Fé não é salvo-conduto: Moraes e Mendonça devem responder sobre Vorcaro
Alexandre de Moraes chegou ao Supremo por indicação de Michel Temer. Jair Bolsonaro escolheu André Mendonça após prometer um ministro “terrivelmente evangélico”. Agora, os dois enfrentam questionamentos relacionados a Daniel Vorcaro e devem prestar esclarecimentos com a mesma transparência.
Por Gilmar Ferreira
A eleição de 2026 mistura religião, política e Justiça de uma forma perigosa. Enquanto grupos políticos apresentam Alexandre de Moraes como vilão, líderes religiosos e apoiadores fazem orações por André Mendonça. No entanto, nenhuma crença pode substituir a investigação dos fatos.
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Documentos e mensagens relacionados ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro levantaram questionamentos sobre contatos com ministros do Supremo Tribunal Federal e pessoas próximas a eles. Por isso, as instituições precisam apurar todos os elementos com independência.
Alexandre de Moraes não pode receber proteção apenas porque enfrentou Jair Bolsonaro e seus aliados. Da mesma forma, ninguém deve condená-lo antecipadamente por causa de sua atuação contra o bolsonarismo.
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Michel Temer indicou Moraes ao STF em 2017. Portanto, Lula ou um governo de esquerda não escolheram o ministro. O próprio Supremo registra que o então presidente Michel Temer fez a nomeação.
Apesar disso, setores da direita transformaram Moraes em inimigo político. Já grupos contrários ao bolsonarismo passaram a tratá-lo como defensor incontestável da democracia. As duas narrativas atrapalham o debate, pois nenhuma delas responde às dúvidas levantadas pelos documentos ligados a Vorcaro.
André Mendonça também precisa explicar seus contatos
O mesmo rigor deve alcançar André Mendonça.
Jair Bolsonaro indicou Mendonça ao STF em 2021. Antes disso, Bolsonaro prometeu colocar na Corte um ministro “terrivelmente evangélico”. A religião, portanto, integrou publicamente o discurso político que acompanhou a escolha.
Contudo, a fé de Mendonça não pode funcionar como certificado automático de honestidade. Ser evangélico não torna alguém culpado. Porém, também não coloca uma autoridade acima de questionamentos.
Mendonça confirmou que recebeu Daniel Vorcaro uma vez, em março de 2025. Segundo o gabinete do ministro, o encontro tratou de créditos de precatórios de interesse do Banco Master.
Além disso, Mendonça recebeu um advogado ligado ao empresário. O ministro afirmou que apenas ouviu os argumentos, guardou os memoriais no gabinete e depois votou contra o interesse defendido por Vorcaro.
Essa explicação integra o contraditório e precisa aparecer no debate. Mesmo assim, o encontro fora da agenda oficial e as mensagens divulgadas exigem esclarecimentos completos.
Também surgiram suspeitas de que pessoas próximas a Vorcaro teriam presenteado Mendonça com ternos. Em resposta, o ministro negou o recebimento dos presentes e apresentou notas fiscais que somam R$ 26.430. Assim, os investigadores devem examinar os documentos antes de qualquer conclusão.
Suspeita não representa condenação. Ao mesmo tempo, uma negativa não encerra automaticamente uma apuração.
Oração não pode virar blindagem política
Em meio à crise do Banco Master, pastores, artistas e perfis religiosos passaram a pedir orações por André Mendonça. Qualquer cidadão tem o direito de orar pelo ministro, por sua família ou pelo país.
Entretanto, a oração não pode virar escudo contra perguntas legítimas. A fé pertence à vida pessoal. Já a investigação envolve o dever público de prestar contas.
Não faz sentido apresentar Mendonça como perseguido somente porque ele é pastor evangélico. Ele pertence à Igreja Presbiteriana do Brasil. Da mesma maneira, ninguém deve declarar Moraes culpado apenas porque ele contrariou interesses políticos da direita.
O Brasil constitui um Estado laico. Isso não representa uma guerra contra a religião. Pelo contrário, o princípio protege todas as crenças e também quem não segue nenhuma religião.
Porém, o Estado laico impede que uma fé conceda privilégios, imunidade política ou tratamento especial diante da lei.
A mesma regra precisa valer para os dois
Se mensagens e documentos levantam dúvidas sobre Alexandre de Moraes, as autoridades devem investigar. Se encontros e articulações geram questionamentos sobre André Mendonça, ele também precisa prestar esclarecimentos.
A régua não pode mudar conforme o ministro, o padrinho político ou a religião.
Quem exige transparência de Moraes precisa aceitar a mesma cobrança sobre Mendonça. Da mesma forma, quem pede cautela antes de acusar Mendonça deve reconhecer esse direito a Moraes.
Além disso, o eleitor precisa desconfiar de campanhas que usam a religião para transformar autoridades em heróis protegidos pela fé. Também deve rejeitar movimentos que condenam adversários antes do fim das investigações.
Ministro do STF não representa igreja, partido ou corrente eleitoral. Ele exerce uma função pública e deve obediência à Constituição. Portanto, a sociedade pode questioná-lo sempre que surgirem fatos concretos.
No caso Vorcaro, o país não precisa escolher entre Alexandre de Moraes e André Mendonça. Precisa, isso sim, exigir a apuração de mensagens, contratos, encontros, decisões e possíveis conflitos de interesse.
A oração pertence à consciência de cada pessoa. A investigação cabe às instituições. Misturar as duas coisas transforma um caso grave em palanque eleitoral e impede que o Brasil conheça toda a verdade sobre as relações de Daniel Vorcaro com integrantes do Supremo.
Gilmar Ferreira é jornalista e editor de O Diário de Maringá.
Crédito Imamge da Mancehte: Nelson Jr./SCO/STF




