De honra a chacota? Câmara de Maringá pode homenagear influenciador que grava dirigindo e diz ser melhor roubar do que vender paçoca
Uso do celular ao volante é apontado pela Semob como a segunda principal causa de acidentes na cidade. Indicação do influenciador ao Título de Mérito Comunitário levanta questionamentos sobre os critérios da homenagem e a responsabilidade de quem produz conteúdo nas redes sociais.
Por Gilmar Ferreira
O influenciador digital Leonardo Ausi está entre os indicados para receber o Título de Mérito Comunitário da Câmara Municipal de Maringá. A proposta foi apresentada pelo vereador Lemuel Wilson Rodrigues (PDT), conhecido como Lemuel do Salvando Vidas, e recebeu a assinatura de outros 14 parlamentares.
O requerimento foi lido durante a sessão de quinta-feira (29). Agora, cabe à Presidência da Câmara decidir se acolhe o pedido e definir uma eventual data para a solenidade.
Entretanto, um aspecto da atuação do influenciador merece atenção: Leonardo Ausi grava vídeos enquanto dirige, conforme é possível verificar, segundo informações encaminhadas ao O Diário de Maringá, em publicações de suas redes sociais.
A situação levanta uma pergunta: é adequado conceder uma homenagem pública a um influenciador sem avaliar os riscos associados ao conteúdo que produz no trânsito?
Celular ao volante é a segunda principal causa de acidentes em Maringá, segundo a Semob
A preocupação tem fundamento em informações divulgadas pela própria Secretaria de Mobilidade Urbana de Maringá (Semob).
Em reportagem publicada pela CBN Maringá em 26 de janeiro de 2026, o secretário municipal de Mobilidade Urbana, Luciano Brito, afirmou que o excesso de velocidade é a principal causa de acidentes na cidade. Em segundo lugar aparece o uso do celular ao volante.
Segundo Brito, a constatação tem como base imagens captadas pelos equipamentos de fiscalização eletrônica.
A informação também foi divulgada pelo portal GMC Online, que destacou a preocupação da Semob com a distração dos motoristas e os riscos de colisões e atropelamentos.
Portanto, não se trata de um problema distante da realidade de Maringá. A própria autoridade municipal responsável pelo trânsito identifica o uso do celular como um dos principais fatores associados aos acidentes na cidade.
O que diz a legislação sobre o uso do celular ao volante?
O Código de Trânsito Brasileiro estabelece, no artigo 252, parágrafo único, que dirigir segurando ou manuseando telefone celular constitui infração gravíssima.
A penalidade prevista é multa de R$ 293,47 e sete pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH).
Além disso, a Polícia Rodoviária Federal alerta que o uso do celular reduz a atenção e o tempo de reação dos motoristas, aumentando os riscos de acidentes.
É importante distinguir, porém, a gravação de um vídeo dentro de um automóvel da comprovação de uma infração. Para identificar eventual irregularidade, é necessário verificar as circunstâncias da gravação, inclusive se houve manuseio do aparelho durante a condução.
Ainda assim, a produção de vídeos enquanto se dirige merece atenção, especialmente quando envolve influenciadores que alcançam milhares de pessoas.
Vídeo sobre vendedores de paçoca também levanta questionamentos
Outro conteúdo de Leonardo Ausi chama atenção.
Em um vídeo que, segundo relato encaminhado à reportagem, também teria sido gravado enquanto dirigia, o influenciador afirma não gostar de vendedores de paçoca nos semáforos.
Na mesma gravação, conforme o relato, ele questiona por que essas pessoas não vão roubar, em uma manifestação que pode ser interpretada como uma sugestão de que seria preferível praticar um roubo a vender paçoca nos sinais de trânsito.
A declaração merece esclarecimento, inclusive quanto ao contexto em que foi feita e à intenção do influenciador.
O episódio amplia a discussão sobre a responsabilidade de quem produz conteúdo para milhares de seguidores.
O que a Câmara pretende reconhecer?
O requerimento apresentado por Lemuel do Salvando Vidas destaca a contribuição dos influenciadores nas áreas de informação, conscientização, entretenimento e prestação de serviços à comunidade.
O reconhecimento da comunicação digital é legítimo. Entretanto, a indicação também permite discutir a responsabilidade social de quem produz conteúdo e influencia o comportamento de outras pessoas.
A questão não se limita ao número de visualizações ou à popularidade nas redes sociais. Envolve também os exemplos transmitidos ao público.
Se a própria Secretaria de Mobilidade Urbana aponta o celular ao volante como a segunda principal causa de acidentes em Maringá, cabe perguntar se esse comportamento deve integrar a avaliação dos vereadores antes da concessão de uma honraria.
O mesmo questionamento vale para manifestações públicas sobre trabalhadores que buscam seu sustento nas ruas.
A Câmara de Maringá deve considerar apenas o alcance de um influenciador ou também a responsabilidade demonstrada por ele diante de seus seguidores?
Quem é o vereador que propõe a homenagem?
Outro ponto que merece atenção é o histórico judicial do autor da proposta, Lemuel Wilson Rodrigues, conhecido como Lemuel do Salvando Vidas.
Segundo reportagem publicada pelo jornalista Angelo Rigon em abril de 2026, o parlamentar enfrenta processos judiciais relacionados à sua atuação na causa animal.
Um deles envolve 30 animais de raça que estavam sob sua responsabilidade, na condição de depositário judicial, e desapareceram. O caso chegou à 17ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR), e o vereador apresentou medidas recursais contra a decisão.
Lemuel nega que os animais tenham sido vendidos.
Em outro processo, de número 0003921-55.2024.8.16.0017, a 7ª Vara Cível de Maringá condenou o parlamentar ao pagamento de R$ 100 mil por dano moral coletivo ambiental.
A sentença, proferida em janeiro de 2026, examinou fatos relacionados a maus-tratos a animais, captação irregular de doações, falta de transparência e utilização de uma organização denominada Salvando Vidas, que não possuía existência jurídica regular.
Segundo a decisão, as condutas ultrapassaram a esfera individual e atingiram valores relacionados à proteção ambiental, à causa animal e à confiança da coletividade nas iniciativas de solidariedade.
A defesa do vereador contestou a condenação. Em manifestação divulgada à imprensa, a advogada Ana Paula de Vasconcelos afirmou que a decisão era injusta e desconsiderava a trajetória de Lemuel na proteção dos animais. A defesa anunciou a apresentação de recurso.
A existência dessas decisões judiciais não retira, por si só, a prerrogativa parlamentar de apresentar requerimentos ou propor homenagens. Entretanto, os processos também fazem parte do histórico público do vereador e podem ser considerados no debate sobre a iniciativa.
E os demais vereadores concordam com a homenagem?
14 vereadores assinaram o requerimento apresentado por Lemuel: Angelo Salgueiro (Podemos), Professora Ana Lúcia (PDT), Luiz Neto (Agir), Akemi Nishimori (PSD), Odair Fogueteiro (PP), Willian Gentil (PP), Maninho (Republicanos), Pastor Sandro (União), Guilherme Machado (PL), Uilian da Farmácia (União), Jeremias (PL), Ítalo Maroneze (PDT), Majô (PP) e Mário Verri (PT).
A assinatura do requerimento demonstra apoio à apresentação da proposta, mas não esclarece se todos os parlamentares conhecem os conteúdos atribuídos a Leonardo Ausi ou se avaliaram individualmente a conduta dos indicados.
Também não está definido, pelas informações divulgadas, quem fará a entrega das homenagens caso a Presidência da Câmara acolha o pedido.
Diante disso, algumas perguntas permanecem: os influenciadores receberão a homenagem das mãos de Lemuel? Os demais vereadores conhecem os processos judiciais envolvendo o autor da proposta? E concordam com os critérios utilizados para escolher os homenageados?
Afinal, o Título de Mérito Comunitário não é uma homenagem particular de um vereador. Trata-se de um reconhecimento institucional do Legislativo municipal.
Quando o assunto é mérito comunitário, a sociedade tem o direito de saber quem será homenageado, quais serviços justificam a escolha e quais critérios orientam os vereadores.
Em uma cidade onde a própria Semob aponta o celular ao volante como a segunda principal causa de acidentes, a responsabilidade no trânsito é um elemento concreto que merece entrar nessa discussão.
Do jeito que as homenagens estão sendo propostas, receber um título de honra ou mérito da Câmara Municipal de Maringá corre o risco de deixar de ser motivo de orgulho e passar a ser motivo de constrangimento. Afinal, até pessoas cuja conduta levanta questionamentos sobre o cumprimento das leis estão sendo indicadas para receber esse reconhecimento público.



