Fatos contra paixões políticas: o que os indicadores revelam sobre cada governo brasileiro
A trajetória econômica do Brasil, da ditadura militar ao terceiro governo Lula, mostra que nenhum presidente pode reivindicar sozinho todos os avanços do país. No entanto, a leitura histórica dos indicadores aponta uma conclusão relevante: Lula não criou a estabilidade econômica, mas foi o governante que mais conseguiu converter esse ambiente em renda, emprego, consumo popular e projeção internacional.
Militares cresceram com dívida e concentração
Durante a ditadura militar, o Brasil viveu o chamado “milagre econômico”, especialmente entre 1968 e 1973. O PIB cresceu em ritmo forte, a indústria avançou e grandes obras marcaram o período.
Entretanto, esse crescimento teve custo alto. O país ampliou a dívida externa, concentrou renda, reprimiu direitos políticos e apostou em um modelo dependente de capital estrangeiro. Portanto, houve crescimento, mas não houve distribuição equilibrada dos ganhos.
Fim de Figueiredo mostra salário corroído
Nos anos 1980, a conta chegou. O Brasil enfrentou crise da dívida externa, inflação elevada, baixo crescimento e perda de capacidade de investimento. Por isso, o período ficou conhecido como “década perdida”.
Além disso, a inflação corroeu salários, desorganizou preços e reduziu o poder de compra das famílias. No fim do governo João Figueiredo, em março de 1985, o salário mínimo vigente era de Cr$ 166.560. Em maio de 1985, já no governo José Sarney, o valor passou para Cr$ 333.120.
Para converter esse valor em dólar, é necessário usar a cotação da época. No início de 1985, o câmbio oficial girava em torno de Cr$ 6.200 a Cr$ 6.500 por dólar. Assim, Cr$ 166.560 divididos por uma cotação aproximada de Cr$ 6.300 resultam em cerca de US$ 26.
Portanto, o salário mínimo no final do governo Figueiredo equivalia aproximadamente a US$ 25 a US$ 27 por mês. Esse número ajuda a dimensionar a perda de poder de compra daquele período.
Collor abriu a economia, mas agravou a instabilidade
Fernando Collor governou de 15 de março de 1990 a 2 de outubro de 1992. Ele foi o primeiro presidente eleito pelo voto direto após o regime militar. Seu governo prometeu modernizar o país, combater a inflação e abrir a economia brasileira ao mercado internacional.
Na prática, porém, o Plano Collor marcou profundamente a memória econômica nacional. O bloqueio de recursos das poupanças e contas bancárias atingiu famílias, empresas e trabalhadores. Além disso, a inflação não foi controlada de forma duradoura, a recessão ganhou força e a crise política terminou no processo de impeachment.
A deterioração do poder de compra também ficou evidente no salário mínimo. Em 1992, último ano completo do governo Collor, o salário mínimo girava em torno de Cr$ 522 mil. Considerando a cotação média da época, o valor equivalia a aproximadamente US$ 60 por mês, patamar muito superior ao registrado no final do governo Figueiredo, mas ainda insuficiente para garantir estabilidade econômica às famílias diante da inflação elevada.
Collor também iniciou a abertura comercial e acelerou debates sobre privatizações e modernização produtiva. No entanto, seu governo ficou associado a choque econômico, instabilidade institucional e perda de confiança. Assim, entre Sarney, Collor e o início do governo Itamar, o Brasil ainda buscava uma saída consistente para a inflação.
Itamar e FHC criaram a base da estabilidade
Itamar Franco teve papel decisivo ao viabilizar o Plano Real. Fernando Henrique Cardoso, primeiro como ministro da Fazenda e depois como presidente, consolidou a estabilização da moeda, controlou a inflação e estruturou bases fiscais importantes.
Portanto, sem Itamar e FHC, Lula não teria encontrado, em 2003, o mesmo ambiente econômico. A estabilidade não nasceu no governo Lula. Ela veio antes, com o Plano Real.
Salário mínimo em dólar mostra mudança no poder de compra
No início do governo FHC, em 1995, o salário mínimo era de R$ 70 e passou para R$ 100 em maio daquele ano. Considerando o dólar médio de 1995, próximo de R$ 0,91, o valor equivalia a cerca de US$ 110.
Ao fim do governo FHC, em 2002, o salário mínimo chegou a R$ 200. Com o dólar médio anual perto de R$ 2,92, esse valor correspondia a aproximadamente US$ 68.
Portanto, o salário mínimo dobrou em reais entre 1995 e 2002, mas perdeu valor quando convertido em dólar.
No fim do segundo governo Lula, em 2010, o mínimo era de R$ 510, aproximadamente US$ 290. Já no fim do governo Dilma, em 2016, alcançou R$ 880, cerca de US$ 252. No fim do governo Bolsonaro, em 2022, o salário mínimo era de R$ 1.212, equivalente a cerca de US$ 235.
Em 2026, o salário mínimo nacional está em R$ 1.621. Com o dólar próximo de R$ 5,30, o valor fica em torno de US$ 306. Portanto, mesmo com variação cambial, o salário mínimo em dólar cresceu com mais força nos governos Lula e voltou, no terceiro mandato, a um patamar superior ao registrado nos fins dos governos FHC, Dilma e Bolsonaro.
Lula transformou estabilidade em renda e projeção internacional
A diferença central está no uso político e econômico desse ambiente. Lula recebeu um país estabilizado e conseguiu ampliar renda, emprego formal, crédito, consumo e presença internacional.
Entre 2003 e 2010, o Brasil ganhou peso global. O país saiu de 15ª no ranking das maiores economias e chegou próximo da 7ª colocação mundial ao fim do segundo mandato de Lula.
Além disso, houve valorização do salário mínimo, expansão do mercado interno e redução da pobreza. Esse desempenho também contou com fatores externos. A China comprava cada vez mais soja, minério, petróleo e alimentos. O boom das commodities favoreceu países exportadores, como o agronegócio no Brasil.
Ainda assim, Lula soube aproveitar aquele ciclo favorável para fortalecer a economia interna e projetar o país no exterior.
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Dilma perdeu força econômica
Dilma Rousseff herdou um Brasil com prestígio internacional, mercado interno aquecido e indicadores sociais positivos. Porém, seu governo perdeu capacidade de manter o ritmo.
A crise fiscal, a queda dos investimentos, a recessão e a instabilidade política comprometeram o desempenho econômico. Com isso, parte do capital econômico acumulado nos anos anteriores se perdeu.
Mesmo assim, o salário mínimo em dólar ao fim do governo Dilma ainda ficou acima dos valores registrados no encerramento dos governos FHC e Bolsonaro.
Temer reduziu a instabilidade, mas não retomou crescimento forte
Michel Temer assumiu após o impeachment de Dilma. Seu governo aprovou medidas fiscais, tentou reorganizar as contas públicas e reduziu parte da instabilidade institucional.
No entanto, a economia não voltou a crescer com força. O país saiu da recessão, mas continuou com baixo dinamismo, desemprego elevado e recuperação lenta.
Bolsonaro enfrentou pandemia e entregou país fora do Top 10
Jair Bolsonaro aprovou a reforma da Previdência no primeiro ano de governo. Logo depois, enfrentou a pandemia de Covid-19, uma crise excepcional que atingiu a economia mundial.
O auxílio emergencial ajudou milhões de brasileiros em um momento crítico. Porém, a crise sanitária, a inflação, os juros altos e a instabilidade política prejudicaram a recuperação.
Ao fim de 2022, o Brasil estava fora do grupo das dez maiores economias do mundo, próximo da 11ª posição. Além disso, o salário mínimo em dólar terminou em torno de US$ 235, abaixo do patamar registrado no fim dos governos Lula e Dilma.
Terceiro governo Lula recoloca Brasil entre as dez maiores economias
No terceiro mandato de Lula, o Brasil voltou ao grupo das dez maiores economias do mundo. Projeções do FMI indicam o PIB nominal brasileiro em torno de US$ 2,6 trilhões em 2026, mantendo o país próximo da 10ª colocação global.
A comparação histórica, portanto, mostra uma vantagem de Lula em indicadores de projeção internacional, renda e mercado interno. Bolsonaro enfrentou a pandemia, o que precisa ser considerado. Ainda assim, terminou o mandato com o Brasil em posição inferior àquela alcançada por Lula em seus dois primeiros governos.
Conclusão: estabilidade nasceu antes, mas Lula converteu em ganho social
A conclusão mais equilibrada é esta: os militares cresceram com dívida, concentração e autoritarismo; Itamar e FHC estabilizaram a moeda; Lula foi quem mais ampliou renda, consumo e projeção internacional; Dilma perdeu parte desse capital econômico; Temer estabilizou parcialmente o ambiente político e fiscal; Bolsonaro enfrentou a pandemia, mas entregou o país fora do Top 10; e Lula voltou ao poder com o Brasil novamente entre as dez maiores economias do mundo.
A história econômica brasileira, portanto, não cabe em propaganda partidária. Ela mostra ciclos, acertos, erros e contextos. Porém, quando o critério envolve salário mínimo em dólar, renda, consumo popular e posição internacional, os governos Lula aparecem como o período de maior conversão da estabilidade em ganho social e econômico.
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