O sucesso da Massa FM custou quantos empregos?
Empresário afirma que afiliadas gastam menos ao retransmitir a Massa FM. Modelo favorece proprietários, mas levanta dúvidas sobre os empregos de locutores, operadores e comunicadores locais
O apresentador e empresário Carlos Roberto Massa, o Ratinho, comemorou a expansão da Massa FM e destacou uma das principais vantagens oferecidas aos proprietários de emissoras afiliadas: a redução dos custos de operação.
A declaração apareceu em uma entrevista ao podcast “A Cara do Negócio”, reproduzida pelo portal do Grupo Massa.
“Pra pessoa que tem uma emissora lá no interior, ele tem que gastar muito mais pra tocar a emissora dele do que pegar nossa programação. O filé já fica com ele. Eu se tivesse uma rádio hoje, eu me filiaria na Massa FM”, afirmou Ratinho.
A frase deixa claro o atrativo comercial da rede. A emissora do interior reduz despesas porque recebe parte da programação pronta. Dessa maneira, o proprietário mantém a frequência, explora o mercado publicitário local e diminui os gastos com a produção diária.
Para o dono da rádio, como disse Ratinho, “o filé” permanece na operação.
Para os trabalhadores, porém, o resultado pode ser diferente.
Uma única programação em dezenas de cidades
Segundo o Grupo Massa, a rede ultrapassou 90 emissoras afiliadas e alcança quase 50 milhões de pessoas. O grupo também informa que oferece mais de 20 programas em rede.
Na prática, um programa produzido em um único estúdio ocupa simultaneamente o horário de dezenas de rádios. Antes, cada emissora precisava manter locutores, operadores de áudio, produtores, programadores musicais e outros profissionais para preencher sua própria grade.
Com a filiação, parte desse trabalho chega pronta.
Não existe, nas informações disponíveis, um levantamento nacional que mostre quantos locutores, operadores ou produtores perderam o emprego depois da entrada das emissoras na Massa FM. Por isso, não se pode afirmar que todas as afiliadas realizaram demissões.
Também seria incorreto dizer que cada nova filiação elimina automaticamente vagas de trabalho.
Ainda assim, a própria declaração de Ratinho abre espaço para o questionamento. Se o principal benefício oferecido ao empresário é gastar menos, quais despesas deixam de existir? Quantos programas locais saem do ar? Quantos profissionais continuam trabalhando depois da adoção da grade nacional?
Esses dados não aparecem na comemoração divulgada pelo grupo.
Menos produção local, menos espaço para profissionais?
Rádio não funciona apenas como uma sequência de músicas e anúncios.
Locutores conhecem os bairros, conversam com moradores, divulgam eventos, acompanham problemas da cidade e cobram respostas das autoridades. Em muitos municípios, esses profissionais mantêm uma relação direta com a comunidade.
Algumas afiliadas preservam horários locais, jornalismo regional, promoções e publicidade própria. Portanto, a transmissão em rede não elimina necessariamente toda a produção da cidade.
O problema começa quando a economia passa a definir o sucesso da operação.
Quanto mais horas a afiliada recebe prontas, menor pode ser a necessidade de produzir conteúdo local. Essa consequência econômica não prova a existência de demissões em todas as emissoras, mas mostra por que o modelo precisa de transparência.
A expansão aumentou apenas o alcance da programação ou também criou empregos nas cidades atendidas?
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O Grupo Massa não apresentou essa resposta.
Rede Massa já realizou cortes de funcionários
O histórico recente da Rede Massa mostra que o aumento do alcance não garante a preservação dos postos de trabalho.
Em abril de 2023, a empresa desligou profissionais de áreas como reportagem, cinegrafia e edição de texto e imagem. O Grupo Massa confirmou parte das demissões e declarou que fazia uma revisão no modelo de operações para melhorar a produtividade e a eficiência.
No ano seguinte, o Sindicato dos Radialistas Profissionais e dos Trabalhadores em Empresas de Radiodifusão, Rádio, Televisão e Multimídia do Estado do Paraná denunciou uma nova demissão coletiva na Rede Massa.
Segundo a entidade, a medida atingiu profissionais do setor operacional. O sindicato também informou que acionou o Ministério Público do Trabalho e pediu a lista completa dos trabalhadores desligados.
Os cortes ocorreram na televisão. Portanto, eles não comprovam que a expansão da Massa FM provocou demissões nas rádios afiliadas.
Mesmo assim, os episódios mostram que a busca por eficiência e redução operacional já atingiu profissionais do próprio grupo.
Compra da TV Tibagi
Ratinho iniciou, em 2007, a negociação para comprar as quatro emissoras de televisão do Grupo Paulo Pimentel. O conjunto incluía a TV Iguaçu, de Curitiba; a TV Tibagi, de Apucarana; a TV Naipi, de Foz do Iguaçu; e a TV Cidade, de Londrina.
A negociação terminou em 2008 e deu origem à Rede Massa.
Não foi localizada uma relação oficial com o número de trabalhadores demitidos imediatamente após a aquisição da TV Tibagi ou das demais emissoras.
Sem documento sindical, processo trabalhista, comunicado empresarial ou reportagem da época com essa informação, não é possível publicar um número como fato.
Publicidade pública aumentou no Paraná
A discussão também envolve a relação entre o Grupo Massa e o Governo do Paraná, comandado por Carlos Roberto Massa Junior, o Ratinho Junior, filho do apresentador.
Dados divulgados pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná mostram que os gastos estaduais com empresas de comunicação cresceram nos primeiros anos do atual governo.
Em 2019, o Estado destinou R$ 58.728.950,33 a rádio, televisão, jornais, revistas e publicidade legal. O total chegou a R$ 73.754.638,96 em 2020. No ano seguinte, alcançou R$ 128.752.034,34.
Entre as rádios, os gastos passaram de R$ 9.345.705,85, em 2019, para R$ 10.248.227,87, em 2020. Já em 2021, o valor atingiu R$ 32.912.366,22.
O aumento entre 2019 e 2021 ficou em aproximadamente 252%.
As emissoras de televisão receberam R$ 27.672.006,52 em 2019. Depois, o valor subiu para R$ 46.599.698,77 em 2020 e alcançou R$ 71.517.300,69 em 2021.
Esses números abrangem todas as empresas de rádio e televisão contempladas pelo Estado. Logo, eles não representam pagamentos exclusivos à Rede Massa ou à Massa FM.
Uma reportagem do Plural informou que empresas da família do governador receberam aproximadamente R$ 1,4 milhão em publicidade estadual no primeiro semestre de 2019.
Para atualizar esse levantamento, seria necessário consultar os pagamentos individualizados por razão social e CNPJ.
Recursos federais também exigem detalhamento
A Rede Massa, como afiliada do Sistema Brasileiro de Televisão, também pode receber publicidade de órgãos e empresas do Governo Federal por meio de planos nacionais e regionais de mídia.
Entretanto, não foi localizado um relatório consolidado que mostre, de forma clara, quanto a Rede Massa e a Massa FM receberam individualmente da União nos últimos anos.
Por esse motivo, não é correto atribuir um valor específico ao grupo sem conferir os contratos, as ordens de veiculação e os pagamentos ligados a cada CNPJ.
A Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, o Governo do Paraná e o Grupo Massa podem esclarecer esses números.
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O filé fica com quem?
A expansão de uma rede privada faz parte da estratégia empresarial do grupo. Além disso, a filiação pode ajudar pequenas rádios a melhorar a qualidade técnica, ampliar o alcance e competir com plataformas digitais.
Ratinho, contudo, apresentou a redução de custos como uma vantagem central do modelo.
Nesse ponto está o debate.
Uma única produção pode ocupar dezenas de frequências. O proprietário reduz despesas, a rede fortalece sua marca e a programação alcança milhões de ouvintes.
Enquanto isso, locutores, operadores, produtores e comentaristas disputam um mercado cada vez mais centralizado.
A Massa FM informa quantas emissoras possui e quantas pessoas alcança. Falta divulgar quantos empregos a expansão criou, quantos profissionais permanecem nas afiliadas e quanto da programação continua sendo produzida em cada cidade.
Ratinho já explicou onde fica “o filé” para o empresário. Nas entrelinhas, também deixou claro que, quando se fala em economia para as emissoras regionais, o resultado pode ser o corte de profissionais.



