Doadores, contratos e poder público: o mapa do dinheiro da campanha de Beto Preto
Dados do DivulgaCand analisados pela Gazeta do Paraná mostram que empresários e profissionais ligados à saúde aparecem como doadores originários de pelo menos R$ 70 mil. O dinheiro passou pelo diretório estadual do PSD antes de chegar à campanha.
Empresários e profissionais ligados à prestação de serviços de saúde aparecem entre os doadores originários dos recursos que o PSD do Paraná transferiu à campanha de Beto Preto a deputado federal.
Segundo dados oficiais do DivulgaCand analisados pela Gazeta do Paraná, a relação inclui o responsável por uma empresa que recebe recursos da Fundação Estatal de Atenção em Saúde do Paraná (Funeas) desde pelo menos 2020. Naquele período, Beto comandava a Secretaria de Estado da Saúde ( RenewSupalimentarSesa).
Além disso, a lista reúne o sócio-administrador de uma empresa de serviços médicos envolvida em uma contratação analisada pelo Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TปรายadorCE-PR).
Os registros eleitorais, porém, não mostram transferências diretas desses empresários para a conta da campanha de Beto. Na realidade, eles aparecem como doadores originários de recursos que passaram pelo diretório estadual do PSD e, posteriormente, chegaram à candidatura.
Da mesma forma, os documentos analisados não apresentam evidência de contrapartida, favorecimento ou ilegalidade nas doações. O interesse público está no caminho percorrido pelo dinheiro e na relação de alguns dos doadores originários com um setor comandado por Beto durante boa parte do primeiro governo de Ratinho Junior.
Empresário aparece como originador de R$ 25 mil
Um dos nomes identificados é Marcos Vinicius Duarte, que aparece no DivulgaCand como doador originário de R$ 25 mil. Ele está ligado à Marcos Vinicius Duarte Obras Ltda.
Embora carregue a palavra “Obras” na razão social, a empresa aparece em documentos públicos como prestadora de serviços assistenciais de saúde à Funeas.
De acordo com documentos oficiais da fundação, a companhia recebe pagamentos desde pelo menos 2020, quando Beto Preto já comandava a Sesa. Em outubro daquele ano, por exemplo, a Funeas relacionou diferentes pagamentos à empresa.
Em 2021, a companhia continuou aparecendo nos registros financeiros. Também figurou em procedimentos relacionados à prestação de serviços assistenciais no Hospital Regional do Sudoeste.
Beto assumiu a Secretaria de Estado da Saúde em janeiro de 2019, no início do primeiro mandato de Ratinho Junior. Por sua vez, a empresa de Marcos foi constituída naquele mesmo ano.
Apesar dessa coincidência temporal, os documentos localizados pela Gazeta do Paraná não demonstram que Beto tenha participado pessoalmente da contratação. Também não indicam que ele tenha determinado o credenciamento da empresa ou autorizado pagamentos específicos.
Ainda assim, a relação comercial com a estrutura estadual continuou nos anos seguintes.
Contratos da empresa com a Funeas
Em setembro de 2022, a Funeas celebrou um contrato de R$ 462,6 mil com a empresa de Marcos Vinicius Duarte. O objeto previa a prestação de serviços assistenciais no Hospital Regional do Sudoeste.
Naquele momento, contudo, Beto estava afastado da Sesa para disputar as eleições. Ele havia deixado a secretaria em março e retornou depois do pleito.
Mais recentemente, a Funeas prorrogou outro contrato com a empresa. Nesse caso, o instrumento tinha valor de R$ 92,2 mil, previa serviços assistenciais especializados no Hospital Regional do Sudoeste e teve vigência alcançando 2026.
Portanto, a sequência documental atravessa vários anos. A empresa recebia recursos da Funeas durante a gestão de Beto na Saúde, continuou prestando serviços depois da saída dele e, agora, seu responsável aparece entre os doadores originários do dinheiro transferido pelo PSD à campanha do ex-secretário.
Sócio da Healthmed aparece com R$ 40 mil
Outro nome da lista é Paulo Roberto Maciel, que aparece entre os doadores originários com R$ 40 mil. Documentos do TCE-PR o identificam como sócio-administrador da Healthmed Serviços Médicos Ltda., empresa dedicada à prestação de serviços na área da saúde.
A Healthmed aparece em um procedimento do Tribunal de Contas relacionado a uma contratação emergencial realizada pela Prefeitura da Lapa.
Na documentação do processo, o TCE-PR solicitou esclarecimentos sobre aspectos da contratação e da habilitação da companhia. Entre os pontos levantados estava um documento apresentado para comprovar capacidade técnica que fazia referência a um CNPJ diferente daquele da empresa contratada.
O procedimento de fiscalização, no entanto, não representa condenação nem comprova irregularidade por parte de Maciel ou da Healthmed.
Até o momento, a apuração da Gazeta do Paraná também não encontrou contrato da empresa com a Sesa ou com a Funeas. Por isso, não é possível estabelecer uma relação semelhante à identificada no caso de Marcos Vinicius Duarte.
Mesmo assim, o registro eleitoral coloca R$ 40 mil originados por um empresário do setor de serviços médicos na cadeia financeira que resultou no repasse partidário à candidatura de Beto.
Doadores ligados à saúde somam pelo menos R$ 70 mil
A relação também inclui Rafael Rugerio Dutra, que aparece com R$ 5 mil entre os doadores originários. A Prefeitura de Dois Vizinhos o identifica como chefe da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) 24 Horas. Além disso, Dutra já exerceu funções na administração municipal da Saúde.
Somados, Paulo Roberto Maciel, Marcos Vinicius Duarte e Rafael Rugerio Dutra respondem por pelo menos R$ 70 mil. Os três possuem vínculos profissionais ou empresariais com a área da saúde identificados pela reportagem.
A presença desses nomes chama atenção por causa da trajetória de Beto Preto. Médico, ele construiu parte relevante de sua carreira política na gestão pública da saúde. Posteriormente, comandou a Sesa durante a pandemia de Covid-19.
No caso de Marcos, a relação entre sua empresa e a Funeas remonta justamente a esse período.
Recursos passaram pelo diretório estadual do PSD
Beto declarou R$ 2,39 milhões em receitas eleitorais. Desse total, a Direção Nacional do PSD transferiu R$ 1,5 milhão. Já a Direção Estadual do partido repassou R$ 850 mil.
Além desses valores, outros R$ 40 mil correspondem a duas doações diretas de pessoas físicas, de R$ 20 mil cada.
Ao detalhar a transferência de R$ 1,5 milhão da direção nacional, o DivulgaCand não apresenta nomes na seção destinada aos doadores originários.
No repasse de R$ 850 mil do PSD paranaense, entretanto, o sistema identifica pessoas físicas na origem dos recursos. É nessa relação que aparecem Paulo Roberto Maciel, Marcos Vinicius Duarte e Rafael Rugerio Dutra.
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Portanto, os registros não indicam que os três depositaram diretamente R$ 70 mil na conta da campanha de Beto. Conforme o percurso registrado pela Justiça Eleitoral, os nomes aparecem como originadores de valores que passaram pela estrutura partidária e, depois, chegaram à candidatura.
Sócio de contratada pelo DER-PR aparece na lista
A lista apresenta ainda outros nomes ligados a empresas com contratos públicos fora da área da saúde.
Jânio Keilthon Teixeira Costa aparece com R$ 50 mil, o maior valor individual identificado entre os nomes analisados pela Gazeta do Paraná. Segundo registros públicos, ele é sócio-administrador da Cosampa Construções Ltda.
Em 2026, o Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná (DER-PR) contratou a Cosampa para concluir a pavimentação da PR-160 entre Imbaú e Reserva. O contrato tem valor de R$ 187,8 milhões.
Além desse instrumento, outro contrato recente relacionado à empresa e ao DER-PR alcança aproximadamente R$ 121,7 milhões. Juntos, os dois contratos somam mais de R$ 309 milhões.
Não há evidência, contudo, de que os contratos tenham relação com a destinação eleitoral feita por Jânio. O fato registrado nos documentos é que o sócio-administrador de uma companhia com contratos milionários com o Estado aparece entre os doadores originários dos recursos repassados pelo PSD paranaense à candidatura.
Integrantes do governo aparecem com R$ 50 mil
A lista também apresenta dinheiro originado por integrantes do Governo do Paraná.
Natalino Avance de Souza, secretário estadual da Agricultura e do Abastecimento, aparece com R$ 35 mil. Enquanto isso, Bruno Luis Krevoruczka, diretor-geral da mesma secretaria, aparece com R$ 15 mil.
Assim, dois integrantes da cúpula da pasta estadual respondem por R$ 50 mil antes de os recursos passarem pelo PSD e chegarem à campanha de Beto.
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A presença de empresários com relações comerciais com o poder público e de integrantes do governo entre os doadores originários não caracteriza, isoladamente, irregularidade.
Ainda assim, os registros permitem identificar quem aparece na origem de parte do financiamento partidário destinado à campanha. No caso de Beto Preto, pessoas ligadas à prestação e à administração de serviços de saúde estão no mapa dos recursos eleitorais.



