Nem ameaça de retaliação de Ratinho Junior freia movimento: lideranças municipais se aproximam de Moro
Informações de bastidores apontam descontentamento de prefeitos com compromissos assumidos pelo Governo do Paraná e por nomes como Guto Silva e Sandro Alex. Obras esperadas nos municípios não avançaram ou não foram entregues, enquanto Moro amplia articulação pelo interior.
O encontro que reuniu nesta sexta-feira (7) lideranças de mais de 50 municípios em apoio a Sergio Moro não pode ser analisado apenas como mais um ato de campanha. Nos bastidores da política paranaense, há outro componente que ajuda a explicar a movimentação: o descontentamento de prefeitos e lideranças municipais com o Governo do Paraná.
Segundo informações recebidas pelo O Diário de Maringá em diferentes oportunidades, parte dessa insatisfação está relacionada a compromissos assumidos com municípios que não teriam sido cumpridos da maneira esperada.
Os relatos envolvem promessas e tratativas feitas ao longo do governo de Carlos Massa Ratinho Junior (PSD), inclusive em articulações que passaram por Guto Silva e Sandro Alex.
Prefeitos ouvidos reservadamente em diferentes momentos reclamaram de obras importantes que aguardavam nos municípios e que não avançaram, atrasaram ou não foram entregues conforme as expectativas criadas nas conversas políticas.
Para um prefeito, uma obra que não sai do papel não representa apenas um problema administrativo. Existe uma cobrança direta da população, principalmente quando o próprio município anunciou ou aguardou determinado investimento depois de tratativas com o Estado.
É nesse ambiente que Sergio Moro tenta avançar.
Mais de 50 municípios aparecem na articulação de Moro
O Podemos Paraná reuniu nesta sexta-feira prefeitos, vereadores, ex-vereadores, suplentes e outras lideranças de mais de 50 municípios em apoio a Moro.
O encontro teve participação destacada do deputado federal Felipe Francischini, responsável por parte da articulação política.
Entre os presentes estava a prefeita de Ponta Grossa, Elizabeth Schmidt. Curitiba também contou com um grupo formado por vereadores, suplentes, ex-vereadores e outras lideranças.
É importante fazer uma distinção: representantes de mais de 50 municípios não significam mais de 50 prefeitos.
Também não é possível afirmar que todos estavam anteriormente no grupo de Ratinho Junior e agora migraram para Moro.
O movimento, porém, revela que o senador consegue reunir publicamente uma quantidade significativa de lideranças municipais enquanto o grupo governista tenta consolidar Sandro Alex na disputa pelo Palácio Iguaçu.
Prefeitos cobram palavra e obras
O problema para o grupo governista não estaria restrito à disputa eleitoral.
Nos bastidores, uma reclamação aparece com frequência: a palavra empenhada em determinadas articulações não teria se transformado, em vários casos, na entrega esperada pelos municípios.
Segundo informações recebidas pelo O Diário de Maringá, existem prefeitos descontentes porque investimentos considerados importantes para suas cidades não avançaram como esperavam.
Parte dessas expectativas nasceu de conversas e compromissos políticos envolvendo integrantes do primeiro escalão estadual e lideranças que ganharam protagonismo na construção da sucessão de Ratinho Junior.
Entre os nomes citados nessas articulações estão Guto Silva e Sandro Alex.
Isso não significa que todas as obras prometidas pelo Governo do Paraná estejam paralisadas ou que todos os compromissos assumidos tenham sido descumpridos. A afirmação seria incompatível com os dados disponíveis.
O que existe, conforme os relatos de bastidores recebidos pelo jornal, é um grupo de prefeitos insatisfeito com compromissos específicos que esperava ver concretizados.
E essa diferença é fundamental.
A insatisfação não surge necessariamente de uma divergência ideológica. Em alguns casos, nasce de algo muito mais simples para quem administra uma cidade: a obra esperada não chegou.
Quando a promessa não chega, a cobrança fica para o prefeito
Nos municípios, principalmente nos menores, o prefeito é quem precisa responder diretamente à população.
Se uma obra é anunciada, discutida ou prometida e depois não avança, o eleitor não cobra primeiro o secretário estadual ou o governador. Cobra quem está na prefeitura.
Esse cenário ajuda a compreender por que compromissos não concretizados podem produzir desgaste político.
Uma obra de infraestrutura, pavimentação, escola, unidade de saúde ou qualquer outro investimento relevante pode representar uma das principais entregas de uma administração municipal.
Quando o recurso ou a execução não chegam, sobra ao prefeito explicar.
Segundo os relatos recebidos pelo jornal, é justamente esse tipo de situação que vem provocando incômodo em parte das bases municipais.
Pressão política também aparece nos bastidores
Existe ainda outro componente.
O Diário de Maringá já recebeu, em outras oportunidades, informações de bastidores sobre pressão política, temor de retaliação e receio de lideranças municipais em romper com o grupo governista.
Esses relatos são anteriores ao encontro desta sexta-feira.
Não foram os prefeitos presentes no evento que declararam ao jornal, durante a reunião, terem sofrido perseguição.
Também não há, no material apresentado até agora, documentação suficiente para afirmar que Ratinho Junior pessoalmente tenha ordenado perseguição ou chantagem contra determinado prefeito.
A existência desse ambiente de pressão, porém, aparece também nas falas públicas das lideranças que estão com Moro.
Moro promete defender quem “não se dobrar”
Sergio Moro tratou do assunto ao discursar no encontro.
O senador afirmou que pretende defender seus aliados e destacou Felipe Francischini como exemplo de quem teria demonstrado coragem diante das pressões políticas.
“Essa mesma vontade e determinação para enfrentar esses problemas eu vou utilizar para defender os nossos aliados. Esse é um projeto conjunto, e vou valorizar quem, nesse momento, mostrou a coragem necessária para erguer a cabeça e não se dobrar”, declarou.
Moro não apresentou naquele momento uma relação de prefeitos perseguidos nem identificou episódios específicos.
Mas a expressão “não se dobrar” não apareceu isoladamente no encontro.
Francischini fala em perseguição
Felipe Francischini foi ainda mais direto.
O deputado reafirmou seu apoio a Moro e defendeu que os resultados positivos do Paraná não podem ser atribuídos exclusivamente ao atual governo.
“Esse projeto de governo do Estado é um projeto que nós sabemos que muita coisa boa foi feita. Mas por que muita coisa boa foi feita? Porque o Paraná é a quarta maior economia do Brasil, é o estado mais forte no cooperativismo, que tem uma indústria forte, um povo trabalhador, um agro que nem se fala”, afirmou.
Francischini disse que essa força vem da própria sociedade paranaense.
“Então, o nosso Estado possui uma força que vem de baixo para cima, vem das pessoas, vem do comércio, vem do Paraná ser realmente um estado diferenciado.”
Na sequência, mencionou diretamente a questão política.
“Eu tenho certeza que o senador Sergio Moro, como governador, não vai ter essa perseguição política que eles falam. É daqui pra melhor”, declarou.
Lu Bonatto manda recado aos municípios pequenos
A presidente do Podemos Paraná, Lu Bonatto, também tocou no ponto mais sensível dessa disputa.
Ela falou sobre coragem para fazer escolhas e dirigiu parte de sua declaração especialmente às lideranças das pequenas cidades.
“Toda escolha exige uma renúncia. Nesse momento, nós renunciamos aqui à falta de coragem. Nós renunciamos aqui também a quem fica em cima do muro, quem se abstém das escolhas que precisam ser feitas”, afirmou.
Depois veio o alerta:
“Eu sei que, principalmente vocês, dos municípios pequenos, enfrentarão uma questão muito grande. E, para isso, nós precisamos fazer a escolha certa.”
A fala ganha relevância quando colocada ao lado das informações que circulam nos bastidores sobre a relação entre o Governo do Estado e suas bases municipais.
O problema para Ratinho Junior pode estar na própria base
Ratinho Junior chega à sucessão com uma estrutura política construída durante quase oito anos de governo.
Sandro Alex representa a continuidade desse grupo.
Guto Silva também exerceu papel importante nas articulações políticas do governo e na relação com lideranças municipais ao longo desse período.
Mas estrutura partidária e apoio institucional não eliminam insatisfações.
Quando prefeitos consideram que compromissos assumidos não foram cumpridos, principalmente aqueles relacionados a obras importantes, a relação política começa a sofrer desgaste.
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É justamente aí que Moro tenta entrar.
O senador precisa transformar força eleitoral em estrutura municipal. Para isso, necessita de prefeitos, vereadores e lideranças capazes de montar palanques e organizar sua campanha no interior.
O encontro desta sexta-feira mostra que essa construção está em andamento.
É debandada?
Ainda seria precipitado afirmar que existe uma debandada generalizada de prefeitos da base de Ratinho Junior.
Para fazer essa afirmação numericamente seria necessário identificar quem apoiava o governador, quem estava comprometido com Sandro Alex e quem efetivamente mudou de lado.
Mas há sinais políticos que merecem atenção.
Primeiro, representantes de mais de 50 municípios decidiram participar de uma mobilização pública em apoio a Moro.
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Segundo, existem relatos de bastidores sobre prefeitos descontentes com compromissos que não teriam sido concretizados.
Terceiro, integrantes do próprio grupo de Moro passaram a falar publicamente em pressão, perseguição, coragem e necessidade de “não se dobrar”.
E há um quarto elemento: a eleição ainda está começando.
Se a insatisfação permanecer e outras lideranças municipais começarem a assumir publicamente posições semelhantes, aquilo que hoje aparece como movimentação poderá ganhar dimensão maior.
A conta das promessas começa a chegar
O grupo de Ratinho Junior tem estrutura, partidos, prefeitos e quase oito anos de governo para apresentar ao eleitor.
Moro tenta construir exatamente aquilo que ainda lhe falta: uma rede municipal suficientemente forte para enfrentar essa máquina.
É por isso que o encontro desta sexta-feira importa.
A presença de lideranças de mais de 50 municípios não comprova, sozinha, uma debandada.
Mas mostra que existe espaço para Moro avançar.
E, segundo as informações que chegam dos bastidores ao O Diário de Maringá, parte desse espaço não foi criada apenas pelo senador.
Também nasceu da insatisfação de prefeitos que esperaram obras e compromissos assumidos ao longo dos últimos anos e consideram que a palavra dada pelo governo e por seus interlocutores não se transformou naquilo que suas cidades aguardavam.
Na política municipal, promessa pode render apoio.
Quando a entrega não chega, porém, a mesma promessa pode produzir o efeito contrário.



