No estúdio, o Paraná de Sandro Alex é vitrine; fora dele, há atrasos, suspeitas e milhões em cobrança

No estúdio, o Paraná de Sandro Alex é vitrine; fora dele, há atrasos, suspeitas e milhões em cobrança


Entrevista na Jovem Pan Maringá mostrou a versão otimista do ex-secretário sobre quase oito anos do governo Ratinho Junior. A bancada fez perguntas pertinentes e conduziu um programa sério, informativo e bem-humorado. Fora do estúdio, porém, documentos públicos mostram obras atrasadas, projetos que ainda não começaram, questionamentos do Tribunal de Contas e fornecedores cobrando valores milionários.

Sandro Alex (PSD) apresentou nesta sexta-feira, 14 de agosto, durante entrevista ao Jornal da Manhã, da Jovem Pan Maringá, um Paraná de grandes obras, investimentos e avanços.

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Quem ouviu apenas as realizações citadas pelo ex-secretário de Infraestrutura e Logística poderia ter a impressão de que praticamente tudo funcionou durante os quase oito anos do governo de Carlos Massa Ratinho Junior (PSD).

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A realidade é mais complexa.

Existem obras entregues e investimentos importantes. Isso precisa ser reconhecido. Mas existem também obras atrasadas, projetos que continuam no papel, contratos que passaram por auditorias, fornecedores cobrando milhões e problemas graves identificados pelo Tribunal de Contas do Estado do Paraná.

A própria documentação já reunida pelo O Diário mostra que anúncio, contrato assinado, obra iniciada e obra entregue não podem ser colocados na mesma conta.

Paulo Caetano conduziu entrevista com espaço para perguntas

Antes dos contrapontos, um registro necessário sobre o programa.

Paulo Caetano conduziu muito bem a entrevista.

Ele deu espaço para o entrevistado apresentar suas posições e também para os integrantes da bancada questionarem o candidato.

Angelo Rigon, Edivaldo Magro e Kim Rafael fizeram perguntas pertinentes, abordando temas que interessam diretamente ao eleitor.

E o programa ainda tem uma característica que merece destaque: consegue tratar política com seriedade sem transformar o estúdio em um ambiente engessado.

O bom humor e o talento do Carioca funcionam como um espetáculo à parte. Ele mostra que é possível fazer um programa sério, discutir assuntos importantes e, ao mesmo tempo, manter leveza e bom humor.

Isso não diminui o jornalismo.

Ao contrário. Torna o debate mais acessível para quem está ouvindo.

O problema começa quando o Paraná apresentado no estúdio encontra o Paraná real

Sandro Alex tem todo o direito de defender o governo do qual participou durante grande parte dos dois mandatos de Ratinho Junior.

Também pode apresentar as obras que ajudou a executar.

Mas quase oito anos de governo permitem uma cobrança igualmente grande sobre aquilo que não foi entregue.

E é aí que o Paraná apresentado no estúdio encontra outro Paraná.

Contorno Sul: uma das maiores obras ainda nem começou

Sandro Alex destacou a futura duplicação do Contorno Sul de Maringá como uma das grandes obras previstas para o Paraná.

É realmente um investimento de enorme importância para Maringá e para toda a região.

Mas há uma informação fundamental.

A duplicação ainda não começou.

Neste momento, a obra ainda atravessa o processo licitatório. A empresa que apresentou a menor proposta foi inabilitada, existe possibilidade de recurso e ainda não há ordem de serviço para iniciar os trabalhos.

Portanto, quando uma das maiores obras apresentadas como vitrine ainda nem chegou ao canteiro, o eleitor tem o direito de perguntar quanto do discurso representa efetivamente obra pronta e quanto representa aquilo que ainda se pretende fazer.

Depois de quase oito anos de governo, essa diferença importa.

PR-317 deveria estar pronta

A duplicação da PR-317 entre Maringá e Iguaraçu mostra de forma ainda mais clara como anúncio e entrega podem ficar distantes.

Em agosto de 2025, o Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná anunciou um novo contrato de R$ 60.850.717,24 para concluir 21,82 quilômetros da duplicação e restauração.

Naquele momento, o Estado informou que a conclusão ocorreria em maio de 2026.

Maio passou.

O contrato anterior já havia sido rescindido e outro consórcio precisou assumir os serviços restantes.

A obra também entrou no radar do Tribunal de Contas.

Em maio de 2026, o TCE-PR informou que julgou procedente uma representação decorrente de auditoria sobre o Contrato nº 88/2021 e determinou providências ao DER diante das irregularidades apontadas pela fiscalização. A decisão admite recurso.

Portanto, a PR-317 precisa aparecer inteira na prestação de contas.

Não apenas como investimento.

Também como obra que perdeu prazo, passou por troca de empresa e recebeu apontamentos do Tribunal de Contas.

Hospital de Paiçandu: dinheiro anunciado ainda precisa virar atendimento

Outro exemplo está em Paiçandu.

Em 10 de abril de 2026, Ratinho Junior anunciou R$ 40 milhões para o novo Hospital Municipal.

Desse valor, R$ 39,2 milhões viriam do Estado e R$ 800 mil seriam de contrapartida municipal. O projeto prevê 61 leitos.

É um investimento necessário e importante.

Mas existe uma diferença simples que qualquer pessoa entende:

hospital anunciado ainda não atende paciente.

Quando uma campanha apresenta bilhões em investimentos, é necessário separar aquilo que já atende a população do que ainda permanece em projeto, licitação ou construção.

Ponte de Guaratuba foi entregue, mas também existem questionamentos

A Ponte de Guaratuba é uma obra concreta e foi entregue.

Isso não está em discussão.

Mas a história não termina na inauguração.

Documentos relacionados à fiscalização apontaram indícios de superfaturamento estimados em R$ 14,8 milhões.

O DER-PR contestou os apontamentos e sustenta que os pagamentos possuem respaldo técnico e contratual.

Por isso, o correto é falar em indícios apontados pela fiscalização, e não em superfaturamento definitivamente comprovado.

Existe ainda outro problema.

Fornecedores e empresas passaram a cobrar do Consórcio Nova Ponte valores próximos de R$ 30 milhões.

Segundo as informações reunidas, o próprio consórcio reconheceu a existência do impasse e atribuiu a situação a desequilíbrio econômico-financeiro relacionado a condições geotécnicas não previstas inicialmente.

É importante deixar claro que isso não significa que o Governo do Paraná deva diretamente os R$ 30 milhões.

A cobrança é contra o consórcio.

Mas fornecedores cobrando valores milionários também fazem parte da história da obra.

Matinhos teve problemas justamente durante o verão

A revitalização da orla de Matinhos virou outra grande vitrine do governo Ratinho Junior.

Também enfrentou questionamentos.

Em janeiro de 2026, o deputado estadual Arilson Chiorato (PT) apresentou representação ao Ministério Público pedindo apuração de possíveis falhas e impactos da obra.

Entre os problemas relatados estavam erosões na faixa de areia e sacos de areia arrastados pela maré alta.

Uma representação não comprova irregularidade.

Mas também não deve desaparecer quando a obra aparece no discurso político apenas como exemplo de sucesso.

Segurança pública: os próprios dados oficiais apresentam problemas graves

Na segurança pública, o contraste fica ainda mais evidente.

O governo sustenta que incorporou 8.072 profissionais às forças estaduais entre 2019 e 2026, número que inclui Polícia Militar, Corpo de Bombeiros, Polícia Civil, Polícia Penal e Polícia Científica.

Mas uma auditoria do Tribunal de Contas encontrou problemas graves na qualidade e integridade das informações encaminhadas pelo Paraná ao Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, o Sinesp.

O TCE fez 43 recomendações à Secretaria de Estado da Segurança Pública.

O dado mais impressionante vem na sequência.

Dos mais de 1,5 milhão de boletins de ocorrência lavrados no Paraná em 2024, apenas 295 mil foram efetivamente recebidos pelo sistema nacional.

Desses registros recebidos, quase 80% foram considerados inválidos.

Isso não permite afirmar que o governo deliberadamente maquiou os índices de criminalidade.

O TCE não disse isso.

O que o Tribunal apontou já é suficientemente grave: falhas na qualidade e integridade dos dados comprometem a Base Nacional de Boletins de Ocorrência e prejudicam a avaliação das políticas públicas de segurança.

E ainda havia dinheiro sem utilização

A auditoria trouxe outro dado importante.

Segundo o TCE, em 2024 o Paraná recebeu R$ 45,6 milhões do Fundo Nacional de Segurança Pública para essa finalidade e utilizou aproximadamente R$ 21 milhões.

Em 2025, outros R$ 22,3 milhões ficaram disponíveis para modernização tecnológica e integração de sistemas.

Até janeiro de 2026, segundo a auditoria, esses R$ 22,3 milhões permaneciam sem movimentação.

Esse dado também precisa acompanhar qualquer discurso sobre eficiência na segurança.

Sandro Alex deixou ou não deixou o mandato?

Outro ponto precisa ser explicado de maneira simples.

Sandro Alex foi eleito deputado federal em quatro legislaturas.

Mas os registros da Câmara mostram que ele se licenciou diversas vezes para assumir a Secretaria de Infraestrutura e Logística do Paraná.

Ele não renunciou ao mandato.

Isso é verdade.

Mas também não permaneceu exercendo normalmente o mandato de deputado durante todo o período.

Sandro continuou como titular da cadeira, porém passou longos períodos licenciado para exercer uma função no Executivo estadual.

Essa é a definição correta.

Talvez seja preciso sair um pouco do helicóptero e andar pelo Paraná

Governar um Estado não é apenas inaugurar grandes obras.

Também é saber como estão as pequenas cidades, as ruas dos bairros, as rodovias que ainda esperam recuperação e os municípios onde projetos anunciados ainda não chegaram ao cidadão.

Por isso, talvez Sandro Alex precise fazer mais viagens pelo chão.

Deixar um pouco o helicóptero de lado e percorrer as cidades de carro pode ser uma boa forma de encontrar o Paraná que não aparece nas solenidades.

Não para negar aquilo que foi feito.

Mas para enxergar também aquilo que ficou para trás.

O eleitor precisa conhecer os dois Paranás

A entrevista da Jovem Pan cumpriu um papel importante.

Paulo Caetano conduziu bem o programa. Angelo Rigon, Edivaldo Magro e Kim Rafael fizeram questionamentos relevantes. Carioca mostrou que informação e bom humor podem ocupar o mesmo espaço sem prejudicar a seriedade do debate.

Sandro Alex teve tempo para apresentar o Paraná que considera resultado de sua passagem pelo governo.

Agora cabe também mostrar o outro.

O Paraná da PR-317 que perdeu prazo.

Do Hospital de Paiçandu que ainda precisa virar hospital.

Do Contorno Sul anunciado como uma das maiores obras, mas que ainda não começou.

Da Ponte de Guaratuba entregue, mas com indícios de superfaturamento apontados pela fiscalização e contestados pelo DER.

Dos fornecedores que cobram valores milionários do consórcio.

Dos problemas registrados em Matinhos.

E de um sistema de segurança em que, segundo o Tribunal de Contas, dos mais de 1,5 milhão de boletins de ocorrência produzidos em 2024, somente 295 mil chegaram ao sistema nacional e quase 80% destes foram considerados inválidos.

Sandro Alex pode apresentar suas realizações.

A campanha eleitoral, porém, não pode transformar quase oito anos de governo em um passeio por um Paraná onde tudo deu certo.

Porque, fora do estúdio, existe outro Paraná esperando respostas.

Para quem é comunicador, outro detalhe não passou despercebido. Sandro Alex pouco sustentou o olhar de quem fazia as perguntas. Também faltou aquele contato direto com a câmera que aproxima entrevistado e telespectador. Não cabe transformar linguagem corporal em prova de absolutamente nada. O fato observável, porém, é que não houve uma entrevista marcada pelo olho no olho. Para alguém acostumado aos microfones e às câmeras, a postura chamou atenção.

TV Diário
Gilmar Ferreira

Gilmar Ferreira

Perfil Profissional: Gilmar Ferreira (MTB 0011341/PR) Gilmar Ferreira consolida uma carreira multifacetada como jornalista, apresentador de programas de TV e mestre de cerimônias, unindo o rigor da investigação à fluidez da comunicação ao vivo. Com atuação destacada no Paraná e Santa Catarina, ele imprime autoridade técnica e sensibilidade humana em cada projeto que lidera. Atuação Estratégica Atual Diretor de Redação: O Diário de Maringá. Comentarista: Programa Paraná Cidadesno Canal 10.1 e RDR FM 93,3. Mestre de Cerimônias: Atuação oficial em eventos de destaque no Estado do Paraná. Experiência em Televisão Reconhecido pela presença de vídeo e condução de pautas complexas, Gilmar atuou como apresentador de programas e âncora nas seguintes emissoras: TV Maringá (Band) RIC TV Maringá (Record) Record News (Rede Mercosul) RTV 10 Maringá Trajetória no Rádio Com passagens por emissoras líderes de audiência, sua voz é referência em informação e entretenimento: Paraná: Jovem Pan FM, Metropolitana FM, Rede de Rádios, Globo FM, Rádio Colorado AM e Eden FM. Santa Catarina: Rádio Menina FM e Rádio Globo AM (Blumenau)

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