Moro é “traíra”? E Ratinho Junior é robalo, bagre ensaboado ou tubarão?

Moro é “traíra”? E Ratinho Junior é robalo, bagre ensaboado ou tubarão?


Governador chama Sergio Moro de “traíra”, enquanto o candidato evita confrontar uma gestão cercada por questionamentos sobre contratos, obras, publicidade e suspeitas eleitorais

Por Gilmar Ferreira

Sergio Moro precisa abandonar o discurso confortável de que sua disputa é apenas contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e não contra o governador Carlos Roberto Massa Junior. A eleição é para governar o Paraná. Portanto, o candidato tem a obrigação de olhar para aquilo que acontece dentro do Estado.

Ratinho Junior já deixou claro que não pretende oferecer a mesma gentileza. Ao chamar Moro de “traíra” nas redes sociais, o governador tentou transformar uma divergência política em ataque pessoal. Moro, porém, continua tratando o grupo que governa o Paraná como se estivesse diante de um aliado temporariamente contrariado.



Essa postura precisa mudar.

Quem construiu a trajetória política prometendo combater a corrupção não pode selecionar os governos que merecem fiscalização. Corrupção é corrupção, independentemente do partido, do aliado, do adversário ou do endereço do Palácio.

O Paraná também precisa ser investigado

Moro cobra explicações do governo Lula, como deve fazer qualquer representante público. No entanto, precisa demonstrar a mesma disposição quando os questionamentos alcançam o Governo do Paraná.

Na Ponte de Guaratuba, uma auditoria do Tribunal de Contas do Estado do Paraná apontou a possibilidade de sobrepreço de R$ 14,9 milhões. Isso não significa que o superfaturamento esteja definitivamente comprovado. Significa, porém, que existe um apontamento técnico grave, produzido por um órgão de controle, que exige respostas claras do governo estadual.

Não basta apresentar a obra em vídeos bem produzidos, imagens aéreas e campanhas publicitárias. O governo precisa explicar cada valor questionado e demonstrar que o dinheiro público foi corretamente aplicado.

O mesmo vale para o Programa Olho Vivo. Em abril de 2026, o Tribunal de Contas suspendeu um pregão de quase R$ 581 milhões relacionado ao sistema de vigilância. Posteriormente, o órgão também confirmou a apuração de outra contratação ligada ao programa.

Mais uma vez, a suspensão não representa condenação antecipada. Contudo, também não pode ser tratada como um detalhe administrativo. Quando um contrato de centenas de milhões de reais é interrompido pelo Tribunal de Contas, a sociedade merece saber o que aconteceu.

A suspeita de caixa dois precisa de resposta

Também existem acusações relacionadas a um suposto caixa dois na campanha anterior de Ratinho Junior. A oposição pediu investigação sobre o caso, que envolveria suspeitas ligadas à Companhia de Saneamento do Paraná.

Até que uma investigação seja concluída, não se pode afirmar que houve caixa dois ou responsabilizar alguém definitivamente. Por isso, o ponto precisa ser tratado como suspeita e acusação, não como fato comprovado.

Mesmo assim, Moro não deveria ignorar o assunto. Se considera as acusações inconsistentes, deve explicar por quê. Se entende que existem elementos suficientes, precisa defender uma apuração independente. O silêncio seletivo não combina com quem fez do combate à corrupção sua principal identidade pública.

Publicidade não pode funcionar como blindagem

Outro ponto que merece atenção é a estrutura de comunicação do Governo do Paraná. A administração estadual investe na divulgação de obras, programas e resultados. Publicidade institucional é legal, mas deve servir para informar a população, não para construir uma blindagem política em torno do governador.

É necessário examinar quanto o governo gasta, quais veículos recebem os recursos, quais critérios orientam a distribuição e se existe equilíbrio no tratamento da imprensa. Também é preciso avaliar se veículos críticos enfrentam dificuldades enquanto espaços mais favoráveis recebem campanhas oficiais.

Sem documentos que comprovem favorecimento ou perseguição, não é correto apresentar a blindagem como fato consumado. Entretanto, os valores, contratos e critérios da publicidade precisam estar integralmente disponíveis para fiscalização. Governo transparente não escolhe apenas a parte conveniente da transparência.

O Paraná não pode ter uma mídia oficial preocupada em promover o governante e uma estrutura publicitária capaz de sufocar questionamentos. Dinheiro público não pode comprar silêncio, elogio ou complacência.

Moro precisa escolher entre coerência e conveniência

Sergio Moro não precisa transformar Ratinho Junior em inimigo pessoal. Precisa apenas fazer aquilo que promete fazer com qualquer governo: fiscalizar, cobrar e exigir transparência.

Se o governador o chamou de “traíra”, Moro tem o direito de responder. Mas a resposta mais importante não deveria ser uma troca de ofensas. Deveria ser uma análise rigorosa dos contratos, das licitações, das obras, da publicidade oficial e das acusações que envolvem a atual administração estadual.

Quem pretende governar o Paraná não pode falar somente de Brasília. Precisa dizer o que pensa sobre o governo que encontrará no Palácio Iguaçu, sobre os compromissos assumidos, os contratos assinados e as estruturas políticas construídas nos últimos anos.

Semob, GM e PM vão esperar o influencer atropelar alguém para tomar providências?

Ratinho Junior tenta apresentar Sergio Moro como o traíra da história. Contudo, o governador também precisa responder sobre o próprio comportamento. Seria ele o robalo, peixe cauteloso que se esconde entre estruturas, observa o movimento e dispara quando percebe o risco?

Ou seria o bagre ensaboado, expressão popular usada para definir quem escorrega das mãos, evita respostas diretas e sempre encontra uma maneira de escapar quando a cobrança aperta? Quanto mais tentam segurá-lo pelos fatos, mais ele se movimenta, muda o foco e procura sair da situação sem enfrentar as perguntas centrais.

Também existe a figura do tubarão, predador que impõe força, ocupa espaço e avança sobre aquilo que considera uma ameaça. Nesse caso, a comparação serviria para questionar se o governo prefere atacar jornalistas, adversários e órgãos fiscalizadores em vez de responder com documentos, dados e transparência.

Ratinho Junior pode tentar colocar Moro no papel do traíra. Porém, antes precisa esclarecer qual papel assumiu nessa história: o robalo que se esconde, o bagre ensaboado que escapa das cobranças ou o tubarão que parte para cima de quem fiscaliza seu governo.

A comparação pode render postagem, apelido e disputa nas redes sociais. Os documentos, porém, exigem respostas sérias. A auditoria da Ponte de Guaratuba e a suspensão do pregão do Olho Vivo não desaparecerão embaixo de campanhas publicitárias.

Moro precisa decidir se continuará nadando ao lado do governo Ratinho Junior ou se cumprirá a obrigação de fiscalizar o grande peixe que governa o Paraná.

Fontes de referência: TCE-PR sobre a suspensão do pregão do Programa Olho Vivo, auditoria sobre possível sobrepreço na Ponte de Guaratuba, investigação envolvendo contratação do Programa Olho Vivo.

TV Diário
Gilmar Ferreira

Gilmar Ferreira

Gilmar Ferreira Jornalista, apresentador e mestre de cerimônias | MTB 0011341/PR Gilmar Ferreira construiu sua trajetória entre redações, estúdios de televisão, emissoras de rádio e eventos. Sua experiência reúne a apuração jornalística, a apresentação ao vivo e a condução de cerimônias, com atuação no Paraná e em Santa Catarina. Atualmente, é diretor de redação de O Diário de Maringá e atua como mestre de cerimônias em eventos no Paraná e SP. Na televisão, trabalhou como apresentador e âncora na TV Maringá (Band), RIC TV Maringá (Record), Record News (Rede Mercosul) e RTV 10 Maringá. Sua trajetória no rádio inclui passagens, no Paraná, pela Jovem Pan FM, Metropolitana FM, Rede de Rádios, Globo FM, Rádio Colorado AM e Eden FM. Em Santa Catarina, atuou na Rádio Menina FM e na Rádio Globo AM, em Blumenau. Em cada formato, Gilmar leva a experiência de quem conhece a notícia desde a apuração até o momento de comunicá-la ao público.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *