Coronel Hudson fala em combater mentiras, mas qual é o verdadeiro efetivo da Polícia Militar?
Militares da ativa e da reserva procuraram a reportagem após a divulgação de vídeo com integrantes da cúpula da Segurança Pública manifestando apoio político; fontes apontam diferença entre o efetivo previsto em lei e o contingente incorporado, e citam Curitiba, Maringá, Londrina, Ponta Grossa, Cascavel, São José dos Pinhais e Pato Branco como exemplos de concentração de cargos administrativos.
A reportagem publicada por O Diário de Maringá sobre o encontro realizado na noite de quarta-feira, em Maringá, no qual integrantes da cúpula da Segurança Pública apareceram em vídeo manifestando apoio político ao secretário estadual de Infraestrutura e Logística, Sandro Alex, provocou novos desdobramentos.
Depois da publicação, vários Pms da ativa e da reserva da Polícia Militar do Paraná entraram em contato com a redação. Os militares afirmaram que decidiram procurar a reportagem após a repercussão do vídeo. Além disso, pediram para não ser identificados por receio de sofrer represálias ou responder a procedimentos administrativos.
Durante entrevistas por telefone, os policiais relataram preocupações com o efetivo da corporação, a estrutura de comando, a criação de novos Comandos Regionais de Polícia Militar (CRPMs), a política remuneratória dos militares da reserva, o regulamento disciplinar e a forma como o governo divulga informações sobre a Polícia Militar.
Fontes apontam diferença entre efetivo previsto e efetivo incorporado
Segundo os policiais ouvidos pela reportagem, a Polícia Militar do Paraná possui atualmente 15.059 policiais militares formados e incorporados ao quadro da corporação. Desse total, seriam 1.269 oficiais e 13.790 praças.
Já o Governo do Paraná informa, em publicações da Secretaria de Estado da Segurança Pública (SESP) e nas redes sociais oficiais do governador Carlos Massa Ratinho Junior, que a Lei Estadual nº 23.291, sancionada em 24 de junho de 2026, fixou o efetivo da Polícia Militar em 23.739 policiais. O total reúne 1.749 oficiais e 21.990 praças.
Os entrevistados afirmam, porém, que os dois números representam situações diferentes.
Segundo eles, os 23.739 policiais correspondem ao efetivo autorizado pela legislação. Ou seja, esse número representa o limite de cargos que a corporação pode preencher.
Por sua vez, os 15.059 militares informados pelas fontes representariam o contingente efetivamente formado e incorporado à Polícia Militar.
Com base nesses dados, a diferença seria de 8.680 policiais. O número equivale a 36,56% do efetivo previsto em lei.
Os policiais também informaram que atualmente existem 2.299 alunos em formação. Caso todos concluam o curso e ingressem na corporação, o efetivo chegaria, em tese, a 17.358 policiais. Ainda assim, esse cálculo não considera aposentadorias, transferências para a reserva remunerada, exonerações, falecimentos e outros desligamentos.
Policiais contestam comparação divulgada pelo governo
Durante as entrevistas, os policiais afirmaram que o secretário de Estado da Segurança Pública, coronel Hudson Leôncio Teixeira, declarou em entrevistas que o efetivo da Polícia Militar passou de aproximadamente 16 mil para 23 mil policiais durante a atual gestão.
Segundo os entrevistados, a mesma informação foi publicada nos perfis oficiais da SESP e do coronel Hudson Leôncio Teixeira nas redes sociais, incluindo Instagram e Facebook. As contas oficiais do governador Ratinho Junior compartilharam o mesmo dado.
Na avaliação das fontes, a comparação utiliza bases diferentes. De um lado, o número de 23.739 representa o efetivo autorizado pela legislação. De outro, o contingente efetivamente incorporado permaneceria menor, segundo os militares que procuraram a reportagem. Por isso, os entrevistados consideram que os números divulgados nas redes sociais oficiais não correspondem ao efetivo realmente formado e em atividade.
Os policiais afirmam ainda que o número atual de praças estaria entre 13 mil e 13,7 mil militares. Além disso, sustentam que a corporação precisaria de mais de 26 mil policiais para atender toda a estrutura prevista.
Um dos entrevistados informou que pretende encaminhar à reportagem documentos estatísticos sobre o efetivo da Polícia Militar. Segundo ele, o mesmo material também teria chegado a outra autoridade pública. Até o fechamento desta reportagem, a redação ainda não havia recebido a documentação.
Fontes detalham criação de CRPMs e ampliação de cargos de oficiais
Um dos entrevistados apresentou à reportagem detalhes sobre a criação dos Comandos Regionais de Polícia Militar (CRPMs) no Estado.
Segundo essa fonte, Curitiba já possui de cinco a seis batalhões, cada um comandado por um coronel, com estrutura que inclui também tenente-coronel e major. Além disso, a capital conta com comandante geral e subcomandante responsáveis pelo policiamento.
Na avaliação do entrevistado, a criação de um CRPM em uma cidade que já tem batalhão e comando estabelecido não amplia a tropa empregada no policiamento ostensivo. Segundo ele, cada CRPM criado abre, em tese, uma vaga de coronel, uma de tenente-coronel, duas de major, quatro de capitão e oito de tenente.
O entrevistado afirmou ainda que esse modelo, em sua avaliação, teria triplicado o número de vagas de oficiais no Estado. Segundo ele, os CRPMs recebem poucas praças em expediente administrativo, sem ampliação correspondente da tropa disponível para a rua.
A reportagem não recebeu, até a publicação, documentos oficiais que detalhem o número de cargos criados por CRPM nem a estrutura de pessoal de cada comando regional.
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Estrutura administrativa também recebe críticas
Segundo os entrevistados, a corporação criou novos batalhões e comandos regionais nos últimos anos, mas não ampliou, na mesma proporção, o efetivo destinado ao policiamento ostensivo.
Na avaliação das fontes, esse modelo aumentou o número de cargos de comando. Enquanto isso, o contingente disponível para o serviço operacional permaneceu insuficiente.
Como exemplo, os policiais citaram Curitiba, Maringá, Foz do Iguaçu e São José dos Pinhais. Segundo eles, essas cidades concentrariam oficiais em funções administrativas diante da quantidade de militares empregados diretamente no patrulhamento.
Sobre São José dos Pinhais, os entrevistados afirmaram que o município já contava com batalhão estruturado antes da criação do CRPM local, o que, na avaliação das fontes, tornaria desnecessária a criação de um novo comando regional na cidade.
A reportagem não recebeu documentos que comprovem essas afirmações.
Fontes comparam custos entre oficiais e soldados
Durante as entrevistas, um dos policiais apresentou estimativas sobre os custos da estrutura da corporação.
Segundo ele, toda a estrutura necessária para manter um coronel representaria gasto aproximado de R$ 200 mil por mês. Já um soldado teria custo estimado em cerca de R$ 6 mil mensais.
O entrevistado afirmou que o Portal da Transparência do Governo do Paraná mostra remuneração média de R$ 60 mil a R$ 70 mil para um coronel. Segundo ele, esse valor corresponde apenas ao salário e não inclui outros custos associados ao cargo, como a estrutura de apoio e a equipe que trabalha junto ao oficial. Por esse motivo, na avaliação da fonte, o custo total mensal de um coronel seria maior do que o valor exibido no portal.
Na avaliação da fonte, uma eventual redução da estrutura administrativa permitiria ampliar o número de policiais no policiamento ostensivo.
Os entrevistados apresentaram esses valores como estimativas. A reportagem, no entanto, não recebeu documentos oficiais que confirmem os números.
Policiais da reserva relatam perdas salariais
Outro assunto recorrente nas entrevistas foi a situação dos policiais militares da reserva.
Segundo as fontes, existe descontentamento entre parte dos militares em relação à gestão do secretário de Estado da Segurança Pública, coronel Hudson Leôncio Teixeira.
Os entrevistados afirmam que uma das principais reclamações envolve o fim da paridade remuneratória entre militares da reserva e policiais da ativa. Na avaliação deles, a mudança provocou perdas financeiras para parte dos policiais que já deixaram o serviço ativo. Além disso, as fontes informaram que existem discussões judiciais sobre o tema.
Regulamento disciplinar preocupa praças
Os entrevistados também criticaram o regulamento disciplinar utilizado pela corporação.
Segundo eles, a Polícia Militar do Paraná ainda utiliza normas baseadas no Regulamento Disciplinar do Exército para apurar infrações disciplinares.
Na avaliação dos policiais, esse modelo dificulta manifestações públicas, principalmente entre as praças. Por esse motivo, os militares temem a abertura de procedimentos administrativos. Esse receio também levou todos os entrevistados a pedir a preservação de suas identidades.
Promoções também geram questionamentos
Outro tema citado pelos entrevistados foi a divulgação de promoções de policiais militares.
Segundo eles, as publicações aparecem nos perfis oficiais da Secretaria de Estado da Segurança Pública, do secretário Hudson Leôncio Teixeira e do governador Ratinho Junior.
As fontes afirmam que determinadas promoções envolvendo militares que já passaram para a reserva seriam juridicamente inviáveis. Os entrevistados informaram que pretendem encaminhar documentos para fundamentar esse entendimento. Até o fechamento da matéria, porém, a redação ainda não havia recebido esse material.
Governo anunciou novas incorporações
O Governo do Paraná também divulgou a previsão de incorporar 5.689 novos profissionais às forças de segurança durante 2026.
Segundo os policiais ouvidos pela reportagem, esse total reúne integrantes de diferentes instituições. Portanto, o número não representa exclusivamente novos policiais militares incorporados à Polícia Militar do Paraná.
Por isso, os entrevistados defendem que o governo apresente separadamente o efetivo autorizado pela legislação, o número de policiais incorporados, o contingente empregado na atividade operacional, os alunos em formação, os militares afastados ou cedidos para outras funções e o número de cargos de oficiais criados com a instalação de cada CRPM.
Declaração do secretário aumenta cobrança por transparência
As manifestações recebidas pela reportagem mostram que, para parte dos policiais da ativa e da reserva, o debate vai além do tamanho do efetivo. Os entrevistados relataram insatisfação com a política remuneratória, a estrutura administrativa da corporação, a criação de novos CRPMs, o regulamento disciplinar e a divulgação dos números oficiais.
Durante o encontro realizado em Maringá, o secretário de Estado da Segurança Pública, coronel Hudson Leôncio Teixeira, afirmou que pretende “acabar com as mentiras”.
Diante dessa declaração, os policiais ouvidos pela reportagem afirmam que o secretário deveria começar esclarecendo a divergência entre os números apresentados por ele, pelo Governo do Estado e aqueles apontados por integrantes da própria corporação sobre o efetivo da Polícia Militar do Paraná.
Segundo eles, se o objetivo é combater informações consideradas incorretas, a Secretaria de Estado da Segurança Pública poderia explicar publicamente qual é o efetivo autorizado pela legislação, quantos policiais estão incorporados à corporação, quantos atuam no policiamento ostensivo, quantos permanecem em formação, quantos estão afastados ou cedidos para outras funções e quantos cargos de oficiais foram criados com a instalação de cada CRPM, incluindo os de Curitiba, Maringá, Londrina, Ponta Grossa, Pato Branco e São José dos Pinhais.
Nossa redação encaminhou ao secretário de Estado da Segurança Pública os questionamentos para que esclarecesse as informações apresentadas pelos policiais entrevistados sobre o efetivo da Polícia Militar, a criação dos Comandos Regionais de Polícia Militar (CRPMs) e os custos da estrutura de comando. Até a publicação desta matéria, não houve resposta. O espaço permanece aberto para manifestação.
Observação: As normas do Regulamento de Ética Profissional dos Policiais Militares do Paraná se aplicam ao coronel Hudson Leôncio Teixeira?
O Regulamento de Ética Profissional dos Policiais Militares do Paraná, instituído pelo Decreto Estadual nº 5.751/1998, estabelece restrições à participação de militares da ativa em manifestações de natureza político-partidária. Entre as condutas previstas como transgressão disciplinar estão a manifestação pública sobre assuntos político-partidários sem autorização (item 57), a discussão pública de temas políticos ou militares (item 59), a participação em manifestações coletivas de apoio ou crítica a superiores hierárquicos (item 103) e a promoção ou assinatura de publicações com finalidade política (item 105). O § 5º do artigo 7º do mesmo decreto também proíbe manifestações individuais ou coletivas de cunho político-partidário por militares estaduais da ativa.
Diante das imagens do encontro realizado em Maringá, a reportagem questionou a Secretaria de Estado da Segurança Pública e a Polícia Militar do Paraná se essas normas se aplicam às manifestações registradas no evento e se haverá alguma análise administrativa sobre o caso. Até o fechamento desta edição, não houve resposta aos questionamentos encaminhados.
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