Câmara vai ouvir a cidade ou se curvar ao peso da Acim?

Câmara vai ouvir a cidade ou se curvar ao peso da Acim?


Quando a Acim pressiona a Câmara de Maringá, o alvo real pode ser o trabalhador

A pressão da Acim sobre a Câmara de Maringá contra a classe trabalhadora ficou explícita no manifesto divulgado em 22 de abril. No documento, a entidade e dezenas de associações pedem a revogação da lei que transferiu o feriado do aniversário da cidade de domingo para segunda-feira, dia 11 de maio. O texto sustenta que a mudança trará prejuízos financeiros, operacionais e logísticos para as empresas.

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O problema não é só econômico, é político

Ninguém ignora que empresas precisam de previsibilidade. Isso é fato. No entanto, o manifesto da Acim expõe algo maior. Ele trata a cidade quase apenas como engrenagem de produção. Ele fala em cronograma, custo, contrato, horas extras, cadeia logística, máquinas locadas e produtividade. Porém, quando o debate encosta no trabalhador, o texto o enxerga muito mais como peça da operação do que como cidadão que também tem direito a descanso, convivência familiar e celebração cívica.

Esse é o ponto central. Quando uma entidade empresarial tenta emparedar a Câmara com um discurso de urgência econômica, ela não está apenas defendendo setor produtivo. Ela está tentando impor uma visão de cidade. Nessa visão, o calendário da vida coletiva deve se curvar ao caixa, à planilha e ao interesse patronal. E isso precisa ser dito com clareza.

O trabalhador não pode virar variável de planilha

O próprio manifesto admite que a medida impacta trabalhadores que recebem comissões ou remuneração variável. Ou seja, o documento reconhece que o tema chega na ponta, na vida real, no bolso de quem vive do próprio esforço. Ainda assim, o raciocínio dominante continua o mesmo. O trabalhador aparece como extensão da meta empresarial, não como sujeito do debate público.

Essa lógica é injusta. Maringá não pertence apenas ao comércio, à indústria ou ao setor imobiliário. Maringá também pertence ao caixa de supermercado, ao porteiro, à recepcionista, ao operário, ao professor, ao motorista, ao auxiliar administrativo, ao profissional da saúde e ao pequeno empregado que quase sempre paga a conta quando os poderosos resolvem pressionar o poder público.

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Um manifesto forte, mas com lado muito claro

O documento lista prejuízos em série para indústria, construção civil, educação, shoppings atacadistas, mercado imobiliário, setor condominial, contabilidade, advocacia, supermercados, saúde, e-commerce, transporte, agroindústria e frigoríficos. Também cita estimativa de impacto econômico negativo de R$ 63 milhões e pede a revogação da legislação. A mensagem política é cristalina: a Câmara deve recuar porque o mercado não gostou.

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É justamente aí que mora o incômodo. A Acim tem todo direito de se manifestar. O que não pode é transformar interesse empresarial em verdade absoluta, nem vender a ideia de que qualquer decisão que escape da conveniência patronal se torna automaticamente um ataque à cidade. Isso não é debate equilibrado. Isso soa como pressão organizada sobre o Legislativo.

Câmara de Maringá precisa escolher de que lado fica

A Câmara não existe para funcionar sob tutela de associação empresarial. Vereador não foi eleito para agir como despachante de manifesto corporativo. Vereador foi eleito para representar a cidade inteira, inclusive quem nunca assina nota pública, quem nunca senta em reunião de diretoria e quem nunca aparece nas fotos do poder econômico.

Se a discussão sobre o feriado precisa ser reaberta, que seja com transparência, audiência pública e participação real da sociedade. Mas uma coisa precisa ficar registrada. Quando a Acim tenta enquadrar o debate apenas pelo prisma do prejuízo empresarial, ela coloca o peso de sua influência contra a classe trabalhadora de Maringá.

E isso merece crítica dura.

Porque cidade boa não é só a que fatura. Cidade justa é a que respeita quem trabalha.

É bom lembrar que o aniversário de Maringá só cairá no domingo novamente em 2037. Portanto, com a transferência do feriado para a segunda-feira, como acontecerá neste ano, essa situação só voltará a se repetir daqui a 11 anos.

TV Diário
Gilmar Ferreira

Gilmar Ferreira

Gilmar Ferreira Jornalista, apresentador e mestre de cerimônias | MTB 0011341/PR Gilmar Ferreira construiu sua trajetória entre redações, estúdios de televisão, emissoras de rádio e eventos. Sua experiência reúne a apuração jornalística, a apresentação ao vivo e a condução de cerimônias, com atuação no Paraná e em Santa Catarina. Atualmente, é diretor de redação de O Diário de Maringá e atua como mestre de cerimônias em eventos no Paraná e SP. Na televisão, trabalhou como apresentador e âncora na TV Maringá (Band), RIC TV Maringá (Record), Record News (Rede Mercosul) e RTV 10 Maringá. Sua trajetória no rádio inclui passagens, no Paraná, pela Jovem Pan FM, Metropolitana FM, Rede de Rádios, Globo FM, Rádio Colorado AM e Eden FM. Em Santa Catarina, atuou na Rádio Menina FM e na Rádio Globo AM, em Blumenau. Em cada formato, Gilmar leva a experiência de quem conhece a notícia desde a apuração até o momento de comunicá-la ao público.

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