Maringá: Quando a fiscalização incomoda, a solução é trocar quem fiscaliza?
Uma ex-conselheira, que ocupava a vice-presidência do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência de Maringá até ser substituída sem receber justificativa formal, concedeu entrevista ao O Diário de Maringá. A conversa foi conduzida pelo jornalista Gilmar Ferreira.
Ela relata os detalhes do afastamento, fala sobre as tentativas de diálogo com a Prefeitura de Maringá e a Câmara Municipal e comenta outro episódio ocorrido na mesma secretaria, envolvendo a exoneração de seu filho, que ocupava um cargo comissionado e é uma pessoa com deficiência.
Segundo a entrevistada, o filho só tomou conhecimento da exoneração dez dias depois do ato. Ela afirma que não questiona a possibilidade de desligamento de servidores comissionados, mas considera que, no caso de uma pessoa com deficiência, deveria ter ocorrido ao menos uma comunicação direta, o que, segundo ela, não aconteceu.
A reportagem não localizou, até a publicação, manifestação oficial da Prefeitura de Maringá ou do conselho sobre os pontos levantados pela ex-conselheira.
Confira a entrevista.
Gilmar Ferreira: Você foi afastada da vice-presidência do conselho. Como soube disso?
Ex-conselheira: Até hoje eu não recebi uma justificativa sobre minha saída. Ninguém me chamou para explicar nada. Fiquei sabendo que havia um pedido de novas nomeações e, a partir daí, fui atrás de entender o que estava acontecendo.
Gilmar Ferreira: O conselho havia decidido manter a diretoria até 2027. O que mudou nesse intervalo?
Ex-conselheira: Essa é a pergunta que eu também gostaria de responder. Em março, ficou definido que a composição seguiria até 2027. Pouco depois, veio o pedido de novas nomeações. Não tive acesso a nenhum documento que explicasse essa mudança.
Gilmar Ferreira: Existe alguma hipótese para o que motivou o afastamento?
Ex-conselheira: Ficou muito claro para mim que eu era vista como uma ameaça, mesmo não sendo. E isso não faz sentido. Eu sou do grupo político da própria gestão. Continuo filiada ao mesmo partido que apoia a administração. Nunca fui oposição.
Gilmar Ferreira: Você chegou a buscar ajuda antes do afastamento se concretizar?
Ex-conselheira: Sim. Uns 40 dias antes, eu já tinha percebido que algo estava se movendo contra mim e busquei ajuda. Cheguei a receber um áudio de um secretário municipal dizendo que minha participação no conselho era importante. Mesmo assim, o ato de substituição foi assinado.
Gilmar Ferreira: Depois que o afastamento aconteceu, você procurou alguém?
Ex-conselheira: Conversei com todos os contatos políticos que eu tinha. Levei toda a documentação que comprovava o que estava acontecendo. Mesmo assim, nada foi feito. Uma pessoa até tentou intermediar uma conversa, mas ninguém quis se posicionar sobre o assunto. Ninguém quis falar sobre isso, porque sabem o que fizeram.
Gilmar Ferreira: Os documentos citam outro caso na mesma secretaria, a exoneração de um servidor comissionado. Quem era esse servidor e qual a relação entre os dois episódios?
Ex-conselheira: Era o meu filho. Ele é uma pessoa com deficiência e só ficou sabendo que havia sido exonerado dez dias depois do ocorrido. Eu sei que uma pessoa comissionada pode ser exonerada, mas, no caso de uma pessoa com deficiência, no mínimo deveria haver uma comunicação. Isso não aconteceu.
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No momento em que foi exonerado, ele estava fazendo mestrado, em uma parceria entre a Universidade Estadual de Maringá e a Prefeitura. O trabalho dele era exatamente sobre empregabilidade e mercado de trabalho para pessoas com deficiência. Ele teve que pedir prorrogação para concluir, porque teve um comprometimento emocional muito grande. A situação não parou na demissão dele. Ele viveu todo o desgaste do que aconteceu comigo também.
Gilmar Ferreira: Como ele está hoje?
Ex-conselheira: Já terminou o mestrado. Continua desempregado. Está participando de uma série de reportagens do Fantástico, da TV Globo, exibida em rede nacional sobre o tema. A série prevê cinco episódios, dos quais dois já foram ao ar.
Gilmar Ferreira: Você também menciona uma atuação anterior ligada a uma clínica de atendimento a pessoas autistas. Pode explicar?
Ex-conselheira: Eu sempre lutei e busquei recursos para essa clínica. Ela saiu do papel depois de uma articulação com uma autoridade municipal da época. Participei efetivamente da reforma e da inauguração do espaço.
Gilmar Ferreira: O que aconteceu depois?
Ex-conselheira: Este ano nem a Semana Nacional da Pessoa com Deficiência foi realizada, acho que para não precisar da minha participação. Para mim, é nítida uma tentativa de invalidação, que prejudica minha atuação como profissional e como ativista.
Gilmar Ferreira: O que você espera agora?
Ex-conselheira: Espero que o conselho e a Prefeitura expliquem o que aconteceu. Uma ata, um ofício, um parecer. Qualquer coisa que mostre por que fui afastada. Até hoje, isso não veio.
A reportagem do O Diário de Maringá segue apurando o caso e permanece à disposição do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência de Maringá e da Prefeitura de Maringá para publicar as manifestações oficiais sobre os fatos relatados.
A pergunta que fica é direta: que gestão de inclusão é essa que afasta quem precisa de espaço para dar lugar a quem, segundo o relato apresentado, não enfrenta a mesma necessidade?
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