A tesoura de Flávio tem a mesma lâmina usada por Jair Bolsonaro no poder?
Flávio Bolsonaro promete cortar impostos, gastos e corrupção. No entanto, o governo de seu pai atingiu direitos previdenciários, abandonou a valorização real do salário mínimo e congelou a tabela do Imposto de Renda. Além disso, Jair Bolsonaro acabou condenado por tentativa de golpe de Estado.
O senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência da República pelo Partido Liberal, escolheu uma tesoura como símbolo de campanha. Seu plano de governo promete um “grande tesouraço” para reduzir impostos, despesas públicas, burocracia e corrupção.
A imagem pode agradar aos eleitores cansados da carga tributária e do desperdício de dinheiro público. Contudo, antes de entregar uma tesoura ao candidato, o Brasil precisa perguntar onde ele pretende colocar a lâmina.
Afinal, será a mesma tesoura que o governo de Jair Messias Bolsonaro usou para atingir direitos previdenciários, abandonar a valorização real do salário mínimo, permitir reduções salariais e manter congelada a tabela do Imposto de Renda?
Além disso, será uma tesoura semelhante àquela que os golpistas tentaram colocar no pescoço da democracia para romper o Estado Democrático de Direito?
A primeira lâmina atingiu aposentados e pensionistas
A reforma da Previdência promulgada em 2019 alterou o cálculo da pensão por morte do Instituto Nacional do Seguro Social. Vale esclarecer que o INSS, e não o Sistema Único de Saúde, administra aposentadorias e pensões.
Para mortes ocorridas a partir de 14 de novembro de 2019, o INSS passou a calcular a pensão com uma cota familiar de 50% do benefício, acrescida de 10% para cada dependente. Portanto, uma viúva ou um viúvo sem outros dependentes pode receber 60% do valor que o segurado recebia ou teria direito a receber.
A legislação estabelece regras específicas e exceções para dependentes inválidos ou com deficiência. Mesmo assim, o novo cálculo reduziu a proteção de muitas famílias. O portal oficial do INSS apresenta todas as regras.
A morte não elimina as despesas com moradia, alimentação, medicamentos e contas básicas. Ainda assim, a reforma colocou a tesoura justamente sobre a renda de quem acabava de perder o marido, a esposa, o pai ou a mãe.
Salário mínimo ficou sem valorização real consistente
Durante o governo Bolsonaro, o salário mínimo recebeu reajustes nominais. Por isso, não seria correto afirmar que o piso ficou completamente sem correção pela inflação em todos os anos.
Entretanto, o governo abandonou a política permanente de valorização que acrescentava o crescimento da economia ao reajuste inflacionário.
Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, o salário mínimo teve ganho real de 1,14% em 2019. Em 2020, praticamente não houve aumento real. Em 2021, ocorreu apenas um pequeno efeito de arredondamento. Já em 2022, o piso somente acompanhou o Índice Nacional de Preços ao Consumidor. O Dieese apresenta esses dados em estudo sobre o salário mínimo.
Nesse caso, o corte não apareceu como redução nominal. Na verdade, ele surgiu quando o governo abandonou uma política que permitia ao trabalhador recuperar poder de compra e participar do crescimento econômico.
Pandemia abriu caminho para redução de salários
Em 2020, o governo Bolsonaro editou a Medida Provisória nº 936. Posteriormente, o Congresso converteu a medida na Lei nº 14.020.
A norma permitiu que as empresas reduzissem proporcionalmente jornadas e salários ou suspendessem temporariamente contratos de trabalho. Ao mesmo tempo, o programa concedeu um benefício emergencial aos trabalhadores atingidos.
O governo afirmou que a medida buscava preservar empregos durante a crise sanitária. Contudo, a compensação pública nem sempre correspondia integralmente ao salário reduzido. Como consequência, muitas famílias perderam renda no período mais grave da pandemia.
É necessário considerar os dois lados. De fato, o programa ajudou empresas a manter postos de trabalho. Entretanto, para muitos trabalhadores, a tesoura chegou justamente quando aumentavam o desemprego, a doença, a insegurança e o custo de vida. A Lei nº 14.020 está disponível no portal do Planalto.
Tabela congelada ampliou o peso do Imposto de Renda
A tabela do Imposto de Renda da Pessoa Física permaneceu sem atualização durante os quatro anos do governo Bolsonaro.
É verdade que o congelamento começou antes. A última correção havia ocorrido em 2015. Contudo, Bolsonaro terminou o mandato sem cumprir a promessa eleitoral de elevar a faixa de isenção para R$ 5 mil.
Quando o salário aumenta apenas para acompanhar a inflação e o governo mantém a tabela parada, mais trabalhadores começam a pagar imposto. Outros avançam para faixas superiores, embora não tenham conquistado crescimento real da renda.
A Receita Federal registra as mesmas faixas de tributação para o período de 2016 a 2022. O órgão disponibiliza as tabelas históricas em seu site.
Portanto, a tesoura não cortou o imposto do trabalhador. Pelo contrário, ela cortou uma parcela maior de seu salário.
A tesoura também chegou ao pescoço da democracia
Os cortes econômicos não representam o ponto mais grave dessa história. Depois da derrota nas urnas, uma organização tentou impedir a posse do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva e manter Jair Bolsonaro no poder.
Em 11 de setembro de 2025, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão. Segundo o tribunal, o ex-presidente liderou uma organização criminosa que participou da tentativa de golpe de Estado.
O Supremo condenou Bolsonaro pelos crimes de organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado. O tribunal divulgou oficialmente a decisão e as penas.
Em 22 de outubro de 2025, o STF publicou o acórdão. Posteriormente, a Primeira Turma rejeitou recursos das defesas. Bolsonaro também apresentou uma revisão criminal. Dessa maneira, sua defesa continua usando os instrumentos judiciais disponíveis. O próprio Supremo registrou o andamento do processo.
Por que o golpe não deu certo?
A tentativa fracassou porque as instituições resistiram. Além disso, os articuladores não conseguiram reunir todas as condições necessárias para romper a ordem constitucional.
A Justiça Eleitoral proclamou o resultado das eleições. Em seguida, Lula e o vice-presidente Geraldo Alckmin tomaram posse em 1º de janeiro de 2023. Segundo os elementos analisados no julgamento, parte decisiva do comando das Forças Armadas não aderiu à ruptura. Autoridades civis também mantiveram o processo de transição.
Em 8 de janeiro de 2023, grupos atacaram e destruíram partes das sedes dos Três Poderes. Contudo, eles não conseguiram derrubar o governo eleito.
As forças de segurança retomaram os prédios. Depois disso, a Justiça determinou prisões e abriu investigações. Os processos alcançaram executores, financiadores e integrantes dos diferentes núcleos da organização golpista.
Ao concluir os julgamentos, o Supremo informou que analisou os casos de 31 réus. O tribunal aplicou 29 condenações e absolveu duas pessoas. O STF publicou o balanço em dezembro de 2025.
O golpe não fracassou por falta de intenção. Na realidade, encontrou resistência institucional, não obteve a adesão necessária e perdeu as condições para substituir a Constituição pela força.
Plano previa matar Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes
A investigação também revelou o plano chamado “Punhal Verde e Amarelo”. O documento previa ações contra Luiz Inácio Lula da Silva, Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes.
Segundo as investigações e os processos julgados pelo Supremo, militares e agentes com treinamento especializado participaram do planejamento. O grupo monitorou autoridades, analisou o uso de armas e discutiu até a possibilidade de envenenamento. A Polícia Federal chamou a investigação de Operação Contragolpe.
Os envolvidos usaram codinomes para identificar os alvos. Lula aparecia como “Jeca”, Alckmin como “Joca” e Alexandre de Moraes como “Professor”. O documento analisava formas de matar ou neutralizar as autoridades e, assim, impedir a posse do governo eleito.
Porém, o grupo não chegou à execução final do plano. Isso não reduz sua gravidade. Organizar pessoas e recursos para matar autoridades e romper a ordem constitucional ultrapassa qualquer limite da disputa política.
Nesse ponto, a tesoura deixa de representar apenas uma metáfora econômica. Ela passa a simbolizar o risco de cortar eleições, instituições, liberdades e vidas humanas.
Flávio Bolsonaro carrega o caso das rachadinhas
Enquanto promete cortar a corrupção, Flávio Bolsonaro ainda precisa responder aos questionamentos sobre seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.
Em 2020, o Ministério Público do Rio de Janeiro denunciou Flávio Bolsonaro, Fabrício José Carlos de Queiroz e outras pessoas. A acusação apontava uma suposta organização criminosa envolvida em peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita.
Em 2022, a Justiça arquivou a denúncia depois que decisões judiciais invalidaram provas utilizadas na investigação. A Segunda Turma do Supremo considerou irregulares relatórios financeiros que embasaram a acusação.
Flávio Bolsonaro não recebeu condenação nesse processo. Qualquer análise responsável precisa registrar esse fato. O STF divulgou a decisão sobre as provas. Além disso, a Agência Brasil informou o arquivamento da denúncia.
Contudo, o arquivamento ocorreu depois da invalidação das provas e sem um julgamento completo do mérito das acusações. A ausência de condenação encerrou aquele processo criminal, mas não eliminou o dever político de explicar as movimentações financeiras e a atuação de Fabrício Queiroz no gabinete.
Antes de prometer cortar a corrupção dos outros, Flávio deveria usar a tesoura para romper definitivamente com práticas e personagens que alimentaram essas suspeitas.
Daniel Vorcaro e os R$ 134 milhões para um filme
A relação de Flávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro também precisa entrar nessa discussão.
Segundo reportagem do Intercept Brasil, mensagens, áudios e documentos indicam que Flávio participou de negociações para obter até R$ 134 milhões destinados ao filme “Dark Horse”, produção sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro.
As conversas analisadas abrangem o período de dezembro de 2024 a novembro de 2025. Conforme a reportagem, Flávio e Vorcaro mantiveram contatos diretos. Além disso, o material mostra cobranças para a liberação dos recursos e demonstrações de proximidade pessoal.
Uma mensagem atribuída ao senador dizia: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”.
A reportagem também identificou um comprovante de ordem de pagamento de US$ 2 milhões para um fundo sediado no Texas, nos Estados Unidos. O Intercept Brasil publicou o material.
Ao receber os primeiros questionamentos, Flávio afirmou que a informação era mentira. Posteriormente, após a divulgação dos documentos, disse que o caso envolvia investimento privado em um filme privado, sem contrapartida pública.
O senador também declarou que apresentaria o contrato. Contudo, até o fim de agosto de 2026, ele ainda não havia divulgado o documento.
Flávio não recebeu condenação por esse episódio. As autoridades ainda apuram as circunstâncias das transferências e do financiamento. Mesmo assim, quem promete cortar a corrupção precisa explicar por que procurou Vorcaro, como surgiu o valor de R$ 134 milhões, quanto efetivamente chegou ao projeto e quais empresas ou fundos receberam os recursos.
Relações com personagens associados às milícias
Não se pode usar a palavra “milícia” como uma acusação genérica. Por isso, é necessário apresentar fatos concretos.
Quando exercia o mandato de deputado estadual, Flávio Bolsonaro concedeu homenagens a Adriano Magalhães da Nóbrega. Posteriormente, as autoridades apontaram o ex-capitão da Polícia Militar como chefe de uma milícia e integrante do chamado Escritório do Crime.
Além disso, a mãe e a então esposa de Adriano ocuparam cargos no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa. O acervo de notícias do Senado Federal registra essa informação.
Flávio afirma que homenageou Adriano quando o considerava um policial exemplar. Segundo o senador, naquela época ele desconhecia qualquer envolvimento do ex-capitão com atividades criminosas. Flávio também nega participação ou conhecimento de atos ilícitos atribuídos a Adriano e Fabrício Queiroz.
Essa defesa precisa constar no texto. Entretanto, os fatos políticos permanecem. Flávio homenageou Adriano, empregou familiares dele em seu gabinete e manteve Fabrício Queiroz como assessor.
Não existe base para afirmar que uma milícia controlará inevitavelmente um eventual governo de Flávio Bolsonaro. Ainda assim, o histórico permite questionar quem ocuparia os cargos, quais grupos teriam acesso ao poder e como o candidato impediria a influência de pessoas ligadas a organizações criminosas.
Quem ficará entre as lâminas?
Cortar desperdícios, privilégios e despesas desnecessárias representa uma promessa legítima. Da mesma forma, reduzir impostos sobre produção e consumo pode beneficiar trabalhadores e empresas.
O problema começa quando a propaganda esconde o destino da lâmina.
No governo Jair Bolsonaro, a tesoura atingiu o cálculo das pensões, a valorização real do salário mínimo, a renda dos trabalhadores durante a pandemia e o bolso de quem passou a pagar mais Imposto de Renda por causa da tabela congelada.
Depois, a democracia brasileira enfrentou algo ainda mais grave. Segundo a condenação do Supremo Tribunal Federal, uma organização tentou manter Bolsonaro no poder depois da derrota eleitoral. Durante a investigação, a Polícia Federal também encontrou um plano para matar Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes.
Agora, Flávio Bolsonaro aparece com uma nova tesoura. Ao mesmo tempo, carrega perguntas sobre as rachadinhas, Fabrício Queiroz, Daniel Vorcaro, o financiamento milionário do filme “Dark Horse” e personagens associados às milícias do Rio de Janeiro.
Antes de entregar a ele a tesoura e as chaves do Palácio do Planalto, o eleitor precisa saber exatamente o que o candidato pretende cortar.
Flávio cortará privilégios, corrupção e desperdícios? Ou colocará novamente a lâmina contra o trabalhador, o aposentado, o pensionista, o povo mais humilde e a própria democracia?
O último governo comandado por um Bolsonaro oferece fatos concretos para justificar esse cuidado. Desta vez, o Brasil não pode esperar a tesoura se fechar para descobrir quem estava entre suas lâminas.



