Sete anos de prisão: condenado por atuação ligada ao PCC foi assessor de Tião Medeiros e é irmão de assessor de Moro
Irmão de um assessor parlamentar de Sergio Moro, o advogado César Augusto Rossato Gomes teve a condenação por atuação em favor do PCC mantida pelo TJPR. Em 2022, ele ocupou um cargo no gabinete de Tião Medeiros.
A 5ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Paraná manteve a condenação dos advogados César Augusto Rossato Gomes e Rafael Cessetti por atuação em favor do Primeiro Comando da Capital, o PCC. A Justiça fixou as penas em sete anos de reclusão, em regime inicial semiaberto. A decisão veio a público em 17 de agosto de 2026.
Segundo as informações divulgadas sobre o julgamento, os desembargadores entenderam que os dois advogados ultrapassaram os limites da atividade profissional. Eles teriam prestado serviços permanentes à estrutura da organização criminosa. O processo integra os desdobramentos da Operação Alexandria.
O caso, no entanto, percorreu diferentes instâncias. Em uma fase anterior, o TJPR absolveu sumariamente César Rossato e Rafael Cessetti da acusação de integrar uma organização criminosa. O acórdão está disponível para consulta.
Depois, o processo chegou ao Supremo Tribunal Federal. A decisão do STF descreve elementos apresentados na acusação. Entre eles, aparecem anotações apreendidas com uma integrante do PCC.
Os materiais consultados não esclarecem se César Rossato já começou a cumprir a pena. Da mesma forma, não permitem afirmar se ele está preso atualmente.
Irmão de César Rossato trabalha com Moro
César Rossato é irmão do delegado da Polícia Civil Carlos Henrique Rossato Gomes, conhecido como KIQ. O delegado comandou a Prefeitura de Paranavaí entre 2017 e 2024. Desde 8 de abril de 2025, ele trabalha no Escritório de Apoio nº 1 do senador Sergio Moro (PL).
Um relatório oficial de servidores cedidos ao Senado, gerado em 16 de setembro de 2026, registra KIQ como auxiliar parlamentar pleno. O mesmo documento mantém o delegado em exercício no escritório político de Moro.
O público pode consultar informações sobre servidores e estruturas dos gabinetes no Portal da Transparência do Senado Federal.
Moro indicou KIQ para a função. Em seguida, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, formalizou a cessão do delegado.
Em entrevista concedida ao Diário do Noroeste em 2025, Moro elogiou o assessor. “O KIQ tem experiência e é muito bem avaliado”, afirmou o senador.
Além disso, em junho de 2026, a coluna Goela de Ouro, do site Zebeto, publicou que KIQ poderia assumir a Secretaria da Segurança Pública caso Moro vença a eleição para o Governo do Paraná. A reportagem, porém, não localizou uma confirmação oficial da campanha sobre essa possível indicação.
Tião Medeiros nomeou César Rossato em 2022
A ligação de César Rossato com um gabinete político começou antes da chegada de KIQ à equipe de Moro.
Em maio de 2022, o então deputado estadual Sebastião Henrique de Medeiros, o Tião Medeiros (PP), nomeou César Augusto Rossato Gomes para um cargo comissionado de nível G5. O advogado passou a trabalhar no gabinete do parlamentar na Assembleia Legislativa do Paraná.
O registro funcional apresentava a matrícula nº 3019249. A nomeação consta em documento da Assembleia Legislativa do Paraná.
Naquele ano, KIQ ainda comandava a Prefeitura de Paranavaí. Na época, ele declarou ao Diário do Noroeste que apoiaria Tião Medeiros para deputado federal.
Tião venceu a eleição de 2022 e, atualmente, exerce mandato na Câmara dos Deputados.
Mais recentemente, em 29 de agosto de 2026, Moro participou do lançamento da campanha de Tião à reeleição, em Paranavaí. O próprio senador publicou um vídeo do evento.
Cargo comissionado exige confiança
O cargo comissionado dispensa concurso público. Portanto, quem controla o gabinete escolhe quem ocupará a função.
No entanto, o documento consultado não informa quem indicou César Rossato. Também não revela quais verificações o gabinete realizou antes da nomeação.
Esse ponto merece atenção porque a Operação Alexandria começou em 2016. Ainda assim, os materiais reunidos pela reportagem não informam se os investigadores já apuravam a conduta de César Rossato em maio de 2022, quando ele recebeu a nomeação.
Assim, a reportagem não pode afirmar que o parlamentar ou seus auxiliares conheciam a investigação naquele momento.
Documentos não apontam participação de Moro, Tião ou KIQ
Nenhum documento consultado indica que Sergio Moro, Tião Medeiros ou Carlos Henrique Rossato Gomes que é delegado soubessem da atuação atribuída a César Rossato em favor do PCC.
Além disso, os materiais não apresentam os três como investigados na Operação Alexandria. Também não existe, nas informações analisadas, qualquer acusação de participação deles nos crimes atribuídos ao advogado.
A reportagem não encontrou registro de que Tião Medeiros tenha sido citado ou investigado na operação. Da mesma forma, o parentesco entre César e KIQ não transfere responsabilidade criminal de uma pessoa para outra.
Portanto, é necessário separar os fatos. César Rossato responde pelos próprios atos e pela condenação imposta pela Justiça. Já os vínculos familiares, profissionais e políticos ajudam a compreender como o nome dele circulou perto de estruturas públicas, mas não provam conhecimento ou participação de terceiros.
A porta lateral do poder
O episódio provoca uma discussão que ultrapassa este caso. Pessoas ligadas ao crime organizado nem sempre tentam se aproximar do poder pela porta da frente. Às vezes, chegam por meio de uma contratação comissionada, da relação com um aliado ou de uma indicação que não passou por uma verificação suficiente.
Porém, um caso isolado não permite afirmar que essa situação represente uma prática generalizada. Os dados reunidos mostram um episódio concreto. A partir dele, surge uma pergunta legítima sobre os controles adotados pelos gabinetes.
Quem nomeia alguém para um cargo de confiança precisa verificar quem pretende colocar dentro da estrutura pública. Esse cuidado inclui a análise de antecedentes, vínculos profissionais e investigações de conhecimento público.
Além disso, a responsabilidade política aumenta quando os envolvidos apresentam o combate ao crime organizado e a segurança pública como prioridades.
A condenação de César Augusto Rossato Gomes não responsabiliza KIQ, Sergio Moro ou Tião Medeiros. No entanto, o caso permite uma pergunta objetiva: quais procedimentos os gabinetes adotam antes de contratar pessoas ou aceitar indicações de aliados?
Os mencionados nesta matéria podem entrar em contato com a nossa redação para apresentar suas versões sobre o caso.
Obs.: A imagem da manchete mostra Sergio Moro e o delegado KIQ, assessor de Moro e irmão de César Augusto Rossato Gomes.



