Se Ratinho Junior continua como sonoplasta do pai, quem dança e paga a conta é o povo paranaense
Crescimento da Rede Massa, gastos com publicidade, contratos públicos e negócios envolvendo familiares alimentam questionamentos sobre a independência política do governador do Paraná
Carlos Massa Ratinho Junior tinha 13 anos quando entrou pela primeira vez em um estúdio de rádio. Não foi como convidado. Foi para trabalhar.
Na Rádio Eldorado, em São José dos Pinhais, de propriedade do pai, o apresentador Carlos Massa, o atual governador do Paraná começou operando o som dos programas. Era responsável por colocar músicas, vinhetas e efeitos no momento determinado pelo comando da atração.
Ratinho Junior nunca escondeu essa origem. Em declarações públicas, chegou a se definir, com orgulho, como o “governador sonoplasta”.
A comparação, antes usada como relato de uma trajetória profissional, ganhou outro significado depois que ele deixou o estúdio e chegou ao Palácio Iguaçu.
A pergunta agora é política: quem determina o ritmo do governo?
Rede de rádios passou de 18 para 77 emissoras
Em janeiro de 2019, quando Ratinho Junior assumiu o Governo do Paraná, a rede de rádios ligada ao pai contava com 18 emissoras afiliadas.
Em 2024, o número havia chegado a 77.
O crescimento foi de quase 328% durante o período em que o filho ocupou o cargo mais importante do Executivo estadual.
Na televisão, o cenário permaneceu estável. A Rede Massa continuou com cinco emissoras, o mesmo número registrado desde 2008.
A expansão, portanto, concentrou-se no rádio, segmento que também recebe recursos de campanhas publicitárias e institucionais do Governo do Estado.
O crescimento empresarial, isoladamente, não comprova irregularidade. Ainda assim, a evolução registrada durante o mandato do governador exige transparência sobre a distribuição das verbas públicas destinadas aos veículos de comunicação.
Gastos com publicidade cresceram até 2022
Dados da Secretaria de Estado da Comunicação do Paraná, citados pelo deputado estadual Goura, do PDT, na Assembleia Legislativa, apontam que o governo gastou R$ 71 milhões em publicidade oficial em 2019.
Em 2020, o valor chegou a R$ 107 milhões.
No ano seguinte, subiu para R$ 161 milhões. Em 2022, o gasto informado foi de R$ 129 milhões.
Segundo os números apresentados pelo parlamentar, o total acumulado chegou a R$ 517 milhões até abril de 2023.
Descontada a inflação, o crescimento real entre 2019 e 2022 ficou próximo de 53%.
Depois desse período, porém, os dados deixaram de aparecer de forma consolidada e sistemática.
Não há, entre as informações apresentadas, um relatório público completo sobre os gastos com publicidade oficial no segundo semestre de 2023 e nos anos de 2024, 2025 e 2026.
Goura já criticou, em plenário, a política de transparência do governo nessa área.
A ausência de informações detalhadas impede que a população saiba quanto foi gasto, quais veículos receberam os recursos e quais critérios orientaram a distribuição.
O problema se torna ainda mais sensível porque a família do governador controla um dos maiores grupos de comunicação do Estado.
Irmão do governador entrou em sociedade em 2023
Gabriel Massa, irmão de Ratinho Junior, tornou-se sócio, em abril de 2023, de Rodolfo de Souza Aires, proprietário da Linea Tecnologia.
A empresa passou a figurar entre as principais contratadas da Companhia de Tecnologia da Informação e Comunicação do Paraná, a Celepar.
Entre 2022 e 2025, os contratos atribuídos à empresa somaram mais de R$ 140 milhões.
Os valores teriam passado de aproximadamente R$ 8 milhões para R$ 79 milhões no período analisado.
A sociedade envolvendo o irmão do governador não comprova, por si só, interferência em licitações ou favorecimento.
A proximidade entre as datas, contudo, torna necessária a divulgação completa dos processos, critérios técnicos, concorrentes, valores e serviços contratados.
Transparência, nesse caso, não é favor. É obrigação administrativa.
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Empresas do pai receberam R$ 24 milhões do Banco Master
Documentos da Receita Federal enviados à Comissão Parlamentar de Inquérito do Crime Organizado indicam que empresas ligadas a Carlos Massa receberam R$ 24 milhões do Banco Master entre 2022 e 2025.
Desse montante, R$ 21 milhões teriam sido destinados à Massa Intermediação, empresa registrada no município de Marumbi.
O jornalista Gilmar Ferreira esteve no endereço informado como sede da empresa.
No local, encontrou um imóvel com características de comércio voltado ao setor de confecção infantil, sem estrutura aparente compatível com uma consultoria que teria recebido valores dessa dimensão.
A constatação visual não permite concluir, sozinha, que os serviços não foram prestados.
Cabe às empresas envolvidas e aos órgãos de fiscalização demonstrar quais atividades foram realizadas, quais contratos sustentaram os pagamentos e qual estrutura operacional foi utilizada.
Cooperativa recebeu benefício fiscal e contratou Carlos Massa
Em 2024, a Lar Cooperativa Agroindustrial deixou de recolher R$ 470,4 milhões em impostos estaduais, conforme os dados citados.
O valor representou o maior benefício fiscal individual concedido pelo Paraná naquele ano.
Em setembro de 2025, cerca de um ano depois, a cooperativa anunciou Carlos Massa como seu novo embaixador nacional.
Não há, nas informações apresentadas, prova de que a concessão do benefício fiscal esteja relacionada à contratação publicitária posterior.
Também não seria correto afirmar que um fato provocou o outro.
A sequência, no entanto, justifica questionamentos sobre os critérios adotados pelo governo, os resultados esperados com a renúncia fiscal e a relação posterior da empresa beneficiada com o pai do governador.
O Estado precisa demonstrar qual interesse público sustentou a concessão dos R$ 470,4 milhões.
A cooperativa, por sua vez, pode esclarecer os critérios comerciais usados para contratar Carlos Massa.
Rodovia beneficiará região de resort ligado ao pai
Ratinho Junior anunciou investimento de R$ 254,5 milhões para a duplicação da PR-412, entre Guaratuba e Garuva, em Santa Catarina.
Na mesma região beneficiada pela obra, Carlos Massa tornou-se sócio e embaixador do Mirante da Serra, empreendimento apresentado como resort de alto padrão.
Em 2022, Ratinho Junior levou o então presidente Jair Bolsonaro ao local para conhecer as obras do empreendimento.
Uma rodovia atende moradores, turistas, transportadores e empresários de toda a região. Não se pode reduzir uma obra pública dessa dimensão ao interesse de um único empreendimento.
A participação do pai do governador em um negócio que poderá ser valorizado pelo investimento estadual, porém, cria um conflito aparente que deveria ser tratado com documentos, critérios técnicos e informações públicas.
O governo precisa explicar como definiu a prioridade da obra, quais estudos de demanda foram usados e quais áreas terão maior valorização econômica.
Jornalista recebeu ameaça após fazer questionamentos
O jornalista Marcos Formighieri, da Gazeta do Paraná, questiona há anos o que define como uma simbiose entre a Rede Massa e o Palácio Iguaçu.
Em resposta às críticas, Carlos Massa afirmou, durante uma transmissão, que mantinha um taco de beisebol reservado para as pernas do jornalista.
Questionamentos jornalísticos devem receber respostas baseadas em documentos e informações verificáveis.
Ameaças, ainda que apresentadas em tom de provocação, não esclarecem contratos, verbas publicitárias, benefícios fiscais ou relações empresariais.
A crítica ao poder faz parte da democracia. Quem ocupa posição pública ou mantém relação direta com autoridades precisa responder aos fatos, não atacar quem pergunta.
O conjunto dos fatos amplia os questionamentos
Nenhum dos episódios apresentados comprova, isoladamente, que Ratinho Junior tenha cometido ilegalidade ou determinado medidas para beneficiar o pai ou o irmão.
O debate surge quando todos os acontecimentos são analisados em conjunto.
Durante o mandato do governador, a Rede Massa ampliou de 18 para 77 o número de rádios afiliadas. Ao mesmo tempo, os gastos estaduais com publicidade cresceram de forma significativa até 2022. Depois disso, deixaram de ser divulgados de forma consolidada.
Além disso, uma empresa ligada ao sócio do irmão do governador ampliou expressivamente o volume de contratos firmados com a Companhia de Tecnologia da Informação e Comunicação do Paraná (Celepar).
Também vieram a público documentos indicando que empresas ligadas a Carlos Massa receberam R$ 24 milhões do Banco Master, dos quais R$ 21 milhões foram destinados à Massa Intermediação.
Por outro lado, a maior beneficiária individual de renúncia fiscal do Paraná contratou Carlos Massa como embaixador nacional cerca de um ano depois de receber o incentivo.
Já uma obra pública de R$ 254,5 milhões poderá beneficiar a região onde o pai do governador passou a integrar um empreendimento imobiliário.
Isoladamente, cada episódio possui contexto próprio. Em conjunto, porém, eles alimentam questionamentos que dificilmente deixam de despertar interesse público.
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Transparência é o caminho para afastar dúvidas
Somam-se a esses episódios relações pessoais e políticas de Carlos Massa com integrantes do governo, incluindo pessoas apontadas como amigos próximos e companheiros de pescaria que ocupam cargos na administração estadual.
Naturalmente, amizade não é crime. Relação familiar também não.
Da mesma forma, o crescimento de empresas privadas ou a participação em sociedades comerciais não significam, por si, qualquer irregularidade.
Ainda assim, quando interesses privados convivem tão próximos do poder público, aumenta a necessidade de transparência.
Por isso, cabe ao governo demonstrar que todas as decisões foram tomadas com base em critérios técnicos, interesse público e absoluta independência.
Da mesma forma, a divulgação completa dos gastos com publicidade, dos contratos administrativos e das justificativas para benefícios fiscais contribuiria para reduzir dúvidas que permanecem no debate político.
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A pergunta que permanece
Ratinho Junior começou a vida profissional como sonoplasta. Naquele período, era responsável por colocar no ar a música escolhida pelo pai.
Hoje, muitos anos depois, a comparação continua surgindo no debate político.
A pergunta não é se o governador trabalhou na rádio da família. Isso é um fato conhecido.
A questão é outra.
Ratinho Junior conquistou independência suficiente para contrariar interesses econômicos e políticos ligados à própria família quando necessário?
Ou continua, ao menos na percepção de parte da opinião pública, apenas executando uma trilha definida fora do Palácio Iguaçu?
Essa resposta depende do próprio governador.
Quanto maior for a transparência sobre publicidade oficial, contratos públicos, benefícios fiscais e relações envolvendo familiares, menor será o espaço para interpretações.
Enquanto isso não acontece, a metáfora do “governador sonoplasta” continuará presente no debate político. E, se um governo passar a tocar uma música que atenda mais a interesses privados do que ao interesse coletivo, quem estará dançando e pagando a conta será o povo paranaense.
Mas um governo precisa demonstrar que seus atos não obedecem a vínculos privados, relações comerciais ou interesses de pessoas próximas ao chefe do Executivo.
Ratinho Junior começou na rádio como sonoplasta. Naquele tempo, colocava a música e ajustava o ritmo conforme as determinações do pai.
Hoje, a dúvida que permanece é se ele conquistou autonomia política para contrariar os interesses econômicos e pessoais de Carlos Massa ou se continua, supostamente, tocando no governo a trilha escolhida fora do Palácio Iguaçu.
É uma pergunta, não uma condenação.
Cabe ao governador respondê-la com transparência, divulgação dos gastos publicitários, abertura dos contratos, critérios técnicos para benefícios fiscais e explicações claras sobre as relações entre o governo e os negócios de seus familiares.
Caso se confirme que interesses privados influenciam o ritmo da administração, Ratinho Junior continuará exercendo no Palácio Iguaçu o papel que desempenhava na rádio: colocar no ar a música que o pai escolheu.
E, se essa for realmente a lógica do governo, quem está pagando a conta e dançando conforme a música é o povo paranaense.
Imagem da manchete feita por IA para ilustrar a matéria.
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