Obesidade e cirurgia: por que o peso interfere muito além da balança
Obesidade e cirurgia: por que o peso interfere muito além da balança
No Dia Nacional de Prevenção da Obesidade, especialista do Hospital Angelina Caron explica quando a cirurgia pode fazer parte do tratamento, o espaço das novas medicações e como a tecnologia robótica vem sendo incorporada aos procedimentos
Quando alguém procura tratamento para obesidade, os quilos são apenas uma parte da avaliação. Diabetes tipo 2, hipertensão, apneia do sono, alterações metabólicas, problemas articulares e doenças cardiovasculares podem acompanhar o excesso de peso e ajudam a explicar por que a medicina trata a obesidade como uma doença crônica, multifatorial e capaz de repercutir em diferentes sistemas do organismo.
O problema ganhou dimensão no Brasil. Dados do Ministério da Saúde mostram que a proporção de adultos com obesidade nas capitais brasileiras e no Distrito Federal mais que dobrou em menos de duas décadas, passando de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024. Entre as mulheres, o percentual chegou a 26,7%. Os números fazem parte do Vigitel, sistema de vigilância do governo federal que acompanha fatores de risco e proteção para doenças crônicas na população adulta.
O cenário ajuda a ampliar a discussão proposta pelo Dia Nacional de Prevenção da Obesidade, celebrado em 11 de outubro. Para quem já vive com a doença, prevenção e mudança de hábitos continuam importantes, mas não resumem o tratamento. Dependendo do grau de obesidade, das doenças associadas e da história clínica, podem ser necessários medicamentos e, em determinados casos, cirurgia. “A obesidade precisa ser entendida muito além da balança. Quando avaliamos um paciente, não estamos olhando apenas quantos quilos ele precisa perder, mas o que está acontecendo com sua saúde. Diabetes, apneia do sono, hipertensão, problemas articulares e alterações metabólicas podem fazer parte desse quadro. É esse conjunto que orienta a escolha do tratamento”, explica o cirurgião Dr. Pedro Henrique Caron, do Hospital Angelina Caron.
Quando a cirurgia entra no tratamento
A cirurgia bariátrica e metabólica não é indicada simplesmente a partir do desejo de emagrecer. Idade, Índice de Massa Corporal (IMC), presença de doenças associadas, tratamentos realizados anteriormente e condições clínicas precisam fazer parte da avaliação.
Os critérios brasileiros para a realização do procedimento foram atualizados pelo Conselho Federal de Medicina em 2025. Pacientes com IMC acima de 40 kg/m² podem ter indicação cirúrgica independentemente da presença de outras doenças. Para aqueles com IMC acima de 35 e abaixo de 40 kg/m², a cirurgia pode ser indicada quando existem doenças associadas à obesidade.
Uma das principais mudanças ocorreu na faixa de IMC entre 30 e 35 kg/m². A cirurgia passou a ser admitida para situações específicas, como diabetes tipo 2, doença cardiovascular grave com lesão em órgão-alvo, doença renal crônica precoce decorrente do diabetes tipo 2, apneia do sono grave, doença hepática gordurosa associada à fibrose, refluxo gastroesofágico com indicação cirúrgica e osteoartrose grave, entre outras condições previstas pela resolução.
“Por muito tempo, a cirurgia bariátrica ficou muito associada à ideia de um determinado peso ou IMC. Esses parâmetros continuam importantes, mas a avaliação é mais ampla. Duas pessoas com o mesmo IMC podem ter condições de saúde completamente diferentes. Precisamos entender a trajetória de cada paciente, quais doenças estão associadas e quais tratamentos já foram tentados antes de discutir uma indicação cirúrgica”, afirma Caron.
O objetivo também não termina na perda de peso. O tratamento busca reduzir os impactos da obesidade sobre a saúde e precisa ser acompanhado por uma equipe multidisciplinar antes e depois da operação.
E as canetas? A cirurgia ainda tem espaço?
A chegada de medicamentos como semaglutida e tirzepatida mudou o tratamento da obesidade e colocou uma nova pergunta nos consultórios: se hoje existem medicamentos capazes de promover perda de peso, a cirurgia bariátrica ainda é necessária? Para os especialistas, não se trata de colocar uma opção contra a outra.
A semaglutida, comercializada para controle de peso, é autorizada pela Anvisa para adultos com IMC a partir de 30 kg/m² ou a partir de 27 kg/m² quando existe ao menos uma comorbidade relacionada ao peso. A indicação ocorre associada a dieta com redução de calorias e aumento da atividade física.
A tirzepatida, também recebeu da Anvisa indicação para controle crônico do peso em adultos com IMC igual ou superior a 30 kg/m² ou a partir de 27 kg/m² quando há pelo menos uma condição associada, como hipertensão, dislipidemia, apneia obstrutiva do sono, doença cardiovascular, pré-diabetes ou diabetes tipo 2.
As novas terapias ampliaram as possibilidades de tratamento e podem ser indicadas para muitos pacientes. Isso não significa, porém, que tenham eliminado a indicação cirúrgica.
“Hoje temos mais ferramentas para tratar a obesidade, e isso é positivo. Existem pacientes que podem ter uma ótima resposta ao tratamento medicamentoso e outros para os quais a cirurgia continua sendo uma alternativa importante. Também podemos encontrar situações em que essas estratégias façam parte de momentos diferentes do tratamento. A discussão não deveria ser qual delas é melhor, mas qual é adequada para aquele paciente”, diz Caron.
A própria evolução recente dos medicamentos mostra como esse cenário permanece em transformação. Em maio deste ano, por exemplo, a Anvisa aprovou uma possibilidade de intensificação da dose de semaglutida para determinados adultos com obesidade que não apresentaram resposta clínica adequada à dose padrão, reforçando também a necessidade de acompanhamento médico e reavaliação periódica do tratamento.
A prevenção começa na infância
A discussão sobre obesidade não começa na vida adulta. O acompanhamento do crescimento e do ganho de peso deve fazer parte da rotina de saúde desde a infância. Diferentemente dos adultos, porém, não existe um único valor de IMC que determine sobrepeso ou obesidade em crianças. A avaliação considera peso, altura, idade e sexo e acompanha a evolução desses indicadores nas curvas de crescimento.
Mais do que um número isolado, a trajetória merece atenção. O próprio Ministério da Saúde orienta observar a velocidade de ganho de peso e a mudança na curva de IMC ao longo do crescimento, inclusive antes de a criança atingir os critérios para sobrepeso ou obesidade.
Os números mostram por que esse cuidado precisa começar cedo. Entre crianças de 5 a 9 anos acompanhadas na Atenção Primária à Saúde do SUS em 2020, 31,7% apresentavam excesso de peso e 15,8% obesidade. “A prevenção da obesidade não deve começar quando a pessoa chega à vida adulta com várias doenças associadas. O acompanhamento do crescimento, da alimentação e da atividade física começa na infância. Quanto mais cedo identificamos uma mudança importante na trajetória de ganho de peso, maior é a possibilidade de intervir antes que esse quadro se prolongue pela adolescência e pela vida adulta.”
Robótica amplia os recursos dentro do centro cirúrgico
Enquanto os medicamentos avançaram, a cirurgia também incorporou novas tecnologias. Entre elas está a plataforma robótica, utilizada pelo Hospital Angelina Caron em diferentes especialidades e também disponível para procedimentos bariátricos.
Referência na utilização da cirurgia robótica nessa área, o Dr. Pedro Henrique Caron explica que a tecnologia não modifica os critérios para indicação de uma bariátrica. Ela entra depois que a necessidade do procedimento já foi estabelecida. Na cirurgia robótica, o médico opera a partir de um console que controla os instrumentos introduzidos no paciente. O sistema oferece visão tridimensional ampliada do campo operatório e instrumentos articulados, permitindo ao cirurgião executar movimentos precisos durante o procedimento.
Isso não significa que todo paciente com indicação de cirurgia bariátrica precise ser operado com robô. A escolha da técnica e da via de acesso depende da avaliação médica e das características de cada caso. “A robótica é uma ferramenta cirúrgica. Ela não transforma um paciente que não tem indicação de cirurgia em candidato ao procedimento. Primeiro vem a avaliação clínica e a definição de que a cirurgia é a estratégia adequada. Depois discutimos qual técnica e quais recursos fazem mais sentido naquele caso”, explica Caron.
Para o cirurgião, esse ponto é importante em um momento em que tanto medicamentos quanto tecnologias cirúrgicas despertam grande interesse fora dos consultórios. “Não podemos começar o tratamento escolhendo a ferramenta. Primeiro precisamos entender a doença e o paciente. Às vezes a melhor estratégia será clínica, em outras situações teremos indicação cirúrgica. E, dentro da cirurgia, ainda vamos decidir qual procedimento e qual abordagem são mais adequados. A tecnologia deve entrar para auxiliar uma decisão médica, e não para determinar essa decisão”, acrescenta.
O tratamento não acaba quando o peso diminui
Há ainda um ponto comum entre as diferentes abordagens: obesidade não é uma doença tratada apenas até que determinado número apareça na balança. Mesmo depois de uma perda importante de peso, o acompanhamento continua relevante. Quem utiliza medicamentos precisa de avaliação médica para acompanhar resposta, tolerabilidade e manutenção do tratamento. Pacientes submetidos à cirurgia também necessitam de seguimento de longo prazo, incluindo cuidados nutricionais e clínicos.
Essa visão ajuda a afastar dois extremos que ainda cercam a obesidade: tratá-la apenas como resultado de escolhas individuais ou procurar uma única solução capaz de resolver todos os casos. “Precisamos sair da lógica de que existe uma resposta igual para todo mundo. A obesidade é uma doença complexa e temos hoje um conjunto maior de ferramentas para enfrentá-la. O melhor resultado começa justamente em saber indicar cada uma delas no momento certo”, conclui Caron.
Sobre o Hospital Angelina Caron
Fundado em 1983, o Hospital Angelina Caron (HAC) é uma instituição filantrópica de alta complexidade localizada em Campina Grande do Sul, na Região Metropolitana de Curitiba. Com mais de quatro décadas de atuação, realiza anualmente mais de 400 mil atendimentos a pacientes do SUS, convênios e particulares com atuação em áreas como oncologia, transplantes, cirurgia robótica, pediatria e reabilitação.
O modelo de cuidado é integrado ao ensino e à pesquisa por meio da UniCaron, do Departamento de Ensino e Pesquisa e dos programas de Residência Médica. Com foco em segurança, qualidade e atendimento humanizado, o HAC mantém como propósito promover saúde com excelência e ampliar seu impacto na assistência à população do Paraná e do Brasil.



