Tem político que critica Copel e Sanepar, mas pede continuidade de Ratinho Junior com Sandro Alex: onde está a coerência?
Aneel apontou aumento na demora do atendimento da Copel. Na Sanepar, o Estado continua controlador. Para nós, apoiar a continuidade exige explicar quais mudanças o próximo governo deve realizar.
Por Gilmar Ferreira | O Diário de Maringá
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) apontou aumento no tempo de atendimento emergencial da Companhia Paranaense de Energia (Copel). Também registrou crescimento das reclamações contra a distribuidora. A representante da agência apresentou essas informações em audiência no Senado Federal, em 5 de maio de 2026.
Diante desses registros, nós cobramos melhorias. Entretanto, entendemos que o debate precisa alcançar também as escolhas do governo de Carlos Massa Ratinho Junior, do Partido Social Democrático (PSD).
Durante essa administração, o Estado vendeu parte de sua participação acionária e abriu mão do controle da Copel, em agosto de 2023. Na ocasião, o governo apresentou a transformação como uma iniciativa de modernização, com perspectivas de investimento.
Por isso, consideramos necessário confrontar a promessa com o serviço entregue. Modernizar uma empresa precisa significar também melhorar o atendimento de quem depende dela.
Nossa cobrança alcança os políticos que criticam Copel e Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar), mas defendem a continuidade do grupo governista. Ratinho Junior apoia Sandro Alex, também do PSD, para sucedê-lo. A campanha do candidato divulgou manifestação do governador reafirmando esse apoio.
Reconhecemos que as duas posições podem conviver. Contudo, esperamos uma explicação: quais mudanças esses apoiadores exigem e quais compromissos o candidato assumiu?
Queremos resultados para o consumidor
Desde agosto de 2023, a Copel funciona como uma companhia de capital disperso, sem acionista controlador. O Paraná permanece acionista e conserva uma ação especial com poderes de veto previstos no estatuto. Porém, já não exerce o controle anterior.
A mudança foi uma escolha do governo Ratinho Junior. Portanto, cobramos de seus defensores uma avaliação dos resultados, inclusive das dificuldades identificadas pela fiscalização.
Na audiência do Senado, a representante da Aneel, Ana Cláudia Cirino dos Santos, apontou aumento no tempo de preparo do atendimento. Esse intervalo compreende a espera entre o registro ou a identificação da interrupção e o envio da equipe.
Segundo ela, o indicador cresceu em 2025 e apresentou um salto significativo nos primeiros três meses de 2026. Além disso, as reclamações específicas contra a Copel aumentavam enquanto as reclamações nacionais apresentavam redução.
Assim, temos fundamento para criticar a piora nesses aspectos do atendimento. Ainda assim, não afirmamos que a privatização causou cada demora ou interrupção.
A mesma audiência apresenta informações favoráveis à distribuidora. A Aneel reconheceu o cumprimento de limites regulatórios e melhorias em indicadores de continuidade. Por isso, preservamos esses dados na análise.
O cumprimento de indicadores, entretanto, não encerra nossa cobrança. O consumidor precisa perceber a melhoria quando solicita atendimento e espera a energia voltar.
Vamos cobrar as medidas anunciadas
Em 9 de setembro, a Copel informou que seu programa Copel Agro havia reduzido em cerca de 12% o tempo médio de atendimento para religamentos em situações de emergência. A empresa também anunciou reforço de equipes próprias.
Reconhecemos a importância dessas iniciativas. Ao mesmo tempo, defendemos o acompanhamento dos resultados nas localidades que enfrentam dificuldades.
Para nós, modernização e competitividade precisam incluir capacidade de resposta. Afinal, uma concessionária de serviço essencial deve prestar contas também sobre a continuidade do fornecimento e a espera do consumidor.
É esse compromisso que esperamos dos representantes políticos. Quem cobra a Copel deve acompanhar as entregas. Da mesma forma, quem pede votos para a continuidade precisa apresentar as mudanças que exigiu do candidato apoiado.
A falta de água também exige respostas
Em Maringá, a interrupção de energia na captação do Rio Pirapó prejudicou o abastecimento após o temporal de 21 de setembro. Segundo informações da Sanepar publicadas pelo Maringá Post, cerca de 85% do município enfrentou problemas de abastecimento.
Posteriormente, a companhia confirmou a normalização na madrugada do dia 23. As localidades abastecidas por poços artesianos, correspondentes a 15% do município, não enfrentaram problemas de falta de água naquele episódio.
Sabemos que temporais danificam estruturas e exigem recuperação complexa. Mesmo assim, cobramos informações sobre prevenção, proteção das instalações e capacidade de resposta.
Queremos conhecer as medidas para reduzir a vulnerabilidade dos serviços. Também esperamos informação clara sobre os prazos de recuperação.
Na Sanepar, o governo estadual continua controlador. Conforme a composição acionária de 31 de agosto de 2026, o Paraná possui 60,08% do capital votante. Portanto, dirigimos nossa cobrança sobre gestão e planejamento também ao Estado.
Nesse caso, quem critica o abastecimento e apoia a continuidade precisa explicar quais prioridades exige do próximo governo.
Cobramos esclarecimentos sobre as denúncias
Em dezembro de 2025, os deputados estaduais Requião Filho, do Partido Democrático Trabalhista (PDT), e Arilson Chiorato, do Partido dos Trabalhadores (PT), pediram investigação sobre um suposto esquema de caixa dois envolvendo funcionários comissionados da Sanepar.
Segundo o Metrópoles, gravações mencionavam pedidos de arrecadação para pagar uma alegada dívida relacionada à campanha de Ratinho Junior. O veículo também registrou que nós, do O Diário de Maringá, havíamos publicado os áudios. Essas informações descrevem a denúncia, mas não comprovam crime ou participação do governador.
Em resposta ao Metrópoles, a Sanepar afirmou que as gravações eram antigas e haviam sido objeto de uma operação do Ministério Público em 2021. Informou ainda que os envolvidos foram demitidos por justa causa e declarou ter colaborado com a apuração.
Separadamente, o governo estadual sustentou que o assunto já havia passado por investigação e não apresentava fato novo.
Nas fontes consultadas para este editorial, não conseguimos confirmar o desfecho atual dos procedimentos mencionados. Tampouco encontramos comprovação de participação de Sandro Alex no suposto esquema.
Por isso, nossa cobrança se concentra em esclarecimentos documentados. Defendemos a apuração das denúncias e respeitamos a distinção entre acusação e fato comprovado.
Esperamos coerência entre a cobrança e o voto
Entendemos que um político pode reconhecer problemas e apoiar a continuidade de uma administração. Para demonstrar coerência, porém, precisa explicar suas razões e apresentar as mudanças que pretende cobrar.
Se a demora da Copel merece crítica, esperamos que o candidato apoiado diga como pretende enfrentar a questão. Da mesma forma, se a Sanepar precisa melhorar, queremos conhecer as prioridades do próximo governo.
Sem essa ligação entre diagnóstico e proposta, consideramos o discurso incompleto. O político demonstra indignação, mas deixa de explicar como sua escolha eleitoral contribuirá para resolver o problema.
Não atribuímos oportunismo a ninguém sem examinar suas manifestações e sua conduta. Entretanto, cobramos que a fiscalização alcance também os próprios aliados.
Ratinho Junior conduziu a mudança que retirou o controle estadual da Copel. Já na Sanepar, o Estado mantém o controle. Sandro Alex recebe o apoio do governador para sucedê-lo. Portanto, defendemos que esses vínculos acompanhem o debate eleitoral.
Antes do próximo pedido de voto, esperamos que os críticos das empresas apresentem os compromissos que exigiram para enfrentar a demora apontada pela Aneel. Também queremos conhecer as medidas que defendem para reduzir a vulnerabilidade do abastecimento evidenciada no Rio Pirapó. É diante desses problemas concretos que cobramos coerência.
Imagem da Manchete feita por IA



