Coronel Hudson gravou vídeo de apoio ou interrogatório para saber quem estava com Sandro Alex?

Coronel Hudson gravou vídeo de apoio ou interrogatório para saber quem estava com Sandro Alex?


Reunião da Segurança Pública termina em vídeo de apoio a Sandro Alex e expõe uso de patentes em ato político

Secretário Hudson Leôncio Teixeira confirma a mim, em entrevista por telefone, que a reunião de trabalho ocorreu à tarde, na ACIM, e que o vídeo com manifestações de apoio foi gravado durante confraternização à noite, no Salão de Eventos do Sivamar, paga por ele e pelo coronel Samson

Por Gilmar Ferreira

A cúpula da Segurança Pública do Paraná fez uma reunião de trabalho na tarde desta quarta-feira, na Associação Comercial e Empresarial de Maringá (ACIM). À noite, um encontro no Salão de Eventos do Sivamar, em Maringá, terminou em um vídeo com manifestações de apoio político ao secretário estadual de Infraestrutura e Logística, Sandro Alex, pré-candidato ao Governo do Paraná. Nas imagens, que recebi na redação de O Diário de Maringá, o secretário de Estado da Segurança Pública, coronel Hudson Leôncio Teixeira, entrevista o coronel Samson e depois identifica outros comandantes pelo cargo e pela patente. Ele pergunta a cada um se está “fechado” com Sandro Alex. Entrei em contato com Hudson por telefone para pedir esclarecimentos, e ele me disse que a reunião oficial de trabalho ocorreu à tarde, na ACIM, e que o vídeo foi gravado à noite, durante a confraternização no Sivamar.



Segundo fontes que ouvi para esta reportagem, a Segurança Pública convocou os integrantes para o encontro funcional da tarde. O vídeo, porém, registra o momento seguinte, à noite. Esse contraste entre os dois compromissos do mesmo dia motivou esta apuração. Veja o vídeo:

Como o encontro chegou até a reportagem

O vídeo circulou entre integrantes da própria Segurança Pública antes de chegar a mim. Não tive acesso à identidade de quem gravou nem de quem repassou as imagens. As fontes que me procuraram pediram para não ser identificadas. Por isso, ainda não posso afirmar quem produziu a gravação original, apenas que ela retrata a confraternização noturna no Sivamar, posterior à reunião de trabalho na ACIM.

O que mostra o vídeo

A gravação começa com Hudson Leôncio entrevistando o coronel Samson, que a organização do encontro apresenta como responsável pelo evento. Samson profere as primeiras falas registradas no vídeo. Ele afirma que praticamente toda a cúpula da Segurança Pública da região estava reunida e declara que os presentes estavam “fechados” com o governador Carlos Massa Ratinho Junior e com Sandro Alex.

A partir daí, Hudson conduz o restante da gravação. Um a um, ele apresenta os demais participantes pelos cargos que ocupam nas corporações. Depois de cada apresentação, pergunta se o comandante ou representante está “fechado” com Sandro Alex, e as respostas favorecem o pré-candidato.

Ao final, Hudson afirma que os presentes estavam “dando a cara a tapa” e que “não entra para perder”. Ele completa: “A gente não entra para perder e nós não vamos perder. Estamos aqui e vamos dar continuidade a tudo isso.”

Quem aparece no vídeo

A gravação reúne comandantes e representantes de quatro corporações: Polícia Militar, Corpo de Bombeiros Militar, Polícia Penal e Polícia Científica, todos ligados a Maringá e à região Noroeste do Paraná. Segundo Hudson, o encontro reunia não só os comandantes de maior patente, mas também oficiais, delegados, policiais penais, bombeiros e o que ele chamou de “pessoal da base”. Até agora, não tive acesso à lista nominal dos presentes nem ao número exato de participantes em cada um dos dois compromissos.

O que o secretário me disse ao telefone

Liguei para Hudson Leôncio Teixeira para pedir esclarecimentos sobre o vídeo. Ele começou explicando que houve dois momentos distintos no mesmo dia, em locais diferentes.

“É, teve à noite e teve à tarde, né? Foi uma reunião de serviço. Foi uma reunião de trabalho, onde nós nos reunimos com o Ministério Público, com a Casa Militar, com o presidente da Sanepar, com o Conseg, que foram avaliados os dados.”

Confirmei com ele que o segundo momento foi diferente. Hudson respondeu: “E à noite foi uma confraternização.”

Em seguida, perguntei sobre o vídeo em que aparece entrevistando Samson e depois conduzindo as manifestações de apoio. Ele reagiu: “Ah, mas que vídeo, cara? Meu vídeo?” Depois que descrevi a gravação, disse: “Ah, sim. É isso. Mas não foi isso, não foi em serviço, não foi horário de serviço.”

Por que identificar patentes em um encontro informal

Perguntei por que, se o encontro no Sivamar era informal, cada participante foi identificado pela patente e pela unidade que comandava. Hudson respondeu: “Se identifica, se identifica. É o que ele representa.”

Insisti e perguntei se essa forma de apresentação não seria um recado ao restante da corporação. Ele negou: “Não dessa forma, porque vinham ali, não estavam só os comandantes. Tínhamos vários subordinados, todos foram lá de forma voluntária.”

Ainda assim, essa resposta deixa uma questão em aberto. Se o critério era apenas identificar quem estava presente, por que a apresentação seguiu sempre o mesmo padrão, cargo, patente e unidade de comando, em vez de usar apenas o nome de cada convidado? Até o momento, não obtive resposta a esse ponto específico.

Quem pagou e em que condições

Perguntei quem pagou a confraternização no Sivamar. Hudson descartou o uso de recursos públicos: “Não pagaram, eu paguei. Eu e o coronel Sansão pagamos esse jantar.” Também quis saber se os presentes estavam escalados para o serviço ou usaram veículos oficiais durante o encontro noturno, e a resposta foi direta: “Não.”

Não tive acesso a notas fiscais, recibos ou qualquer documento que comprove o pagamento do jantar. Também não obtive a relação de quem esteve presente na reunião da ACIM e na confraternização do Sivamar. Por enquanto, a afirmação de que o custeio foi particular depende apenas da palavra do secretário.

Ao final da ligação, perguntei se poderia usar as declarações na reportagem. Hudson autorizou.

O que ainda não ficou esclarecido

Hudson explica que a reunião funcional ocorreu à tarde, na ACIM, e que o vídeo foi gravado à noite, no Sivamar, fora do expediente. Ainda assim, alguns pontos permanecem sem resposta para mim.

Não obtive explicação sobre por que, em um encontro descrito como informal e voluntário, havia a preocupação de apresentar cada participante pelo cargo público e pela patente que ocupa. O vídeo também não registra uma conversa espontânea: as imagens mostram o secretário entrevistando Samson, depois chamando cada participante, perguntando sobre apoio político e encerrando com uma mensagem coletiva de campanha.

Até a publicação, não encontrei elementos que indiquem ordem, ameaça ou constrangimento a qualquer participante, e também não há prova de que alguém tenha sido obrigado a gravar o vídeo. Não sei, tampouco, se algum dos presentes discorda da forma como o encontro foi conduzido, já que ainda não consegui contato com outros participantes.

Por que a hierarquia das corporações importa aqui

Um elemento relevante para o leitor entender é a posição institucional de quem aparece no vídeo. Hudson Leôncio Teixeira não é apenas um participante do encontro no Sivamar. Ele é a autoridade máxima da Segurança Pública do Estado, com poder de comando, promoção e avaliação sobre boa parte dos presentes. Quando essa autoridade entrevista um coronel e, na sequência, pergunta a cada comandante se está “fechado” com um pré-candidato, citando o cargo e a patente de cada um, a resposta de cada participante deixa de ser apenas uma opinião pessoal. Ela passa a ocorrer dentro de uma relação de hierarquia funcional. Isso não permite concluir que houve coação, mas ajuda a explicar por que o episódio gerou repercussão entre as próprias fontes que procuraram a reportagem.

O que diz a legislação sobre uso da máquina pública

O artigo 37 da Constituição Federal estabelece que a administração pública deve observar os princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Já a Lei de Improbidade Administrativa (Lei nº 8.429/1992) prevê sanções para agentes públicos que utilizem a estrutura, o cargo ou a função pública para fins particulares ou eleitorais. Entre elas, a lei prevê a perda da função pública, a suspensão dos direitos políticos e multa.

Além disso, a Lei das Eleições (Lei nº 9.504/1997) trata do abuso do poder político e do uso indevido da máquina pública em benefício de candidaturas, sobretudo quando há utilização de servidores, cargos ou estrutura administrativa em favor de um projeto eleitoral. A caracterização desse tipo de conduta depende de apuração específica sobre o contexto, a intenção e os efeitos do ato, e ainda não é possível concluir isso apenas a partir do vídeo e da entrevista obtidos até agora.

O que pode acontecer se comprovado uso político da secretaria

Não afirmo que houve crime, improbidade ou infração eleitoral. O fato objetivo é que o vídeo mostra autoridades públicas identificadas pelo cargo manifestando apoio político em uma gravação conduzida pelo secretário de Estado da Segurança Pública.

Se ficar comprovado que a estrutura ou a autoridade da secretaria foi usada para movimentar apoio político entre subordinados, alguém pode levar o caso ao Ministério Público, ao Tribunal de Contas do Estado do Paraná ou à Justiça Eleitoral, a depender de quem provocar a apuração. A lei prevê, entre as consequências possíveis, a abertura de inquérito civil ou eleitoral e a responsabilização administrativa do agente público envolvido. Em casos de improbidade que a Justiça reconheça, ainda pode haver perda do cargo e suspensão dos direitos políticos. Mesmo assim, a avaliação sobre eventual enquadramento depende das circunstâncias completas dos dois encontros e compete aos órgãos de controle, não a esta reportagem.

O espaço permanece aberto

Até a publicação desta reportagem, o secretário Hudson Leôncio Teixeira havia prestado a mim os esclarecimentos reproduzidos acima. Até o fechamento, não obtive manifestação da Secretaria de Estado da Segurança Pública como instituição, do Governo do Paraná ou de Sandro Alex sobre o episódio. Caso queiram acrescentar novas informações ou encaminhar manifestação oficial, atualizarei esta reportagem.


TV Diário
Gilmar Ferreira

Gilmar Ferreira

Perfil Profissional: Gilmar Ferreira (MTB 0011341/PR) Gilmar Ferreira consolida uma carreira multifacetada como jornalista, apresentador de programas de TV e mestre de cerimônias, unindo o rigor da investigação à fluidez da comunicação ao vivo. Com atuação destacada no Paraná e Santa Catarina, ele imprime autoridade técnica e sensibilidade humana em cada projeto que lidera. Atuação Estratégica Atual Diretor de Redação: O Diário de Maringá. Comentarista: Programa Paraná Cidadesno Canal 10.1 e RDR FM 93,3. Mestre de Cerimônias: Atuação oficial em eventos de destaque no Estado do Paraná. Experiência em Televisão Reconhecido pela presença de vídeo e condução de pautas complexas, Gilmar atuou como apresentador de programas e âncora nas seguintes emissoras: TV Maringá (Band) RIC TV Maringá (Record) Record News (Rede Mercosul) RTV 10 Maringá Trajetória no Rádio Com passagens por emissoras líderes de audiência, sua voz é referência em informação e entretenimento: Paraná: Jovem Pan FM, Metropolitana FM, Rede de Rádios, Globo FM, Rádio Colorado AM e Eden FM. Santa Catarina: Rádio Menina FM e Rádio Globo AM (Blumenau)

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