Independência para quem, se o preconceito ainda aprisiona brasileiros?
Neste 7 de Setembro, mais importante do que disputar símbolos nacionais é compreender que a verdadeira liberdade exige respeito às diferenças, responsabilidade e igualdade de direitos
Por Gilmar Ferreira
O Brasil que queremos não pode ser um país dividido entre direita, esquerda e centro, como se posições políticas transformassem brasileiros em inimigos. Também não pode separar pessoas pela cor da pele, pela religião, pela origem, pela condição social ou pela orientação sexual.
Nosso país tem dimensões continentais. Em seu território vivem pessoas de diferentes povos, raças, culturas, crenças e nacionalidades. Essa história começa com os povos indígenas, os habitantes originários destas terras, e atravessa gerações formadas por africanos, europeus, asiáticos e imigrantes de muitas partes do mundo.
Essa diversidade não representa uma ameaça ao Brasil. Ela faz parte da identidade nacional.
Por isso, neste 7 de Setembro, não precisamos discutir qual é a cor da nossa bandeira. Ela já existe. Suas cores são conhecidas e pertencem a todos os brasileiros. Nenhum partido, grupo político ou corrente ideológica pode se declarar proprietário dos símbolos nacionais.
A discussão necessária é outra. Precisamos refletir sobre o significado da palavra independência e sobre quanto ainda devemos avançar para que cada brasileiro possa viver com liberdade, dignidade e respeito.
Independência também é liberdade de pensar
Ser independente significa ter o direito de pensar, questionar, concordar e discordar. Significa escolher uma religião ou não seguir nenhuma. É poder defender uma posição política, mudar de opinião e participar da vida pública sem medo de perseguição.
Entretanto, liberdade de expressão não significa liberdade para desrespeitar.
Ninguém adquire o direito de humilhar outra pessoa apenas porque pensa diferente. Uma convicção religiosa não autoriza a tentativa de controlar a vida de quem segue outra crença. Da mesma forma, uma posição política não permite ameaçar, silenciar ou retirar direitos de quem está no campo adversário.
A liberdade só pode existir plenamente quando vale para todos.
Quando alguém pretende impor sua religião, sua ideologia ou seus costumes aos demais, não está defendendo a liberdade. Está tentando substituir a independência do outro pela própria vontade.
Esse limite precisa ficar claro. Temos o direito de manifestar nossas opiniões, mas também o dever de respeitar a dignidade, a integridade e os direitos das outras pessoas.
O adversário político não é inimigo do Brasil
A democracia depende do debate. Direita, esquerda e centro possuem visões diferentes sobre a economia, o papel do Estado, os programas sociais e os caminhos para o desenvolvimento. Essas divergências são legítimas.
O problema começa quando a disputa política deixa de tratar de propostas e passa a produzir ódio.
Um país não avança quando cada eleição transforma vizinhos, amigos e familiares em inimigos. Também não melhora quando autoridades e lideranças incentivam a população a enxergar quem pensa diferente como alguém que precisa ser eliminado da vida pública.
O adversário político deve ser enfrentado com argumentos, propostas e votos. Nunca com violência, perseguição ou tentativa de silenciamento.
Temporal causa alagamentos, quedas de árvores e danos em diferentes regiões de Maringá
A democracia não exige concordância. Exige regras, respeito e disposição para conviver com o resultado das urnas, com as instituições e com a pluralidade da sociedade.
Nenhuma crença pode retirar direitos
O Brasil reúne diferentes manifestações religiosas. Essa convivência deve ser protegida.
Cada pessoa tem o direito de professar sua fé, frequentar seu templo, celebrar suas tradições e transmitir seus valores. No entanto, esse mesmo direito pertence a quem segue outra religião, a quem possui uma espiritualidade diferente e a quem não adota qualquer crença.
A fé deve orientar a vida de quem acredita. Não pode servir de justificativa para restringir os direitos de quem acredita de outra maneira.
O Estado precisa garantir essa liberdade sem privilegiar uma religião e sem perseguir nenhuma delas. Respeitar a diversidade religiosa não diminui a fé de ninguém. Apenas impede que uma crença seja usada como instrumento de imposição sobre toda a sociedade.
Um país livre não pode aceitar discriminação
Também precisamos ser independentes do racismo, da intolerância e de qualquer forma de preconceito.
A cor da pele não torna uma pessoa superior ou inferior. A origem de uma família não define o valor de ninguém. A orientação sexual não retira a cidadania de nenhum brasileiro. A cultura dos povos indígenas não pertence apenas ao passado. Ela permanece viva e merece proteção, reconhecimento e respeito.
Esses princípios não dependem de afinidade pessoal. São direitos.
Não precisamos pensar da mesma maneira, viver do mesmo modo ou compartilhar as mesmas crenças. Precisamos reconhecer que todas as pessoas devem receber tratamento digno e proteção da lei.
Combater a discriminação não significa conceder privilégios. Significa impedir que alguém tenha direitos negados por ser quem é.
Patriotismo não é propriedade de um grupo
Amar o Brasil não pode significar odiar brasileiros.
O patriotismo verdadeiro aparece no respeito ao povo, na defesa da democracia, no cuidado com o patrimônio público, no combate à corrupção e na busca por condições dignas de vida. Está na valorização da educação, da saúde, da segurança e do trabalho.
A bandeira nacional não pertence a um partido. O hino não pertence a uma ideologia. O 7 de Setembro não pertence a um candidato, a um governo ou a uma corrente política.
Esses símbolos representam uma nação plural. Representam brasileiros que pensam de maneiras diferentes, mas compartilham o mesmo território, as mesmas instituições e a responsabilidade de construir um país melhor.
A independência começa pelo respeito
Neste 7 de Setembro, a reflexão que proponho é simples: o que significa ser verdadeiramente independente?
Significa pensar com liberdade, sem repetir discursos apenas porque foram produzidos por um grupo político, religioso ou econômico. Significa ter coragem para questionar inclusive aqueles que apoiamos. Também significa reconhecer que nossas escolhas não podem eliminar as escolhas legítimas dos outros.
Precisamos conquistar independência do preconceito, da desinformação, do fanatismo e da intolerância. Devemos rejeitar a ideia de que só existe um tipo correto de brasileiro.
O Brasil não possui uma única cor de pele, uma única origem, uma única religião ou uma única posição política. Sua identidade nasce justamente da convivência entre diferenças.
Neste 7 de Setembro, portanto, a bandeira brasileira deve permanecer onde sempre deveria estar: nas mãos de todos os brasileiros. E a palavra independência precisa recuperar seu sentido mais profundo, o direito de cada pessoa viver, pensar e se expressar livremente, sem impedir que o outro faça o mesmo.
Essa é a independência que ainda precisamos defender todos os dias.



