Ratinho Junior no púlpito: agradecimento à Assembleia de Deus ou política em ano eleitoral?

Ratinho Junior no púlpito: agradecimento à Assembleia de Deus ou política em ano eleitoral?


Governador afirmou no púlpito que estava “representando o Governo do Estado”, exaltou resultados da administração e agradeceu a igreja por sete anos e meio; em pleno calendário eleitoral, episódio levanta dúvida sobre os limites entre manifestação institucional, religião e interesses políticos

A participação do governador do Paraná, Carlos Massa Ratinho Junior, em uma celebração da Assembleia de Deus abre um questionamento que merece resposta objetiva em pleno ano eleitoral: o governador participou apenas de uma homenagem institucional ou o espaço religioso também serviu, direta ou indiretamente, para aproximar seu grupo político de um eleitorado importante para as eleições de 2026?

No púlpito, Ratinho Junior fez questão de dizer que falava como representante do Estado.

“A minha relação com a Assembleia de Deus, ela vem do meu pai. E hoje, pra mim, é um motivo de muita alegria poder estar aqui representando o Governo do Estado, em nome da nossa população, a gratidão com a Assembleia de Deus”, afirmou.



O governador também citou nominalmente a deputada estadual Cantora Mara Lima (Republicanos).

“A deputada Mara Lima que está aqui, que me ajuda muito na Assembleia”, disse.

A presença e a menção à parlamentar acrescentam um componente político ao episódio. Mara Lima mantém uma relação histórica com a Assembleia de Deus. Material de sua própria trajetória política informa que ela foi indicada pela Convenção das Igrejas Evangélicas Assembleia de Deus no Estado do Paraná (CIEADEP) para representar a instituição eleitoralmente. Em 2010, segundo esse histórico, foi escolhida como candidata oficial ligada à denominação.

Atualmente, Mara Lima exerce mandato de deputada estadual pelo Republicanos na Assembleia Legislativa do Paraná.

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Governador falou de resultados de sua administração

A fala não ficou restrita à homenagem religiosa.

Ratinho Junior aproveitou o púlpito para mencionar resultados de seu governo e afirmou que o Paraná havia sido reconhecido pela educação.

“Nós tivemos uma semana maravilhosa, a semana passada, onde o Paraná foi reconhecido no Brasil como a melhor educação do país por seis anos consecutivos”, declarou.

Depois, relacionou o desempenho de sua gestão aos conselhos recebidos ao longo do governo.

“Eu tive a alegria de ter bons conselheiros, a Assembleia de Deus foi uma delas”, afirmou.

Ao final, agradeceu os 97 anos da Assembleia de Deus e mencionou o pastor Wagner Gabi e a irmã Mel.

O conteúdo, sozinho, não comprova que Ratinho Junior tenha pedido votos para Sandro Alex ou para qualquer outro candidato. No trecho analisado pelo O Diário de Maringá, não aparece pedido explícito de voto nem menção ao nome de Sandro Alex.

Isso, porém, não elimina os questionamentos sobre o contexto completo do evento.

Era homenagem institucional ou também aproximação eleitoral?

Algumas perguntas precisam ser respondidas.

Por que Ratinho Junior fez questão de afirmar, em pleno púlpito, que estava “representando o Governo do Estado”? A participação constava da agenda oficial? Houve utilização de servidores, fotógrafos, assessores, veículos ou outros recursos públicos?

O vídeo foi produzido ou distribuído pela estrutura de comunicação do Governo do Paraná?

Houve pronunciamentos antes ou depois da fala do governador em favor de Sandro Alex ou de outros candidatos ligados ao seu grupo?

Sandro Alex ou representantes de sua pré-campanha estavam no evento?

Lideranças religiosas fizeram manifestação eleitoral durante a cerimônia?

E qual foi o papel político da deputada Mara Lima no encontro, considerando sua ligação histórica com a Assembleia de Deus e a referência feita diretamente pelo governador?

São respostas necessárias antes de qualquer conclusão sobre eventual irregularidade.

TSE considera igreja bem de uso comum para fins eleitorais

A legislação eleitoral impõe limites específicos à propaganda em templos.

Para fins da Lei das Eleições, templos religiosos recebem tratamento de bens de uso comum, ainda que sejam propriedades privadas. A jurisprudência do Tribunal Superior Eleitoral registra que atos de campanha ou manifestações de apoio a candidatos dentro de templos podem caracterizar propaganda eleitoral irregular.

Há, inclusive, precedente atualizado pelo TSE em 2026 sobre propaganda antecipada em templo religioso. O caso envolveu a apresentação de pré-candidato e conteúdo eleitoral dentro de uma igreja.

Outro entendimento reunido pelo Tribunal registra que manifestação de apoio a candidatos em templos pode ser considerada irregular mesmo sem pedido explícito de voto, dependendo das circunstâncias concretas.

Isso não significa que qualquer fala de um governador dentro de uma igreja seja automaticamente propaganda eleitoral.

O contexto é decisivo.

O uso do cargo também precisa ser observado

Existe outra questão.

Ratinho Junior não falou apenas como cidadão ou fiel. Ele próprio afirmou que estava no local “representando o Governo do Estado”.

Caso surjam provas de que cargo, estrutura administrativa, recursos públicos ou autoridade institucional foram empregados para beneficiar determinada candidatura, o episódio poderia entrar em uma discussão eleitoral mais ampla.

A jurisprudência do TSE exige prova consistente e gravidade para reconhecer abuso de poder político. Não basta proximidade política ou religiosa. É necessário demonstrar uso indevido do poder e repercussão capaz de comprometer a normalidade ou a igualdade da disputa.

O Tribunal também deixa claro que não existe, isoladamente, uma categoria jurídica denominada “abuso de poder religioso”. Atos praticados no ambiente religioso podem, entretanto, integrar uma apuração sobre abuso político, econômico ou outras infrações eleitorais quando houver provas do entrelaçamento entre religião e finalidade eleitoral.

A pergunta que precisa ser respondida

Ratinho Junior tem direito de participar de cerimônias religiosas e a Assembleia de Deus tem direito de receber autoridades públicas.

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O problema jurídico surgiria se o espaço religioso fosse transformado em instrumento de promoção eleitoral ou se a estrutura do Governo do Paraná fosse utilizada para favorecer candidatos.

Por isso, mais importante do que interpretar isoladamente alguns minutos de discurso é conhecer o vídeo completo, a programação integral do evento, os demais pronunciamentos, os responsáveis pela produção e divulgação das imagens e a eventual participação de candidatos ou integrantes de campanhas.

No púlpito, Ratinho Junior disse estar representando oficialmente o Governo do Paraná, agradeceu sete anos e meio de relação com a Assembleia de Deus, destacou resultados de sua administração e mencionou a deputada Mara Lima, parlamentar com relação política histórica com a denominação.

Em ano eleitoral, é legítimo perguntar: onde terminou a homenagem institucional e, se houve algum movimento eleitoral no restante do evento, onde começou a campanha?

TV Diário
Gilmar Ferreira

Gilmar Ferreira

Perfil Profissional: Gilmar Ferreira (MTB 0011341/PR) Gilmar Ferreira consolida uma carreira multifacetada como jornalista, apresentador de programas de TV e mestre de cerimônias, unindo o rigor da investigação à fluidez da comunicação ao vivo. Com atuação destacada no Paraná e Santa Catarina, ele imprime autoridade técnica e sensibilidade humana em cada projeto que lidera. Atuação Estratégica Atual Diretor de Redação: O Diário de Maringá. Comentarista: Programa Paraná Cidadesno Canal 10.1 e RDR FM 93,3. Mestre de Cerimônias: Atuação oficial em eventos de destaque no Estado do Paraná. Experiência em Televisão Reconhecido pela presença de vídeo e condução de pautas complexas, Gilmar atuou como apresentador de programas e âncora nas seguintes emissoras: TV Maringá (Band) RIC TV Maringá (Record) Record News (Rede Mercosul) RTV 10 Maringá Trajetória no Rádio Com passagens por emissoras líderes de audiência, sua voz é referência em informação e entretenimento: Paraná: Jovem Pan FM, Metropolitana FM, Rede de Rádios, Globo FM, Rádio Colorado AM e Eden FM. Santa Catarina: Rádio Menina FM e Rádio Globo AM (Blumenau)

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