Sandro Alex afirma que discurso não vence trabalho. Então vamos aos fatos
Pré-candidato ao Governo do Paraná pelo PSD defende que os resultados da gestão Ratinho Junior justificam a continuidade do atual grupo político. As obras citadas por ele, porém, acumulam rescisão contratual, licitação refeita, auditoria e cobrança de fornecedores.
O pré-candidato ao Governo do Paraná pelo PSD, Sandro Alex, defendeu nesta terça-feira (21), durante entrevista ao Jornal da Manhã Maringá, da Jovem Pan Maringá, a continuidade da gestão do governador Ratinho Junior.
Fornecedores cobram pagamentos após inauguração da Ponte de Guaratuba, obra símbolo do governo
Para sustentar o argumento, ele citou a duplicação da PR-317, o Contorno Sul de Maringá e a Ponte de Guaratuba. Segundo Sandro Alex, essas obras demonstram planejamento, segurança jurídica e capacidade de execução do Estado.
A defesa segue a mesma linha adotada pelo pré-candidato em nota divulgada pelo PSD em 13 de julho. Na ocasião, ele afirmou que “discurso não ganha do trabalho no Paraná”.
Por isso, o próprio histórico das obras se torna o critério mais direto para avaliar o discurso apresentado na entrevista.
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PR-317 teve contrato rescindido antes da retomada
O Governo do Paraná iniciou em 2021 a duplicação de 21,82 quilômetros da PR-317, entre Maringá e Iguaraçu. O contrato previa investimento inicial de R$ 126.563.925,48.
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O cronograma, no entanto, não avançou como previsto.
Em maio de 2025, o Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná (DER-PR) rescindiu o contrato depois que a empresa responsável descumpriu obrigações relacionadas ao andamento da obra e à qualidade dos serviços.
Depois disso, uma nova empresa assumiu os trabalhos, em agosto de 2025. O Estado acrescentou aproximadamente R$ 60,8 milhões ao investimento.
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A entrega, inicialmente prevista para o final de 2025, sofreu novos adiamentos.
Em março de 2026, o DER-PR informou que a obra havia alcançado 82,02% de execução. O órgão previa a conclusão ainda no primeiro semestre.
Até a entrevista concedida por Sandro Alex, porém, não havia confirmação pública de que a duplicação estivesse concluída.
Somadas as duas etapas, a obra ultrapassa R$ 180 milhões, valor citado pelo pré-candidato durante a entrevista.
A duplicação representa um investimento importante para a região. Mesmo assim, seu histórico inclui atraso, rescisão contratual, troca de empresa e aumento de custos.
Contorno Sul ainda não chegou ao canteiro de obras
Sandro Alex também citou o Contorno Sul de Maringá como exemplo da capacidade de planejamento do governo estadual.
O convênio de R$ 450 milhões foi assinado em dezembro de 2025. Já em fevereiro de 2026, a Prefeitura de Maringá publicou o edital de licitação.
O processo, contudo, não avançou até a contratação.
Em maio, o município suspendeu a abertura das propostas por razões técnicas e preventivas. No mês seguinte, o prefeito Silvio Barros confirmou que a Prefeitura refaria a licitação após recomendação do Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR).
O Tribunal apontou risco no critério usado para julgar as propostas.
Em julho de 2026, a Prefeitura republicou o edital. O novo cronograma prevê 150 dias para a elaboração dos projetos e 930 dias para a execução, totalizando 36 meses após a assinatura do contrato.
Até a entrevista desta terça-feira, porém, o município ainda não havia contratado a empresa responsável. Também não havia máquinas ou trabalhadores executando a obra.
O Contorno Sul, portanto, continua na fase administrativa. Há convênio, previsão de recursos e novo edital. O canteiro de obras ainda não existe.
Ponte de Guaratuba enfrenta auditoria do Tribunal de Contas
A Ponte de Guaratuba apareceu na entrevista como outro símbolo da gestão Ratinho Junior.
O contrato original entre o DER-PR e o Consórcio Nova Ponte previa investimento de R$ 386,9 milhões. Depois de sucessivos aditivos, o valor ultrapassou R$ 488 milhões.
Em janeiro de 2026, uma auditoria do TCE-PR identificou indícios de superfaturamento de R$ 14,8 milhões.
Segundo o relatório técnico, o contrato incluiu cobranças por serviços que já deveriam integrar o escopo original da empresa. A auditoria também questionou a quantidade de equipamentos prevista na composição de custos.
O documento citou cinco drones e dez conjuntos de puxadores industriais. Durante a execução, porém, a obra utilizou apenas um equipamento de cada tipo.
O DER-PR contestou o apontamento.
Em resposta ao Tribunal, o órgão rejeitou o uso do termo “superfaturamento” e afirmou que a análise deve considerar o valor global do contrato, não apenas itens isolados. Também sustentou que os preços questionados seguem os valores de mercado.
O processo ainda não recebeu julgamento definitivo dos conselheiros do TCE-PR.
Assim, não existe até o momento uma conclusão final sobre eventual irregularidade. A auditoria, entretanto, mantém sob análise uma das obras usadas pelo pré-candidato como referência de eficiência.
Fornecedores cobraram pagamentos após a inauguração
Os questionamentos não ficaram restritos ao Tribunal de Contas.
Menos de dois meses após a inauguração da ponte, fornecedores instalaram uma faixa nas proximidades da obra para cobrar pagamentos do Consórcio Nova Ponte.
A mensagem pedia que o consórcio “honrasse seus fornecedores”.
Veículos do litoral também reproduziram relatos publicados nas redes sociais. Trabalhadores e empresas prestadoras de serviços afirmaram que ainda aguardavam valores.
Até agora, não há confirmação pública sobre quantos fornecedores enfrentam o problema. Também não se conhece o valor total das pendências.
Da mesma forma, não existe esclarecimento definitivo sobre quem responde pelos débitos. A responsabilidade pode envolver o consórcio executor, empresas terceirizadas ou outros integrantes da cadeia contratual.
O trabalho escolhido como argumento entra em julgamento
Sandro Alex decidiu colocar as obras no centro de sua pré-campanha.
Na entrevista, ele apresentou a continuidade da gestão Ratinho Junior como consequência direta dos resultados entregues pelo governo. Dessa forma, a execução de cada empreendimento passa a integrar o debate eleitoral.
A PR-317 teve o contrato rescindido antes da retomada e recebeu novo aporte de recursos.
O Contorno Sul ainda não saiu da licitação, apesar de o convênio ter sido assinado em dezembro de 2025.
Já a Ponte de Guaratuba enfrenta auditoria por indício de superfaturamento e cobrança pública de fornecedores.
Esses fatos não anulam a importância das obras. Também não permitem afirmar, antes da conclusão dos processos, que houve irregularidades definitivas.
Ainda assim, o histórico das obras contradiz o discurso apresentado por Sandro Alex na Jovem Pan.
Ao afirmar que o trabalho deve falar mais alto, o pré-candidato estabeleceu o critério pelo qual pretende ser avaliado. A duplicação da PR-317, o Contorno Sul de Maringá e a Ponte de Guaratuba passam, portanto, a responder diretamente por esse argumento.
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