Nem na terra de Ratinho: derrota de Sandro Alex, fracasso de Darlan Scalco e votação de Xaropinho expõem os limites do poder da família Massa
A derrota de Sandro Alex (PSD) para Sergio Moro (PL) na eleição para o governo do Paraná revelou os limites da influência política da família Ratinho. O resultado ganhou um significado especial em Jandaia do Sul, cidade natal do apresentador Carlos Massa, conhecido como Ratinho. No município, Moro recebeu 6.892 votos, contra 2.941 de Sandro Alex, conforme os números eleitorais apresentados.
A diferença de 3.951 votos mostra que nem mesmo na terra de Ratinho o candidato apoiado por seu filho, o governador Carlos Massa Ratinho Junior (PSD), conseguiu vencer.
O resultado também coloca em discussão a capacidade do grupo político de transformar popularidade, audiência e exposição midiática em votos. Afinal, Sandro Alex contou com o apoio do governador, recebeu manifestações públicas de Ratinho e representava a continuidade da administração estadual.
Apesar disso, Sergio Moro venceu a disputa pelo governo do Paraná no primeiro turno, com 50,10% dos votos válidos. Sandro Alex recebeu 25,37%.
A derrota de Darlan Scalco (PSD) na disputa por uma vaga na Câmara dos Deputados e a não eleição do profissional conhecido pelo personagem Xaropinho, em São Paulo, ampliam essa reflexão.
Os três resultados envolvem disputas diferentes, mas apresentam uma questão comum: o reconhecimento público e a proximidade com figuras populares não garantem sucesso eleitoral.
Na terra de Ratinho, Moro recebeu mais que o dobro dos votos de Sandro Alex
Jandaia do Sul, no Norte do Paraná, ocupa um lugar especial na trajetória da família Massa. Foi nesse município que nasceu o apresentador Ratinho, empresário que construiu sua carreira no rádio e na televisão.
Por isso, a votação para governador na cidade merece atenção.
Sergio Moro conquistou 6.892 votos, equivalentes a 56,63% dos votos válidos. Sandro Alex recebeu 2.941 votos, correspondentes a 24,17%.
A vantagem de Moro chegou a 3.951 votos, uma diferença de 32,46 pontos percentuais.
O candidato do PL obteve mais que o dobro da votação do adversário apoiado pela família Ratinho.
Não se trata de afirmar que o resultado municipal explica sozinho a derrota de Sandro Alex. Entretanto, ele representa um exemplo significativo dos limites da transferência de prestígio político.
O eleitor pode admirar Ratinho, acompanhar seus programas e reconhecer sua trajetória profissional. Isso não significa que esteja disposto a votar no candidato indicado pelo apresentador ou por seu filho.
A pergunta é inevitável: se nem na cidade natal de Ratinho o candidato da continuidade conseguiu vencer, até que ponto seus aliados superestimaram a influência eleitoral da família?
Nem os churrascos com setores da imprensa garantiram a vitória
Outro aspecto dessa eleição merece reflexão: a relação de Ratinho com parte da imprensa paranaense.
O apresentador promoveu encontros em sua fazenda, incluindo churrascos com jornalistas, empresários e profissionais da comunicação.
Esses encontros, por si só, não representam qualquer irregularidade. Também não permitem concluir que os participantes tenham recebido vantagens ou assumido compromissos eleitorais.
Entretanto, a proximidade entre empresários da comunicação, profissionais da imprensa e lideranças políticas exige atenção à independência editorial.
Afinal, existe uma diferença entre manter relações institucionais e permitir que interesses políticos interfiram na atividade jornalística.
Ratinho possui uma trajetória empresarial importante no setor de comunicação. Seu filho governou o Paraná com uma estrutura institucional de divulgação de obras, programas e investimentos públicos.
Mesmo com essa presença na mídia e com a proximidade de setores da comunicação, Sandro Alex não conseguiu vencer.
O resultado demonstrou que relacionamentos políticos e exposição midiática não asseguram o apoio do eleitor.
Na reta final, Ratinho participou da campanha de Sandro Alex
A última semana da campanha também merece análise.
Houve relatos sobre a atuação de apresentadores de rádio e televisão ligados às emissoras de Ratinho em favor de Sandro Alex. .
Já o envolvimento público do próprio Ratinho ficou evidente em sua participação em atividades de campanha.
Na véspera da eleição, o apresentador participou de carreatas de Sandro Alex em Curitiba, reforçando seu apoio ao candidato escolhido para representar a continuidade do governo estadual.
Portanto, o grupo familiar não ficou distante da disputa.
Ratinho Junior apoiou Sandro Alex. Seu pai participou de atividades eleitorais. O candidato contou com uma estrutura partidária e política organizada para disputar o governo.
Mesmo assim, a eleição terminou no primeiro turno.
Sergio Moro venceu, enquanto Sandro Alex ficou mais de 1,5 milhão de votos atrás do adversário, conforme os números apresentados para a disputa estadual.
Foi um revés para o projeto de continuidade do grupo político de Ratinho Junior.
Game over no primeiro turno.
Darlan Scalco também ficou sem mandato de deputado federal
A eleição de Darlan Scalco (PSD) oferece outro elemento para analisar o desempenho do grupo ligado ao governador.
Integrante do campo político de Ratinho Junior, Scalco disputou uma vaga na Câmara dos Deputados, mas não conseguiu se eleger.
O resultado mostra que a associação com uma administração estadual amplamente divulgada não garante, necessariamente, uma vitória nas urnas.
É importante reconhecer que cada candidatura depende de diferentes fatores, como trajetória política, alianças regionais, estrutura partidária e desempenho individual.
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Ainda assim, quando candidatos ligados a um mesmo grupo não alcançam seus objetivos, surge uma questão legítima sobre a capacidade de suas principais lideranças de transferir votos.
O eleitor pode aprovar determinadas medidas de um governo e, ao mesmo tempo, preferir outros representantes no Legislativo.
Da mesma forma, pode reconhecer a popularidade de um governador sem acompanhar suas indicações eleitorais.
Xaropinho também descobriu que fama não significa voto
O fenômeno não ficou restrito ao Paraná.
O profissional conhecido por dar vida ao personagem Xaropinho, popularizado nacionalmente pelo Programa do Ratinho, também não conseguiu se eleger deputado federal por São Paulo.
O caso reforça a diferença entre reconhecimento artístico e confiança política.
Um personagem pode alcançar milhões de brasileiros pela televisão. Entretanto, essa exposição não significa que seus admiradores estejam dispostos a transformar simpatia em votos.
A popularidade de um artista e a decisão de votar em um candidato obedecem a critérios diferentes.
O mesmo vale para empresários, governadores, prefeitos e apresentadores que apoiam outras candidaturas.
A audiência pode ampliar a visibilidade de uma pessoa, mas não determina automaticamente o comportamento do eleitor.
As obras divulgadas pelo governo chegaram à percepção da população?
Talvez esta seja uma das questões mais importantes deixadas pela eleição.
Durante a administração de Ratinho Junior, o governo do Paraná divulgou investimentos, obras rodoviárias, programas públicos e projetos de desenvolvimento.
A comunicação institucional apresentou realizações em diferentes regiões do estado, destacando os resultados da gestão.
Entretanto, quando chegou o momento de escolher o sucessor do governador, o candidato apoiado pelo grupo não conquistou a maioria dos votos válidos.
Isso permite concluir que algumas obras anunciadas não foram entregues conforme o prometido, enquanto outras, mesmo após a entrega, apresentam problemas, como é o caso da Ponte de Guaratuba. Essa situação levanta questionamentos sobre a qualidade das obras, o cumprimento das promessas e os benefícios efetivamente oferecidos à população.
Uma coisa é apresentar uma rodovia em uma campanha institucional. Outra é o cidadão perceber melhorias concretas nas condições de deslocamento.
Uma coisa é anunciar investimentos na saúde. Outra é o usuário encontrar atendimento adequado quando precisa do serviço público.
Uma coisa é divulgar números positivos da administração. Outra é transformar esses indicadores em confiança eleitoral.
Na minha avaliação, Ratinho Junior precisa refletir sobre essa diferença.
O resultado não apaga eventuais realizações do governo. Entretanto, demonstra que a divulgação de investimentos e obras não foi suficiente para garantir a vitória de seu candidato.
Ratinho Junior precisa rever sua relação com prefeitos, aliados e jornalistas
A derrota também deveria provocar uma reflexão sobre a relação do governo com prefeitos, aliados e profissionais da comunicação que manifestaram posições diferentes.
Nenhum governante deve acreditar que sua estrutura política lhe dá o direito de exigir apoio permanente de quem pensa de outra maneira.
Prefeitos possuem responsabilidades com seus municípios. Parlamentares têm autonomia para construir suas alianças. Jornalistas precisam preservar a independência editorial.
Eventuais denúncias de pressões ou retaliações devem receber apuração específica, com documentos, identificação das circunstâncias e espaço para manifestação dos envolvidos.
Entretanto, a reflexão política é legítima.
Na minha avaliação, qualquer liderança que confunde influência com obediência corre o risco de perder a percepção real sobre sua força eleitoral.
Ratinho Junior tinha o apoio de uma ampla rede de aliados, a visibilidade de seu governo e a proximidade familiar com um dos mais conhecidos empresários da comunicação brasileira.
Ainda assim, seu candidato perdeu.
O resultado deveria servir de alerta: comunicação não substitui diálogo, publicidade não elimina críticas e popularidade não garante votos.
Também será importante acompanhar a avaliação institucional do último exercício financeiro do governo Ratinho Junior.
As contas públicas deverão seguir os procedimentos de fiscalização, apreciação e julgamento previstos na legislação, independentemente das disputas partidárias.
A derrota eleitoral não determina o resultado dessas análises. Contudo, a nova composição política do estado poderá influenciar os debates sobre o legado da administração.
O eleitor não pertence a quem controla o microfone
A família Ratinho construiu uma trajetória empresarial relevante no setor de comunicação. Carlos Massa conquistou reconhecimento nacional como apresentador, enquanto seu filho chegou ao governo do Paraná.
Essas trajetórias merecem reconhecimento.
Entretanto, a eleição de 2026 deixou uma mensagem que ultrapassa os interesses de qualquer família ou grupo político.
O eleitor não pertence a uma emissora, a um apresentador, a um governador ou a um partido.
Ele pode assistir diariamente a um programa de televisão, ouvir determinada rádio e acompanhar a publicidade de um governo. Ainda assim, pode votar em alguém que represente um projeto político diferente.
Essa independência faz parte da democracia.
O erro começa quando uma liderança confunde audiência com aprovação política ou acredita que sua popularidade pode ser transferida automaticamente para seus aliados.
Ratinho conhece o poder da comunicação. Ratinho Junior conhece a força da estrutura governamental. Sandro Alex contou com o apoio político dos dois.
Mas o eleitor fez outra escolha.
E, em Jandaia do Sul, a cidade natal do apresentador, essa escolha ficou ainda mais evidente.
A comunicação pode divulgar um governo, mas não garante sua continuidade
A comunicação exerce influência sobre a opinião pública. Ela apresenta informações, amplia a visibilidade de lideranças e ajuda a formar percepções sobre governos e candidatos.
Entretanto, sua influência encontra limites na experiência de cada cidadão.
O eleitor observa sua cidade, utiliza serviços públicos, acompanha a economia e avalia suas próprias necessidades.
Por isso, a principal lição dessa eleição não está apenas na derrota de Sandro Alex, na não eleição de Darlan Scalco ou no desempenho de Xaropinho.
Está na demonstração de que nenhuma estrutura de comunicação consegue assegurar, sozinha, uma vitória eleitoral.
Os encontros com setores da imprensa, a presença de Ratinho em atos de campanha, a divulgação das realizações do governo e o apoio de Ratinho Junior não garantiram a continuidade do grupo no comando do Paraná.
Ratinho chegou a afirmar que quem ganha a guerra é quem tem a comunicação.
Mas a eleição mostrou que, na democracia, quem decide é o eleitor.
Na cidade natal do apresentador, Sergio Moro recebeu 6.892 votos, contra 2.941 de Sandro Alex. Uma diferença de 3.951 votos que resume o simbolismo político dessa disputa.
Ratinho pode ter audiência. Ratinho Junior pode ter influência. Ambos podem apoiar um candidato.
Mas nenhum deles é dono do voto de quem os acompanha.
Em 2026, o eleitor paranaense deu o game over no primeiro turno. E nem na terra de Ratinho a força da família Massa foi suficiente para mudar o resultado.
Ratinho teria prometido “quebrar as pernas” do jornalista Marcos Formighieri, da Gazeta do Paraná. Além disso, moveu diversas ações judiciais contra O Diário de Maringá, interpretadas pelo jornal como tentativas de intimidação, mas sem obter o resultado pretendido. A ironia é que, diante do resultado das urnas, quem saiu politicamente com as pernas quebradas nesta eleição foram Ratinho pai e filho.
Imagem da Manchete é de IA



