Ratinho Junior perdeu a sucessão. A mídia que o sustentou precisa fazer autocrítica
A derrota do grupo de Ratinho Junior cobra reflexão sobre o uso político da comunicação e deixa um recado a Sergio Moro: governar exige entregas, transparência e respeito à população.
Por Gilmar Ferreira
Editorial
O senador Sergio Moro (PL) venceu a eleição para governador do Paraná, conforme o Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR). O resultado encerra a possibilidade de continuidade do grupo do governador Carlos Massa Ratinho Junior (PSD) no comando do Executivo estadual. www.tre-pr.jus.br
Na avaliação deste editorial, a derrota ultrapassa o candidato escolhido para a sucessão. Atinge o projeto político de Ratinho Junior, a influência de seu pai, o apresentador e empresário Carlos Roberto Massa, conhecido como Ratinho, e a estratégia de sustentação da chamada “República da Fazenda Ubatuba”.
Também cobra reflexão da parcela da mídia que aderiu ao discurso governista e deixou em segundo plano sua obrigação de questionar, verificar e fiscalizar.
A mensagem das urnas é clara em um ponto: a força desse grupo não bastou para eleger o sucessor. Influência política, exposição nos meios de comunicação e uma equipe competente de marketing não garantem a transferência de votos.
O eleitor tem vontade própria. E vive uma realidade que nenhum comercial consegue editar.
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Popularidade não é um cheque em branco
A popularidade do pai do governador não assegurou a continuidade do projeto político do filho. Da mesma forma, a aprovação de uma administração, mesmo quando aparece em pesquisas, não representa uma autorização automática para escolher quem governará depois.
A derrota do candidato apoiado pelo governo não comprova que pesquisas de popularidade sejam falsas. Comprova que aprovação pessoal e apoio ao sucessor são coisas diferentes.
Essa distinção precisa fazer parte da autocrítica de quem acreditou que bastaria associar um candidato à imagem do governador para vencer.
O cidadão pode reconhecer uma realização e rejeitar a continuidade do grupo. Pode aprovar parte da gestão e desejar outra liderança. Nenhum governante é dono dos votos de quem o elegeu.
Tratar popularidade como patrimônio transferível revela uma compreensão limitada da democracia.
Prefeitos não são donos dos votos
A mesma lição vale para a relação com os prefeitos. Apoios municipais ajudam a organizar uma campanha, mas não obrigam a população a seguir a escolha de suas lideranças.
Cobrar fidelidade de aliados não significa conquistar a confiança do eleitor. Pressionar prefeitos, caso isso ocorra, tampouco transforma apoio político em voto.
Qualquer suspeita de pressão envolvendo integrantes do governo, inclusive autoridades da segurança pública, exige apuração e documentos. Acusações de chantagem são graves e precisam de comprovação, não apenas da palavra “suposta”.
O princípio, porém, não admite dúvida: nenhum agente público deve usar o cargo, a estrutura administrativa ou a possibilidade de acesso a recursos para constranger escolhas eleitorais.
Se houve esse tipo de prática, os órgãos competentes devem investigá-la e ouvir os envolvidos. O resultado das urnas não substitui essa apuração.
A advertência aos demais políticos permanece: prefeitos representam municípios. Não controlam a consciência de seus moradores.
A propaganda precisa responder à realidade
Uma boa secretaria de comunicação pode produzir campanhas convincentes. Entretanto, não consegue realizar o trabalho que cabe às outras secretarias.
O anúncio de uma obra precisa corresponder à execução. A divulgação de um serviço precisa encontrar atendimento funcionando. A promessa de eficiência precisa aparecer na experiência de quem depende do poder público.
Quando essa correspondência falha, a imagem oficial perde credibilidade.
Por isso, a comparação entre o Paraná dos comerciais e o Paraná vivido pela população deve sair da disputa de discursos. Precisa chegar aos contratos, aos indicadores, às despesas e aos resultados.
Os gastos com publicidade também merecem exame: quanto o governo destinou às campanhas, quais critérios adotou e o que informou ao cidadão?
Nenhum recurso de edição ou inteligência artificial muda as condições de um serviço público. A realidade aparece no atendimento, na execução de uma obra e na resposta que o cidadão recebe.
A imprensa não pode servir de escudo
A crítica à atuação da mídia precisa distinguir veículos e profissionais. Não cabe atribuir a toda a imprensa paranaense uma única conduta.
Mas cabe cobrar de quem substituiu a fiscalização pela defesa do governo.
Quando um veículo reproduz a versão oficial sem conferir os resultados, entrega ao público uma informação incompleta. Quando trata perguntas incômodas como ataques, protege o poder e enfraquece o jornalismo.
A derrota do grupo governista deve provocar uma revisão dessa postura. A imprensa precisa manter distância crítica de qualquer administração, inclusive daquela com a qual tem afinidade.
Da nossa parte, continuaremos fazendo as cobranças necessárias e pertinentes. O Diário de Maringá cobrará de Moro documentos, explicações e resultados, como deve cobrar de qualquer governante.
Moro, mostre o Paraná sem maquiagem
Desejamos sucesso ao governador eleito Sergio Moro. Seu sucesso na administração deve significar melhores serviços e melhores condições de vida para os paranaenses.
Esse desejo vem acompanhado de uma cobrança: não tenha medo de mostrar o Estado que receberá.
Promova auditorias técnicas, abra as contas e apresente um diagnóstico público. Compare as entregas anunciadas com o que efetivamente funciona. Identifique obrigações financeiras, contratos em execução e problemas que exigem providências.
Se os documentos confirmarem realizações da gestão anterior, reconheça-as. Se revelarem falhas ou irregularidades, apresente os elementos e adote as medidas cabíveis, com oportunidade de esclarecimento aos responsáveis.
Esse retrato permitirá distinguir a herança recebida das decisões do novo governo. Não servirá como desculpa permanente: depois da posse, Moro responderá por suas próprias escolhas e pela maneira como enfrentar os problemas.
Que a derrota do projeto político de Ratinho Junior, de seu pai e da “República da Fazenda Ubatuba” sirva de exemplo ao próximo governador. Apoios, popularidade e comunicação podem ajudar uma administração. Não substituem sua obrigação de entregar resultados.
O primeiro compromisso deve ser com o Paraná que existe fora dos anúncios. Porque, quando o cidadão precisa de um serviço, é a realidade que responde.



