Um dia após a reeleição, Adriano José estaria tentando intimidar Silvio Barros?
Deputado participou da transição e integra a base de Silvio Barros. Sua crítica precisa apontar falhas, apresentar soluções e considerar as escolhas que apoiou.
Editorial | Por Gilmar Ferreira
O deputado estadual Adriano José da Silva (PSD) integrou a equipe de transição do prefeito de Maringá, Silvio Barros (PP), em 2024 e faz parte de sua base política. Agora, ao afirmar que a administração não vai bem, precisa explicar quais problemas identifica e o que propõe para resolvê-los.
Criticar o prefeito é um direito do parlamentar. Entretanto, Adriano não acompanha esse governo apenas de fora. Participou de sua construção e, por isso, deve avaliar também a própria atuação e as escolhas que apoiou.
Quais secretarias precisam melhorar? Que serviços deixam a população sem atendimento adequado? Quais decisões deveriam mudar? Essas respostas ajudam Maringá a discutir sua administração. Por outro lado, uma avaliação genérica, sem exemplos ou propostas, pouco esclarece.
A reeleição dá ao deputado respaldo para continuar seu trabalho. Ao mesmo tempo, renova seu dever de explicar as posições que assume. Afinal, o eleitor merece conhecer os motivos da crítica e as medidas que o parlamentar defende.
A cobrança precisa alcançar os aliados
Se pessoas indicadas por Adriano ocupam funções na prefeitura, o desempenho delas precisa entrar nessa discussão. Não seria coerente cobrar resultados do prefeito e, ao mesmo tempo, poupar os nomes ligados ao próprio grupo político.
Quem recomenda alguém para uma função pública assume responsabilidade política pela escolha. Isso não significa responder por todos os atos do indicado. Exige, porém, disposição para reconhecer erros e apoiar mudanças quando necessárias.
Após oito anos como vice-prefeito, Scabora desidrata nas urnas e fica longe de uma vaga em Brasília
Da mesma forma, relatos de bastidores sobre indicações que teriam produzido mais problemas do que soluções precisam de comprovação. Comentários não bastam para condenar ninguém. Se houver falhas demonstradas, contudo, o vínculo com um deputado não pode servir de proteção.
Nesse contexto, o episódio envolvendo Wanderson Carlos da Silva, irmão de Adriano, merece atenção. Ele ocupou o cargo de superintendente da Secretaria de Aceleração Econômica e Turismo de Maringá. Em dezembro de 2025, o município publicou sua exoneração, após denúncias de assédio moral apresentadas pela servidora Meire Pinheiro Gabriel.
Meire atribuiu a Wanderson condutas de intimidação e retaliação. Essas são acusações da servidora e devem ser tratadas como tais.
No plano político, permanece a pergunta: Adriano está disposto a avaliar as pessoas ligadas a ele com o mesmo rigor que cobra do restante da equipe municipal?
A relação com o prefeito exige clareza
A crítica feita um dia após a reeleição também exige uma explicação sobre a relação que o deputado pretende manter com o governo. Ele quer corrigir os rumos da administração? Quais mudanças considera necessárias? Pretende continuar na base e trabalhar por elas?
Para dar consistência à cobrança, Adriano precisa transformar sua avaliação em propostas. Além disso, deve deixar claro se suas divergências dizem respeito aos serviços prestados à população ou à relação política com o prefeito.
Se houver pressão para obter nomeações ou benefícios políticos, Silvio Barros deve rejeitá-la. Afinal, cabe ao prefeito escolher sua equipe e responder pelos resultados. Nenhuma aliança o dispensa desse compromisso.
Silvio, o senhor tem a caneta e responde aos maringaenses pelo uso que faz dela. Portanto, ouça as críticas, apure os problemas e corrija o que precisar. Se alguém compromete o trabalho da administração, reveja a nomeação e, quando necessário, exonere.
Essa avaliação deve alcançar todos, inclusive os nomes escolhidos pelo próprio prefeito. Acima da conveniência de preservar um acordo político, precisam estar a competência, o respeito aos servidores e a qualidade do atendimento à população.
Santo Inácio também coloca a parceria em discussão
Em Santo Inácio, cidade natal de Adriano José, a apuração consultada registra 922 votos para o deputado estadual do PSD e 136 para o deputado federal Ricardo Barros (PP). A diferença é de 786 votos.
Segundo as informações apresentadas, ambos contaram com o apoio da prefeita e do vice-prefeito. Ainda assim, a distância entre as votações levanta uma pergunta sobre a atuação dos aliados: como essa parceria funcionou durante a campanha?
Adriano se empenhou na candidatura de Ricardo Barros com a mesma disposição com que buscou votos para si? Que trabalho realizou em favor do aliado em sua cidade natal?
A comparação envolve candidaturas a cargos diferentes. Por isso, a diferença de votos não demonstra, por si só, quanto cada um trabalhou pela campanha do outro. A cobrança política, entretanto, é legítima: quem anuncia uma aliança deve explicar como a colocou em prática.
Apoiar um aliado exige pedir votos e trabalhar por sua candidatura. Da mesma forma, participar de um governo exige acompanhar as escolhas, cobrar resultados e reconhecer quando alguma delas precisa mudar.
Adriano José pode e deve defender uma gestão melhor. Sua crítica, porém, ganha força quando aponta problemas, apresenta caminhos e considera sua participação na administração. Seu nome estava na equipe de transição de 2024. É dessa escolha concreta que também deve partir sua avaliação sobre o governo de Silvio Barros.



