SRM, Governo Ratinho e Sandro Alex: R$ 60 milhões pedem transparência antes de aplausos

SRM, Governo Ratinho e Sandro Alex: R$ 60 milhões pedem transparência antes de aplausos


Alô, Tribunal de Contas do Estado e Ministério Público

R$ 60 milhões para a Sociedade Rural de Maringá não podem entrar no debate público como simples notícia de bastidor. Quando uma entidade privada recebe volume tão expressivo de recursos do Governo do Paraná, a sociedade precisa saber quem autorizou o repasse, com qual finalidade, mediante quais critérios e quais contrapartidas reais serão entregues ao cidadão.

Segundo o presidente da Sociedade Rural de Maringá, Henrique Pinto, em entrevista à Jovem Pan Maringá nesta sexta-feira, a SRM receberia R$ 60 milhões do Governo Ratinho Junior. O valor impressiona. Além disso, chama atenção porque supera em R$ 9 milhões o aporte inicial de R$ 50 milhões anunciado pelo Estado, em 2019, para a construção do Hospital da Criança de Maringá.

Sindicato cobra rigor após morte de trabalhador na Expoingá

Saúde recebeu menos que a SRM pode receber

A comparação fica ainda mais sensível quando se observa o custeio da saúde. Em 2023, o Governo do Paraná anunciou repasse de R$ 1,5 milhão por mês ao Hospital da Criança, durante 48 meses. Portanto, R$ 60 milhões equivalem a 40 meses desse custeio mensal estadual.

Na última prestação de contas do Município de Maringá na Câmara, outro dado chamou atenção. Enquanto o município investiu quase R$ 400 milhões em saúde, o Governo do Estado aplicou apenas R$ 51 milhões na área em Maringá.

Com isso, a SRM pode receber R$ 9 milhões a mais do que todo o valor investido pelo Governo Ratinho Junior na saúde de Maringá, segundo os dados apresentados na prestação de contas municipal.

Expoingá tem importância, mas exige fiscalização

Não se trata de negar a importância econômica da Expoingá. A feira gera empregos temporários, movimenta fornecedores, atrai visitantes e projeta Maringá. Contudo, essa relevância não encerra o debate. Pelo contrário, amplia a obrigação de transparência.

A SRM cobra entrada, vende estandes, recebe patrocínios, comercializa espaços e explora uma estrutura que, ao longo dos anos, também recebeu recursos públicos. Por isso, o cidadão tem direito de perguntar: qual é o retorno proporcional desse investimento para a população?

Diante de dezenas de milhões de reais em dinheiro público, o mínimo esperado seria uma contrapartida robusta. Entre as medidas possíveis estão portões abertos em dias específicos, acesso gratuito a shows, prestação de contas detalhada, divulgação dos contratos, metas de impacto econômico e critérios objetivos para uso dos recursos.

Recurso público não pode virar moeda política

Outro ponto merece atenção. Na entrevista, segundo o relato, Henrique Pinto teria tratado com naturalidade a captação de recursos junto a diferentes campos políticos. A frase, se confirmada no contexto citado, mostra uma lógica preocupante: antes da eleição, arrecada-se; depois, “o pau quebra”.

Essa cultura aproxima demais dinheiro público, conveniência política e calendário eleitoral. Diante disso, cabe uma pergunta legítima, sem qualquer acusação: em ano pré-eleitoral ou eleitoral, como garantir que recursos públicos repassados a entidades privadas não virem moeda política, influência indireta ou instrumento de fortalecimento de grupos alinhados ao poder?

A pergunta ganha ainda mais peso diante de episódios já noticiados no Paraná envolvendo suspeitas sobre uso de estruturas públicas, cargos comissionados e arrecadação política. Quando o histórico recente recomenda cautela, a fiscalização não pode chegar depois do prejuízo.

Feriado, ingresso e interesse privado

Também chama atenção a questão do feriado de aniversário de Maringá. Segundo o relato da entrevista, Henrique Pinto teria reconhecido que a manutenção do feriado fora da segunda-feira beneficiou a SRM. A razão seria simples: quem não pôde ir ao parque na segunda, por estar trabalhando, teria outro dia para comparecer e pagar ingresso.

A fala revela uma contradição. Enquanto o debate público sobre o feriado envolveu trabalhadores, comércio, tradição e identidade da cidade, a entidade privada enxergou ganho financeiro direto. Isso não é ilegal por si só. Porém, é politicamente revelador.

Quando decisões públicas, recursos públicos e interesses privados se encontram no mesmo balcão, o Ministério Público, o Tribunal de Contas e a Câmara de Vereadores precisam olhar com atenção.

Cerveja acima de R$ 20 já provoca cobrança

A Sociedade Rural pode e deve realizar a Expoingá. Também pode buscar patrocínios, vender ingressos e explorar comercialmente o evento. No entanto, quando recebe recursos milionários do Estado, precisa aceitar fiscalização proporcional ao tamanho do benefício.

Já há cobrança nas redes sociais sobre o preço da cerveja em alguns pontos da festa. Segundo relatos de frequentadores, o valor passaria de R$ 20 em determinadas situações. Caso esses preços sejam confirmados, a cobrança será inevitável, porque o público terá razão em questionar valores considerados altos em um evento que recebe forte apoio estatal.

Dinheiro público exige explicação pública

Maringá não pode normalizar uma equação injusta: o poder público entra com milhões, a população paga ingresso, empresas privadas lucram, políticos aparecem na foto e a prestação de contas fica invisível.

O ponto central é simples. Se o dinheiro é público, a explicação também precisa ser pública.

Dizer que haverá água gelada e fraldário como novidade não basta. Vale lembrar que os dias de portões abertos são pagos com dinheiro público. Além disso, as doações de alimentos são feitas pela própria população.

Portanto, diante de tanto recurso público envolvido, a Sociedade Rural de Maringá ainda deve muito aos maringaenses. Deve transparência, deve contrapartidas reais e deve prestação de contas clara.

Veja abaixo a entrevista na íntegra:

TV Diário
Redação O Diário de Maringá

Redação O Diário de Maringá

Notícias de Maringá e região em primeira mão com responsabilidade e ética

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *