ambiente religioso.

Segundo o Censo Demográfico 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 26,9% dos brasileiros se declaram evangélicos, ante 21,6% em 2010, o que amplia a base de pessoas que assumem cedo funções como coordenar uma equipe, organizar um evento ou preparar uma mensagem para uma congregação.

Carvalho, que ensina oratória e homilética há mais de trinta anos e já formou mais de vinte e cinco mil alunos, afirma que a mudança de comportamento não começa quando a pessoa recebe um cargo, e sim quando percebe que outras passam a depender dela. "Enquanto está na plateia, o indivíduo apenas opina; ao assumir uma classe ou escala de trabalho, descobre que executar custa mais do que sugerir", pontua o pastor.

Responsabilidade sem crachá nem salário



Um dos fatores que explicam essa formação, conforme o professor de oratória e homilética, é que a liderança em ambiente religioso costuma ser exercida sem remuneração e sem poder de demissão. "Quem lidera não tem salário para oferecer e não tem demissão para ameaçar. Só resta ao líder aquilo que sustenta a liderança de verdade: clareza, exemplo, convicção e confiança", detalha ele, que também cita a diversidade das equipes de voluntários, o que exige escuta e adaptação de linguagem.

Outro fator identificado é a comunicação, área em que Carvalho atua como docente. Para ele, boa parte dos problemas de liderança tem origem em falhas de comunicação. "Falar bem não é falar bonito. É pensar com ordem e ser compreendido. Oratória é organização do pensamento em voz alta. O calendário fixo das atividades religiosas também contribui: a rotina de cultos em datas marcadas obriga o indivíduo a se preparar com antecedência e responder pelo combinado, disciplina que educa mais do que muito curso", acentua.

Do púlpito para outros espaços de atuação

Para o pastor, essas competências são transferíveis porque pertencem à pessoa, e não ao ambiente em que foram desenvolvidas. Quem aprende a falar em público, organizar equipes e resolver conflitos carrega esse repertório para o trabalho e para a comunidade em que vive, avalia.

Um exemplo histórico citado por Carvalho é o do pastor batista Martin Luther King Jr., que iniciou a trajetória no ministério antes de se tornar liderança pública reconhecida. King se formou em sociologia pelo Morehouse College e cursou teologia no Crozer Theological Seminary e na Universidade de Boston, antes de assumir a Dexter Avenue Baptist Church, em Montgomery.

De acordo com o pastor, o que o projetou à liderança do movimento em Montgomery, aos vinte e seis anos, não foi um cargo político, mas a competência formada no ministério: a palavra organizada, a convicção moral e a capacidade de mobilizar pessoas. "Ele não trocou o púlpito pela praça pública. Ele levou o púlpito para a praça pública", resume.

Carvalho pondera que a experiência religiosa não substitui formação acadêmica ou qualificação técnica exigida em cada área, mas desenvolve competências humanas que acompanham a pessoa ao longo da vida. Menciona como exemplo recorrente alunos que chegam sem conseguir falar diante de um pequeno grupo e, meses depois, passam a conduzir reuniões no trabalho.

"Outro padrão é o de coordenadores que tentam executar sozinhos todas as tarefas, o que leva ao esgotamento da equipe; ao aprender a delegar, o resultado do grupo muda de patamar", completa.

Desafios da formação de novas lideranças

O professor aponta a confusão entre visibilidade e preparo como um dos principais desafios atuais. "O alcance obtido rapidamente em redes sociais tem sido, em certos casos, confundido com autoridade, apesar de a maturidade de liderança exigir tempo, caráter e disposição para continuar aprendendo", identifica. Ele também destaca a necessidade de ampliar a compreensão de vocação para além das funções eclesiásticas, incluindo profissionais liberais, gestores, professores e servidores públicos formados em comunidades religiosas.

"Essa formação não deve transformar comunidades de fé em estruturas partidárias, já que igreja e partido têm naturezas distintas. Ainda assim, evitar essa instrumentalização não significa afastar o indivíduo de responsabilidades públicas, e sim prepará-lo para exercê-las com consciência, preservando a liberdade de cada pessoa", considera.

O pastor assinala que, todo fim de semana, milhares de pessoas sem formação técnica em liderança conduzem reuniões, administram pequenos orçamentos e respondem por decisões dentro de igrejas, processo de capital humano que costuma passar despercebido por quem estuda o tema. "Formar um comunicador envolve ajudá-lo a pensar com clareza sobre o efeito de suas palavras, capacidade que se aplica do templo à sala de reunião", conclui.

Para mais informações, basta acessar: https://esdrascarvalho.lovable.app/

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