Da segurança pública aos gastos do governo: as afirmações falsas de Flávio Bolsonaro no debate
Candidato do PL apresentou informações incorretas sobre gastos de R$ 7 bilhões com viagens, segurança pública, sistema prisional, armas e decisões judiciais. Agência Lupa confrontou as declarações com dados oficiais e documentos.
Por O Diário de Maringá | 19 de outubro de 2026
O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, fez declarações classificadas como falsas pela Agência Lupa durante o debate com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), realizado pela Band no domingo, 18 de outubro. A checagem jornalística, atualizada na madrugada desta segunda-feira (19), confrontou as afirmações com informações oficiais, legislação e levantamentos públicos.
Entre os temas estão os gastos do governo federal com viagens, a soltura de presos, a circulação de armas e os indicadores de criminalidade. A agência identificou afirmações que não correspondem aos dados disponíveis ou atribuem ao governo medidas que não foram adotadas.
Flávio atribuiu a Lula e Janja R$ 7 bilhões em viagens
Uma das afirmações contestadas envolveu os gastos do governo federal com deslocamentos oficiais.
Durante o debate, Flávio Bolsonaro atribuiu ao presidente Lula despesas de R$ 7 bilhões em viagens com a primeira-dama, Rosângela da Silva, conhecida como Janja.
A Agência Lupa classificou a declaração como falsa.
Segundo dados do Portal da Transparência apresentados pela agência, os gastos com viagens de toda a estrutura do governo federal somaram R$ 7,14 bilhões entre 2023 e 2025.
O montante inclui passagens e diárias de servidores públicos e autoridades de diferentes órgãos. Portanto, não corresponde exclusivamente às despesas do presidente e da primeira-dama.
Além disso, o governo registrou outros R$ 1,31 bilhão em despesas dessa natureza em 2026, até 18 de outubro. Com isso, o total do período chegou a aproximadamente R$ 8,45 bilhões.
A Lupa já havia desmentido a associação dos R$ 7 bilhões às viagens do casal presidencial em setembro deste ano.
Candidato afirmou que governo coloca criminosos perigosos nas ruas por falta de vagas
Ao abordar o sistema penitenciário, Flávio Bolsonaro afirmou que o atual governo estaria colocando criminosos perigosos em liberdade sob a justificativa de falta de vagas nas prisões.
A Agência Lupa também classificou essa afirmação como falsa.
A legislação brasileira não estabelece a libertação automática de condenados por crimes hediondos ou outros delitos devido à superlotação dos presídios.
A Súmula Vinculante nº 56, aprovada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2016, impede que uma pessoa cumpra pena em regime mais rigoroso do que aquele ao qual tem direito apenas pela ausência de estabelecimento adequado.
Entretanto, a aplicação dessa regra depende de análise judicial. O magistrado deve considerar o comportamento do condenado, a natureza do crime e os requisitos legais.
A Lupa também examinou o Plano Pena Justa, desenvolvido pelo governo federal em parceria com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ). A iniciativa busca enfrentar problemas estruturais do sistema prisional, mas não determina a libertação indiscriminada de criminosos.
O plano menciona um mutirão realizado em 2023 que resultou na libertação de 21 mil pessoas que preenchiam requisitos legais e jurisprudenciais. Isso não significa que elas tenham recebido liberdade simplesmente por falta de vagas.
Flávio afirmou que Lula acionou a Justiça para restabelecer as saidinhas
Flávio Bolsonaro também declarou que Lula teria acionado a Justiça para restabelecer as saídas temporárias de presos, depois que o Congresso Nacional derrubou um veto presidencial.
A Agência Lupa classificou a declaração como falsa.
A Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) nº 7663, apresentada ao STF contra a Lei nº 14.843/2024, partiu da Associação Nacional da Advocacia Criminal (Anacrim), e não do governo federal.
A entidade questionou as restrições impostas às saídas temporárias, alegando possíveis violações de garantias constitucionais.
Embora Lula tenha vetado parte das restrições em 2024, a Lupa não encontrou evidências de que ele tenha recorrido à Justiça para restabelecer o benefício.
Governo brasileiro enviou representantes aos Estados Unidos, ao contrário do que disse Flávio
Durante o debate, Flávio Bolsonaro afirmou que participou de uma audiência nos Estados Unidos para defender empresas e produtos brasileiros, enquanto o governo Lula não teria enviado representantes.
A checagem classificou a declaração como falsa.
Diplomatas da Embaixada do Brasil acompanharam, como observadores, a audiência realizada em Washington em 7 de julho de 2026, sobre tarifas comerciais impostas aos produtos brasileiros.
Além disso, representantes do governo federal mantiveram reuniões com autoridades norte-americanas para negociar as medidas comerciais.
Segundo informações do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o ministro Márcio Elias Rosa realizou quatro reuniões de alto nível com o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, entre maio e 2 de julho.
Posteriormente, em setembro, ministros brasileiros participaram de novos encontros presenciais com autoridades norte-americanas.
Dados contradizem afirmação de que criminalidade explodiu no governo Lula
Ao discutir segurança pública, Flávio Bolsonaro afirmou que a criminalidade teria aumentado de maneira generalizada durante o governo Lula.
A Agência Lupa classificou a afirmação como falsa, com base nos dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026.
O levantamento aponta que o Brasil registrou 40.775 mortes violentas intencionais em 2025, redução de 8,2% em comparação com 2024.
A taxa chegou a 19,1 mortes por 100 mil habitantes, o menor índice da série histórica iniciada em 2012.
Entretanto, a checagem também identificou indicadores que pioraram. Os feminicídios aumentaram 4%, chegando a 1.571 vítimas em 2025. As mortes decorrentes de intervenções policiais cresceram 5,4%, totalizando 6.602 casos.
Portanto, os dados mostram avanços em determinados indicadores e agravamento em outros. Não sustentam a afirmação de uma explosão generalizada da criminalidade.
Lula não liberou armas para traficantes, como afirmou Flávio
Outra declaração classificada como falsa envolveu a política de controle de armas.
Flávio Bolsonaro acusou Lula de liberar armamentos para traficantes.
Segundo a Agência Lupa, não existe lei, decreto ou medida provisória assinada pelo presidente que autorize ou facilite o fornecimento de armas a organizações criminosas.
Ao assumir a Presidência em janeiro de 2023, Lula revogou normas do governo Jair Bolsonaro (PL) que flexibilizavam o acesso a armas e munições.
As medidas incluíram restrições a novos registros de armas e redução dos limites de aquisição para determinadas categorias.
A Lupa também citou estudo do Instituto Sou da Paz, divulgado em 2025, que identificou como a flexibilização do acesso a armamentos durante o governo Bolsonaro favoreceu o desvio de parte dessas armas para o crime organizado.
Roubos de celulares diminuíram, diferentemente do que sugeriu Flávio
Durante o debate, Flávio Bolsonaro questionou os resultados das políticas de segurança e sugeriu que não houve redução nos roubos de celulares.
A Agência Lupa classificou a declaração como falsa.
ROUBOS DE CELULARES NO BRASIL
2022
492.905
Ocorrências
2025
308.723
Ocorrências
0150.000300.000450.000600.00020222025
Fonte: Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, conforme Agência Lupa.
-37,4%
de 2022 a 2025
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026 mostra que os roubos de celulares caíram de 492.905 registros em 2022 para 308.723 em 2025.
Ao considerar roubos e furtos, o total passou de 983.676 para 792.284 ocorrências, redução de 19,5% no período.
Os dados mostram uma diminuição nos registros, embora o problema continue afetando milhares de brasileiros.
Governo também adotou medidas contra a revenda de celulares roubados
Flávio Bolsonaro questionou a existência de ações para combater quem comercializa aparelhos roubados ou furtados.
A Lupa classificou a afirmação como falsa, apontando medidas legislativas e operações policiais.
Em abril de 2026, Lula sancionou a Lei nº 15.397/2026, originada de projeto parlamentar, que aumentou punições para crimes de furto, roubo e receptação.
Além disso, o governo federal apresentou o Projeto de Lei nº 3.073/2025, que prevê penas maiores para a receptação qualificada de celulares e outros dispositivos eletrônicos.
Na área operacional, o Ministério da Justiça coordenou a Operação Última Chamada.
Segundo dados divulgados pela Receita Federal, as ações realizadas em agosto de 2026 resultaram na recuperação de 9.989 celulares, 396 prisões em flagrante e fiscalização de 601 estabelecimentos comerciais.
Em setembro, uma segunda fase apreendeu outros 1.712 aparelhos e realizou 882 fiscalizações em pontos de venda de 15 estados.
Flávio afirmou que Lula foi condenado pelo STF e em todas as instâncias
O candidato do PL também afirmou que Lula havia recebido condenações do Superior Tribunal de Justiça (STJ), do Supremo Tribunal Federal (STF) e de todas as instâncias judiciais.
A Agência Lupa classificou a declaração como falsa.
Lula recebeu duas condenações na Operação Lava Jato, relacionadas ao apartamento tríplex no Guarujá e ao sítio de Atibaia.
No caso do tríplex, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) confirmou a condenação de primeira instância. Posteriormente, o STJ manteve a condenação, mas reduziu a pena.
Entretanto, o STF não condenou Lula.
Em 2021, o Supremo anulou as condenações ao reconhecer que a Justiça Federal de Curitiba não tinha competência para julgar os processos.
A decisão não representou uma absolvição de mérito, pois o tribunal não examinou se Lula havia cometido ou não os crimes.
Portanto, embora o histórico inclua condenações em instâncias inferiores, a afirmação de que o STF condenou o presidente não corresponde aos fatos.
Checagem diferencia informações falsas de declarações sem comprovação
A Agência Lupa também examinou outras afirmações de Flávio Bolsonaro, mas utilizou classificações diferentes de falso.
Entre elas estão acusações envolvendo supostos repasses de R$ 30 milhões do banqueiro Daniel Vorcaro ao Instituto Lula, consideradas insustentáveis por ausência de comprovação dos pagamentos.
A agência também classificou como insustentável uma acusação de violência doméstica envolvendo Luís Cláudio Lula da Silva, filho do presidente. A Polícia Civil de São Paulo concluiu a investigação em 2024 sem indiciá-lo, por insuficiência de elementos.
Essas declarações não integram o conjunto de afirmações classificadas como falsas nesta reportagem, pois a Lupa adotou critérios distintos para avaliá-las.
A checagem demonstra a importância de confrontar informações apresentadas em debates eleitorais com documentos, estatísticas e decisões judiciais. Uma declaração falsa não comprova necessariamente a intenção de enganar, mas sua divulgação pode transmitir aos eleitores uma percepção incompatível com os fatos documentados.
Crédito: Reportagem elaborada por O Diário de Maringá com informações da Agência Lupa, checagem do debate entre Lula e Flávio Bolsonaro na Band, publicada em 18 de outubro de 2026 e atualizada em 19 de outubro, às 1h27.



