Curitiba passa de cidade ecológica para uma das mais poluentes do Brasil

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Capital paranaense é a 7ª que mais emite gases na atmosfera; iniciativa privada busca formas de reduzir o impacto no ambiente

A emissão de gases de efeito estufa foi tema do maior estudo do gênero já realizado no país, realizado pelo Observatório do Clima. O levantamento aponta quais municípios mais poluem o meio ambiente, analisando as emissões de gases estufa de cada um dos 5.570 municípios brasileiros. Foram considerados dados nos setores de energia, mudança de uso da terra e florestas, agropecuária, processos industriais e tratamento de resíduos. A Grande Curitiba, que compreende a capital e os municípios da região metropolitana, aparece em 7º lugar no ranking das capitais, passando de “Capital Ecológica” para o status de uma das mais poluentes do país.

De acordo com o doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento, Marcelo Limont, o rótulo de capital ecológica teve início no final da década de 1980 e durou até 1996. “Na ocasião, o título se deu em decorrência do expressivo planejamento urbano e foi reforçado a partir de análises que se apropriaram de conjuntos limitados de indicadores, sendo a maioria relacionados a informações ambientais, como por exemplo a quantidade de hectares de área verde por habitante. Porém, a problemática ambiental é complexa e envolve, necessariamente, aspectos sociais e econômicos para sua avaliação, os quais comumente não eram vistos com a devida prioridade em avaliações de sustentabilidade da época”, explica o professor do programa de mestrado e doutorado em Gestão Ambiental (PPGAMB) da Universidade Positivo. “Não dá para comparar os indicadores (que no caso foi apenas um) que deram o rótulo de cidade ecológica com indicadores de mudança climática”, argumenta.

Segundo o professor, o cenário urbano da cidade mudou muito de lá para cá. “Infelizmente para pior, conforme aponta o estudo do Observatório do Clima, o qual amplia o conjunto de indicadores avaliados, considera a complexidade como elemento estrutural do desenvolvimento sustentável e que destacou o tema das mudanças climáticas”, explica.

Uma das razões que explicam o aumento dos gases poluentes em Curitiba é o processo de urbanização. A doutoranda do PPGAMB, Kelly Panegalli Palhuk, destaca que, hoje, o município só tem população vivendo em área urbana, com o carro sendo o principal meio de transporte (67%), o que eleva os indicadores de poluição do ar. “O grau de urbanização é de 100%, aspecto que lhe atribui a posição de cidade com maior densidade demográfica do Estado do Paraná, figurando em 22º lugar no contexto nacional”, frisa.

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O crescimento da proliferação dos gases do efeito estufa na capital paranaense também se relaciona com o intenso processo de urbanização da cidade. A doutoranda do PPGAMB, Kelly Cristine Panegalli, que pesquisa a mobilidade urbana em Curitiba, destaca que o carro acaba sendo o principal meio de transporte utilizado pela população, respondendo por aproximadamente 67% dos modais disponíveis na cidade, o que eleva os indicadores de poluição do ar. “No Brasil, os automóveis contribuem com metade das emissões de CO2 nos grandes centros urbanos, aspecto que sinaliza a necessidade de proposição de políticas públicas que incentivem e aperfeiçoem a infraestrutura dos sistemas de transporte público coletivo ou de baixo impacto como, por exemplo, a ciclomobilidade”. Kelly aponta, ainda, para a necessidade de ações conjuntas para resolver o problema, envolvendo governos, pessoas e empresas no sentido de colaborar em processos decisórios que possam reduzir essa emissão de GEE na cidade.

Indústria faz sua parte

O cenário exige reflexão e a necessidade de criação de modelos positivos de processos com baixo impacto ambiental, que podem partir de iniciativas compartilhadas entre governos, sociedade e iniciativa privada. Um exemplo são as medidas de gestão ambiental realizadas pela Posigraf, uma das maiores indústrias gráficas da América Latina, localizada na cidade industrial de Curitiba. Com um Sistema de Gestão Integrado (SGI), validado pelas certificações ISO 14001 e certificação Life, um dos principais objetivos da organização é melhorar continuamente a gestão ambiental. O SGI da Posigraf promove a utilização racional dos recursos e a redução dos impactos ao meio ambiente. O foco da gestão ambiental na produção dos materiais impressos na gráfica do Grupo Positivo, que produz mais de 50 milhões de livros ao ano, está na conservação da biodiversidade local e na redução da emissão de gases na atmosfera, especialmente durante a impressão.

Para isso, todo o processo de secagem da tinta impressa é cuidadosamente elaborado. O Oxidizer, um equipamento fabricado nos Estados Unidos, é responsável pelo tratamento de grande parte das emissões atmosféricas geradas no processo de impressão. “Ele possui atualmente uma eficiência de remoção de poluentes superior a 98%”, explica a coordenadora de Sistema Gestão Integrado da Posigraf, Andréa Arantes, engenheira ambiental e sanitarista. “Periodicamente, monitoramos os níveis de emissão atmosférica para atestar o cumprimento às legislações ambientais”, complementa.

Conservação da biodiversidade e combate ao desmatamento

Outra ação voltada para o objetivo de minimizar o impacto de suas atividades no meio ambiente é a adoção, desde 2003, da Reserva Mata do Uru, na Lapa (PR). Por meio de um Programa de Desmatamento Evitado (PDE) – uma iniciativa da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) – o Grupo Positivo garante recursos para manter a conservação da Mata do Uru. Ao longo dos 17 anos, o grupo já investiu quase R$ 2 milhões na conservação e manutenção da área e, com esse investimento, consegue minimizar os impactos de emissão de carbono gerados pela empresa.

Andrea alerta que todas as organizações, independente do porte ou setor de atuação, impactam o Meio Ambiente de alguma forma e, em contrapartida, dependem de serviços fornecidos pela natureza. “Uma vez que somos dependentes de recursos e serviços ecossistêmicos, realizar ações concretas de conservação da biodiversidade significa, do ponto de vista ambiental, contribuir para a conservação dos ecossistemas, e do ponto de vista do negócio, garantir que a organização terá disponíveis, a longo prazo, os recursos que são fundamentais para viabilidade de suas operações e existência”.

A coordenadora do SGI da Posigraf destaca ainda que é necessário focar na eficiência energética, no consumo sustentável de água e, ainda, na redução do impacto ambiental, especialmente dos gases. Segundo ela, o segredo é alinhar a competitividade das operações à busca por resultados econômico-financeiros, com ética e redução dos impactos sociais e ambientais, agregando valor aos negócios e buscando o desenvolvimento da sociedade e da cidade. Além da redução na emissão dos gases na atmosfera, a Posigraf também atua no tratamento de efluentes líquidos industriais, no controle da emissão de ruídos e na gestão de resíduos sólidos.

Metas de redução de carbono

Outro exemplo de conscientização climática na indústria paranaense é o da Valmet, fornecedora de tecnologias para o setor de energia, papel e celulose. A companhia finlandesa, instalada no município de Araucária (PR), lançou, em março deste ano, seu programa de clima denominado ‘A Caminho de Um Futuro Neutro em Carbono’, que prevê metas de redução de emissões de CO2 de 80% em suas próprias operações, e de 20% em sua cadeia de suprimentos até 2030.

Presidente da Valmet na América do Sul, Celso Tacla afirma que as ações sustentáveis buscam abarcar todos os setores produtivos da empresa. “Com o trabalho contínuo em P&D e engenharia de aplicações, vamos seguir desenvolvendo soluções para reduzir o uso de energia na utilização das nossas tecnologias e fornecer aos clientes soluções de geração de energia neutra em carbono a partir de biomassa. O objetivo é desenvolver tecnologias para permitir a produção de celulose e papel totalmente neutros em carbono”, afirma.

A Valmet também visa a atingir as metas climáticas das próprias operações sem a compensação de emissões, a partir da troca de créditos de carbono. Atualmente, as fábricas de celulose consumidoras das tecnologias Valmet já são 100% autossuficientes em bioenergia. Além disso, a oferta atual de caldeiras de biomassa da Valmet permite a produção de energia e calor 100% livre de fósseis.

“As mudanças climáticas e o aquecimento global são desafios significativos que estão levando as empresas a transformar e reduzir rapidamente suas emissões de dióxido de carbono. Acreditamos que a tecnologia desempenha um papel fundamental na diminuição das mudanças climáticas e do aquecimento global – e na transição para uma economia neutra em carbono. Nosso programa climático cobre toda a cadeia de valor e, com ações concretas, reduzimos significativamente a própria pegada de carbono, além de apoiarmos nossos fornecedores a fazer o mesmo. A Valmet também está fortemente comprometida em ser o parceiro preferencial dos clientes em sua jornada para a neutralidade de carbono”, diz o presidente e CEO da Valmet, Pasi Laine.

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