Jornada menor, salário maior: por que a receita dos países ricos não convence a Acim?
A Acim vai na contramão de países ricos ao se posicionar contra o fim da escala 6×1? A pergunta ganhou força depois que a Associação Comercial e Empresarial de Maringá afirmou que atuou junto a deputados e senadores paranaenses contra a redução da jornada de trabalho.
A Câmara dos Deputados aprovou, em dois turnos, a proposta que acaba com a escala 6×1 e reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais. O texto ainda segue para o Senado. Pela proposta, após a promulgação, o Brasil passaria primeiro para 42 horas semanais e, depois de 12 meses, chegaria às 40 horas.
Acim fala em custo, mas comparação internacional exige cuidado
A Acim argumenta que a medida pode aumentar custos para empresas, sobretudo micro e pequenos negócios. Esse ponto merece debate técnico. No entanto, a comparação com países desenvolvidos mostra outro lado: várias economias de alta renda operam com jornadas menores, salários mais altos e maior proteção ao trabalhador.
Na Alemanha, por exemplo, o salário mínimo sobe para € 13,90 por hora em 2026. No Reino Unido, o salário mínimo nacional para trabalhadores de 21 anos ou mais chega a £ 12,71 por hora em abril de 2026. Já no Brasil, o salário mínimo mensal de 2026 foi fixado em R$ 1.621.
Portanto, o trabalhador brasileiro recebe muito menos e, ao mesmo tempo, costuma enfrentar jornadas mais extensas. Esse contraste enfraquece o argumento de que apenas a redução da jornada comprometeria a competitividade nacional.
Carga tributária brasileira não é exceção entre países ricos
Outro ponto importante envolve a carga tributária. Segundo dados da OCDE, a carga tributária brasileira chegou a 33,7% do PIB em 2024. A média da OCDE ficou em 34,1% no mesmo período.
Ou seja, o Brasil cobra tributos em patamar próximo ao de países ricos. Porém, o trabalhador brasileiro recebe salários muito inferiores e enfrenta serviços públicos frequentemente mais precários.
Além disso, países como Alemanha, França e Bélgica têm alta tributação sobre o trabalho. Mesmo assim, mantêm economias fortes, salários maiores e jornadas menores. A diferença central está na produtividade, na qualificação, na infraestrutura, na tecnologia e na eficiência do Estado.
Debate não pode ignorar o trabalhador
A Acim tem legitimidade para defender o setor produtivo. Entretanto, o debate público não pode tratar o trabalhador apenas como custo. Afinal, o comércio só vende porque há renda circulando. A indústria só produz porque há consumo. O serviço só cresce quando a população tem tempo, salário e saúde para participar da economia.
Além disso, descanso não representa privilégio. Representa condição mínima para produtividade, convivência familiar, saúde mental e redução do adoecimento no trabalho.
O ponto central
A pergunta que Maringá precisa fazer é simples: o setor produtivo quer competir com países ricos apenas no discurso ou também aceitar padrões mínimos de jornada, salário e qualidade de vida?
A Acim defende preocupação com custos. Porém, os países de primeiro mundo mostram que desenvolvimento não nasce de jornadas longas e salários baixos. Pelo contrário, economias modernas tendem a combinar produtividade, tecnologia, renda melhor e mais equilíbrio entre trabalho e vida.
Por isso, o fim da escala 6×1 não deve ser analisado apenas como custo para empresas. Também precisa entrar na conta o custo humano de manter milhões de brasileiros trabalhando seis dias por semana, ganhando pouco e descansando quase nada.

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