O “tocador de obras do Paraná” de 2026 terá o mesmo destino político do “tocador de obras de Maringá” de 2000?
Sandro Alex tenta transformar o legado de Ratinho Junior em votos, mas a história de Maringá mostra que obras, publicidade e apoio político não garantem vitória
O governador Ratinho Junior aposta em Sandro Alex para representar a continuidade de seu grupo político na disputa pelo Governo do Paraná.
Ao assumir publicamente o título de “tocador de obras”, Sandro Alex procura ligar seu nome às pontes, rodovias, duplicações e investimentos anunciados pela atual administração estadual.
A expressão transmite a ideia de eficiência, capacidade de execução e experiência administrativa.
Entretanto, para muitos maringaenses, esse discurso também desperta lembranças de um período político que terminou de forma muito diferente daquela apresentada pela propaganda oficial.
Maringá já viveu uma eleição marcada pela valorização de um governo considerado realizador. Naquele momento, parte expressiva da mídia local ajudava a construir uma imagem positiva da administração municipal.
O prefeito parecia politicamente forte. Sua gestão recebia ampla exposição, elogios e cobertura favorável.
As urnas, porém, mostraram que a força da máquina pública não garantia a permanência no poder.
Gianoto também parecia politicamente imbatível
Em 2000, Jairo Gianoto disputou a reeleição para prefeito de Maringá.
Naquele período, a administração era apresentada como moderna, eficiente e voltada para as obras. As ações da prefeitura ocupavam espaço constante na comunicação institucional e nos meios de comunicação.
Para parte da população, a gestão Gianoto estava praticamente endeusada na mídia.
A imagem divulgada transmitia força e criava a sensação de que a reeleição seria um caminho natural.
Apesar desse cenário, Gianoto não conseguiu permanecer no cargo.
A derrota eleitoral retirou seu grupo político da prefeitura e permitiu que a cidade analisasse a administração anterior sob outro ponto de vista.
Denúncias já ganhavam força naquele período. Posteriormente, investigações e processos revelaram um esquema de desvios de recursos públicos envolvendo a prefeitura e o então secretário da Fazenda, Luiz Antônio Paolicchi.
O caso avançou para ações judiciais e condenações. Portanto, não ficou restrito a críticas políticas ou suspeitas publicadas pela imprensa.
A imagem de um governo forte dominava a mídia
Durante boa parte da gestão Gianoto, o discurso oficial destacava obras, crescimento e modernização.
A cobertura positiva transmitia a imagem de uma administração eficiente. Ao mesmo tempo, a publicidade institucional ampliava a exposição das realizações municipais.
Nem todos os veículos atuavam da mesma forma. Ainda assim, muitos maringaenses enxergavam uma grande diferença entre a imagem divulgada e os fatos revelados posteriormente pelas investigações.
Hoje, parte dos paranaenses identifica uma situação parecida no campo da comunicação política.
Ratinho Junior mantém forte presença nos meios de comunicação. Obras, programas, anúncios e liberações de recursos recebem ampla divulgação em todas as regiões do Estado.
Prefeitos, deputados e lideranças aparecem frequentemente ao lado do governador. Nesse ambiente, Sandro Alex procura assumir o papel de herdeiro político da atual gestão.
O “tocador de obras” também carregará os problemas das obras?
A estratégia de Sandro Alex consiste em aproveitar eleitoralmente as entregas do governo. Contudo, ele também poderá precisar responder pelos questionamentos relacionados ao mesmo setor.
Uma das principais vitrines da gestão é a Ponte de Guaratuba.
Auditoria do Tribunal de Contas apontou indícios de sobrepreço e problemas relacionados à execução contratual. O governo estadual contesta as conclusões e possui o direito de apresentar defesa.
Mesmo sem uma decisão definitiva, os apontamentos poderão ser utilizados pelos adversários durante a campanha eleitoral.
A ponte pode aparecer como símbolo de realização. Por outro lado, também poderá servir como exemplo da necessidade de maior fiscalização sobre contratos, aditivos e pagamentos.
Programa Olho Vivo enfrenta questionamentos
Outro projeto apresentado como grande avanço da gestão é o Programa Olho Vivo Paraná.
A proposta prevê a instalação de milhares de câmeras inteligentes e o uso de tecnologia no combate ao crime.
Entretanto, o Tribunal de Contas suspendeu cautelarmente um pregão milionário relacionado ao programa. A área técnica indicou riscos de sobrepreço e dúvidas envolvendo critérios técnicos, proteção de dados e direitos fundamentais.
O governo poderá responder aos apontamentos, alterar o edital e demonstrar a regularidade do procedimento.
Ainda assim, a suspensão enfraquece a tentativa de apresentar todos os grandes projetos como exemplos incontestáveis de eficiência.
Suspeita de caixa dois exige investigação
Outro tema poderá surgir com força durante a campanha de 2026.
Parlamentares da oposição cobraram investigação sobre áudios que, segundo eles, indicariam um possível esquema envolvendo a campanha de reeleição de Ratinho Junior em 2022.
As denúncias mencionam uma eventual arrecadação eleitoral irregular.
Até o momento, não existe condenação do governador por caixa dois relacionada ao episódio. Dessa forma, o assunto precisa ser apresentado como suspeita, denúncia ou investigação, nunca como crime comprovado.
Mesmo assim, Sergio Moro, Rafael Greca e Requião Filho poderão cobrar explicações e ampliar a pressão sobre o candidato apoiado pelo governo.
Municípios ainda aguardam promessas
Apesar dos anúncios frequentes, prefeitos e moradores de diferentes regiões continuam esperando obras, convênios e investimentos prometidos.
Alguns projetos avançam lentamente. Outros enfrentam revisões, atrasos ou dificuldades de execução.
Há também obras que se prolongam por anos sem entregar plenamente o resultado esperado pela população.
Esse cenário representa um desafio para Sandro Alex.
Ao aceitar o título de “tocador de obras”, ele assume os méritos das entregas. Ao mesmo tempo, passa a carregar o peso dos atrasos, das promessas não cumpridas e dos contratos questionados.
Não será possível reivindicar apenas a parte positiva do legado.
Moro poderá explorar o discurso da fiscalização
Sergio Moro aparece como um dos principais nomes na disputa pelo Governo do Paraná.
Sua trajetória política está associada ao discurso de combate à corrupção e controle do dinheiro público.
Por essa razão, Moro poderá concentrar seus ataques nos contratos, aditivos, licitações e programas questionados pelos órgãos de controle.
Ponte de Guaratuba, Programa Olho Vivo e suspeitas relacionadas à campanha de 2022 oferecem temas para esse discurso.
Caso consiga transformar a eleição em um debate entre continuidade e fiscalização, Moro poderá dificultar a estratégia de Sandro Alex de falar apenas sobre obras entregues.
Greca poderá disputar o eleitor governista
Rafael Greca representa outro desafio para o candidato de Ratinho Junior.
Diferentemente de Moro e Requião Filho, Greca pode disputar parte do eleitorado que atualmente aprova o governador.
Sua experiência administrativa, sua presença política em Curitiba e sua imagem ligada a obras urbanas poderão pesar na campanha.
Greca também poderá questionar se Sandro Alex possui força própria ou se depende totalmente da popularidade de Ratinho Junior.
Uma eventual candidatura poderá dividir prefeitos, lideranças municipais e partidos hoje próximos do Palácio Iguaçu.
Com isso, a tentativa de apresentar Sandro Alex como único representante da continuidade administrativa poderá perder força.
Requião Filho poderá liderar a oposição direta
Requião Filho tende a explorar um campo diferente.
Sua candidatura poderá representar uma oposição mais direta ao modelo político, econômico e administrativo do governo Ratinho Junior.
Privatizações, pedágios, contratos, obras atrasadas e prioridades de investimento deverão aparecer em seus discursos.
Requião Filho também poderá questionar a relação entre o governo estadual, os prefeitos e a Assembleia Legislativa.
Além disso, segundo as pesquisas eleitorais divulgadas até agora, Requião Filho está no segundo turno da disputa pelo Governo do Paraná. Os levantamentos colocam o deputado estadual entre os dois candidatos mais bem posicionados nos principais cenários.
Popularidade não se transfere automaticamente
Ratinho Junior pode encerrar o mandato com elevada aprovação.
Isso, entretanto, não significa que os votos serão transferidos automaticamente para Sandro Alex.
Um eleitor pode aprovar o governador e escolher outro candidato para o Palácio Iguaçu.
Também existe a possibilidade de parte da população considerar que Sandro Alex não possui o mesmo peso político de seu padrinho.
Sergio Moro, Rafael Greca e Requião Filho possuem trajetórias, grupos e bases eleitorais próprias.
Por isso, a eleição não será apenas um julgamento sobre a administração atual. A disputa também envolverá a comparação direta entre os candidatos.
Os eleitores deverão avaliar força política, credibilidade, independência e capacidade de governar.
Uma derrota pode abrir as gavetas do Palácio Iguaçu
Caso Sandro Alex seja derrotado, o próximo governador terá acesso aos contratos, convênios, pagamentos, medições e aditivos produzidos durante os oito anos da gestão Ratinho Junior.
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Isso não quer dizer que Moro, Greca ou Requião Filho encontrarão crimes.
Também não significa que todos os questionamentos atuais resultarão em irregularidades comprovadas.
Uma mudança de governo, porém, costuma provocar novas auditorias e revisões administrativas.
Foi o que aconteceu em Maringá após a saída do grupo de Gianoto.
Quando o poder muda de mãos, documentos passam a receber outra análise. Além disso, servidores, fornecedores e empresas podem apresentar informações que antes não chegavam ao conhecimento público.
A história de Maringá deixa um alerta
No ano 2000, Jairo Gianoto contava com o apoio da máquina pública, forte publicidade institucional, ampla cobertura favorável e a imagem de um governo realizador.
Durante os comícios, apresentadores conhecidos de rádio e TV reforçavam essa narrativa diante do público. Gianoto era anunciado repetidamente como o “tocador de obras”, expressão usada para associar sua candidatura às realizações da prefeitura e transmitir a ideia de continuidade administrativa.
Apesar dessa construção política e midiática, ele não conseguiu se reeleger.
Depois da mudança de gestão, Maringá conheceu com maior profundidade um dos maiores escândalos de corrupção de sua história.
Em 2026, Ratinho Junior apresenta Sandro Alex como seu “tocador de obras”.
Do outro lado, Sergio Moro, Rafael Greca e Requião Filho tentam construir caminhos para chegar ao Palácio Iguaçu.
Moro poderá levantar a bandeira da fiscalização.
Greca terá condições de disputar o eleitor da continuidade e da experiência administrativa.
Requião Filho poderá representar a oposição mais direta ao atual modelo de governo.
Já Sandro Alex tentará convencer o Paraná de que participou das principais realizações da gestão Ratinho Junior.
Ao mesmo tempo, precisará enfrentar os apontamentos na Ponte de Guaratuba, os questionamentos sobre o Olho Vivo, as denúncias relacionadas à campanha de 2022, as obras demoradas e as promessas que ainda não chegaram aos municípios.
O final será o mesmo?
A história não se repete exatamente da mesma forma.
Hoje, não existe condenação contra Ratinho Junior ou Sandro Alex que permita igualar juridicamente o governo estadual ao caso Gianoto.
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As semelhanças políticas, contudo, não podem ser ignoradas.
Nos dois períodos, obras e publicidade sustentam a narrativa de um governo forte.
Em ambos os momentos, parte da mídia oferece grande espaço à imagem positiva da administração.
Também existe, nas duas situações, uma tentativa do grupo governista de convencer o eleitor de que a continuidade representa o melhor caminho.
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Maringá, porém, já aprendeu que a aparência de força não garante vitória.
Diante disso, uma pergunta continuará no ar até a abertura das urnas:
o “tocador de obras” de 2026 conseguirá derrotar Sergio Moro, Rafael Greca e Requião Filho ou terá o mesmo destino político do “tocador de obras” de Maringá no ano 2000?
Vamos esperar para ver o final dessa história.
Crédito: Imagem da manchete é das redes sociais do Governador
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